Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Quando o Lemos na qualidade de tio fora pelo juiz de órfãos encarregado da tutela de Aurélia, deu-se um incidente que desde logo determinou a natureza das relações entre o tutor e sua pupila. 

Pretendia o velho levar a menina para a companhia de sua família. 

Opôs-se formalmente Aurélia; e declarou que era sua intenção viver em casa própria, na companhia de D. Firmina Mascarenhas. 

- Mas atenda, minha menina, que ainda é menor. 

- Tenho dezoito anos. 

- Só aos vinte e um é que poderá viver sobre si e governar-se. 

- É a sua opinião? Vou pedir ao juiz que me dê outro tutor mais condescendente.

- Como diz? 

- E tais argumentos lhe apresentarei, que ele há de atender-me. 

A vista desse tom positivo, o Lemos refletiu, e julgou mais prudente não contrariar a vontade da menina. Aquela idéia do pedido ao juiz para remoção da tutela não lhe agradara. Pensava ele que às mulheres ricas e bonitas não faltam protetores de influência. 

Logo depois dos cumprimentos, D. Firmina retirou-se para deixar a moça em liberdade. Bem desejos tinha a viúva de assistir a essas conferências que o Lemos costumava Ter de vez em quando com a pupila acerca de contas da tutela; mas neste ponto Aurélia era de extrema reserva e não gostava que ninguém entendesse com o que ela chamava seus negócios. 

- Faça favor, meu tio! Disse a moça abrindo uma porta lateral. 

Essa porta dava para um gabinete elegantemente mobiliado; o centro era ocupado por uma banca oval, como o resto dos trastes, de erable e coberta com um pano azul de franjas escarlates. Sobre a mesa, em salva de prata, havia o tinteiro e mais preparos de escrever. 

No momento em que Aurélia, depois de passar o Lemos, ia por sua vez entrar no gabinete, apareceu à porta da saleta a Bernardina, velha a quem a menina protegia com esmolas. A sujeita parara com um modo tímido, esperando permissão para adiantar-se. 

Aurélia aproximou-se dela com um gesto de interrogação. 

- Quis vir ontem, segredou a Bernardina; mas não pude, que atacou-me o reumatismo. Era para dizer que ele chegou. 

- Já sabia! 

- Ah! Quem lhe contou? Pois foi ontem, havia de ser mais de meio dia. 

- Entre! 

Aurélia cortou o diálogo, indicando à velha o corredor que levava para o interior; e passando ao gabinete cerrou a porta sobre si. 

Não escapou este pormenor ao Lemos, que pela solenidade da conferência avaliava de sua importância. 

Com que história virá ela hoje? Dizia entre si o alegre velhinho. 

Aurélia sentou-se à mesa de erable, convidando o tutor a ocupar a poltrona que lhe ficava defronte. 

 

IV 

 

Quem observasse Aurélia naquele momento, não deixaria de notar a nova fisionomia que tomara o seu belo semblante e que influía em toda a sua pessoa. 

Era uma expressão fria, pausada, inflexível, que jaspeava sua beleza, dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no lampejo de seus grandes olhos pardos brilhavam as irradiações da inteligência. Operava-se nela uma revolução. O princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem. 

Nessas ocasiões seu espírito adquiria tal lucidez que fazia correr um calafrio pela medula do Lemos, apesar do lombo maciço de que a natureza havia forrado no roliço velhinho o tronco do sistema nervoso. 

Era realmente para causar pasmo aos estranhos e susto a um tutor, a perspicácia com que essa moça de dezoito anos apreciava as questões mais complicadas; o perfeito conhecimento que mostrava dos negócios, e a facilidade com que fazia, muitas vezes de memória, qualquer operação aritmética por muito difícil e intrincada que fosse. 

Não havia porém em Aurélia nem sombra do ridículo pedantismo que certas moças que, tendo colhido em leituras superficiais algumas noções vagas, se metem a tagarelar de tudo. 

Bem ao contrário, ela recatava suas experiência, de que só fazia uso, quando o exigiam seus próprios interesses. Fora daí ninguém lhe ouvia falar de negócios e emitir opinião acerca de coisas que não pertencesse à usa especialidade de moça solteira. 

O Lemos não estava a gosto; tinha perdido aquela jovialidade saltitante, que lhe dava um gracioso ar de pipoca. Na gravidade desusada dessa conferência, ele, homem experiente e sagaz, entrevia sérias complicações. 

Assim era todo ouvidos, atento às palavras da moça. 

- Tomei a liberdade de incomodá-lo, meu tio, para falar-lhe de objeto muito importante para mim. 

- Ah! Muito importante?... repetiu o velho batendo a cabeça. 

- De meu casamento! Disse Aurélia com a maior frieza e serenidade. 

O velhinho saltou na cadeira como um balão elástico. Para disfarçar sua comoção esfregou as mãos rapidamente uma na outra, gesto que indicava nele grande agitação. 

- Não acha que já estou em idade de pensar nisso? Perguntou a moça.

- Certamente! Dezoito anos... 

- Dezenove. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...45678...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →