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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel (ouvindo bater à porta da rua) — Meu marido! Eis o que eu temia, Henrique!

Henrique (quer sair) — Não posso vê-lo!

Isabel (com império) — Fique!

Henrique — Não sei fingir, Bela!

Isabel — Mas esse mistério pode condenar-me, Henrique!

Henrique — A ti, a mais pura e a mais santa das mulheres!... Impossível. (Abre uma janela) Ninguém me verá. A noite está escura e o jardim deserto.

Isabel — Mas é uma imprudência...

Henrique (na janela, já oculto pelas cortinas) — Lembre-se alguma vez do mísero que enlouqueceu porque teve a desgraça de amá-la mais do que a um pai...

Isabel — Adeus! E esqueça-me...



(Miranda entra e ouve as últimas palavras de Isabel que enxuga uma lágrima e voltando-se acha-se em frente do marido que se tendo precipitado, a arreda violentamente e corre á janela)

CENA XIII

Isabel e Miranda



(Miranda corre â janela e já não vê o vulto; luta, perplexidade entre o ímpeto de lançar-se pela janela e dirigir-se â mulher)

Miranda (rindo convulso) — Que importa! É um homem qualquer... o instrumento da desonra! O pretexto do crime!

Isabel (espanto) — Ah! (Pausa)

Miranda (toma a luz e esclarece o rosto de Isabel) — Ainda cora!

Isabel — De indignação, senhor!

Miranda — Nem uma palavra!

Isabel — Oh!. não me defendo... Se eu fosse criminosa, já estava morta de vergonha a seus pés.

Miranda — Quem era esse homem?

Isabel — Oh! Não! Nunca!

Miranda — Quem era esse homem, senhora? (Pausa) É escusado o silêncio.

Isabel — Que diz, senhor?

Miranda (mostrando a rosa, que apanha aos pés de Isabel) — Por quem, meu Deus!... Por um Sales!... (Cobre o rosto com as mãos e soluça. Isabel olha-o com desespero)

Isabel — Eu sou inocente, Augusto!

Miranda — Vi tudo, senhora!... Vi... Não cuide que a espiei. Oh não! minha confiança era cega. Mas disseram-me que se tinha recolhido incomodada, e eu abafei os meus passos para não perturbar o seu sossego! (Ri-se) Imbecil! (Miranda fecha as portas, vai ao gabinete; traz um par de pistolas. Isabel, enquanto ele sai, ajoelha)

Isabel — Dá-me coragem... meu Deus!

Miranda — Ele vai julgar-nos. (Carrega as pistolas)

Isabel — É um crime inútil, senhor. Sei respeitar a sua e a minha honra.

Miranda — Inútil é a vida que me deixou depois de calcar aos pés a minha felicidade. (Aponta)

Isabel — Oh! (Grito de pavor. Iaiá bate na porta, chamando: papai)

Miranda — Minha filha! Ah! é preciso viver para ela... e para o mundo! Quanto a vos... morremos um para o outro.



ATO SEGUNDO Em casa de Miranda — Varanda interior.

CENA PRIMEIRA

Rita e Joaquim

(Joaquim deita jornais e cartas sobre a mesa. Rita sai da janela)

Rita— O carro já está pronto, Joaquim?

Joaquim — Quem mandou aprontar?

Rita— Ninguém. Iaiá não passeia todos os dias?

Joaquim — Passeia com você.

Rita— Pois então?

Joaquim — Ninguém deu ordem.

Rita— Se a gente for esperar por isso, não se faz nada. Você vê quando é para deitar o jantar; pergunta-se ao Senhor, ele diz: "Se a Senhora mandar". Vai-se perguntar à Senhora, ela diz: "Se o Senhor mandar". E assim é tudo.

Joaquim — Que tem você com isso?

Rita— É que se a gente não fizer as cousas, ninguém manda fazer.

Joaquim — Branco lá se entende. Vá vivendo sua vida, Rita, que Senhor é muito bom.

Rita— Quem não sabe disto? Minha Senhora, essa é mesmo uma santa. Olhe, Joaquim! Tenho uma pena de ver como ela se amofina. E é por causa de seu Senhor!

Joaquim — Cale a sua boca, Rita. Não se meta onde não é chamada.

Rita— Mas, diga uma cousa! Antes de Nhanhã Clarinha casar, não andava tudo tão direito?

Joaquim — Tal e qual, como agora.

Rita— Que história! Esta casa era uma alegria!... Sinhá brincava que parecia uma mocinha: Nhanhã estava sempre rindo e cantando; e Senhor moço Henrique esse nem se fala. Depois daquela doença grande de meu Senhor é que tudo mudou.

Joaquim — Aí vem Senhora; bico!



CENA II

Os mesmos, Isabel e Iaiá

Isabel (trazendo Iaiá pela mão) — Senhor já saiu?...

Joaquim — Não Senhora. Está no gabinete falando com um caixeiro do Sr. Souto.

Isabel — Agora Iaiá vai passear, sim?... Passear no carro com Rita!

Rita— Venha, Iaiá!

Isabel — Olhe, Rita está chamando. Não dá um beijo na sua Mamãe, não?... beija. Ah!... Agora vá dar um em Papai para Iaiá ficar bonita. (Rita toma a menina)

Rita— Diga — Mamãe adeus!... Diga... Ora Iaiá é feia.

Isabel — Tem cuidado com o vento! Ela não está boa.

Rita— Eu abaixo sempre as vidraças do carro.

Joaquim — O tempo está muito bom, sim Senhora.

Rita— Vamos tomar a benção a Papai?

Isabel — Adeus!... (a Rita) não te demores muito.



CENA IIl

Isabel e Joaquim

Joaquim — Esta carta é para minha Senhora.

Isabel — Entrega a teu Senhor.

Joaquim — Mas ele não gosta.

Isabel — Reúna com as outras.

Joaquim — Minha Senhora quer ler os jornais?

Isabel — Depois, se ficarem aí.

Joaquim — Mando pôr o almoço?

Isabel — Teu Senhor já pediu?

Joaquim — Ainda não, Senhora.

Isabel — Escuta! ele anda doente?

Joaquim — Não, Senhora.

Isabel — Ontem estava tão pálido...

Joaquim — Meu Senhor trabalha muito.

Isabel — Passa as noites a escrever! E isso faz-lhe tanto mal!

Joaquim — Esta noite ele dormiu cedo!

(continua...)

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