Por José de Alencar (1875)
Já próximo à porta, violenta comoção o abalou. Dos lábios frouxos da donzela se desprendera em mavioso queixume um nome, e esse nome era o seu:
– Arnaldo!
Irresistível impulso arrojou-o para a donzela; mas, como o cedro que o vento inclina, sem arranca-lo do solo onde lançou a profunda raiz, o sertanejo tinha dentro d’alma um poderoso sentimento, que lhe encadeava os assomos da paixão, e o soldava ao pavimento.
Foi lentamente e com supremo esfôrço tornando do primeiro elance, até que, arrancando-se enfim ao encanto que alí o prendera, desapareceu da sala.
Levantara-se então um grande alarido no terreiro da casa.
III – Chegada
Quando o capitão-mór reconheceu os primeiros sinais do incêndio, preveniu a gente de sua
escolta.
— Queimada, Agrela? disse êle surpreso. Neste tempo e nestas paragens, não pode ser.
— É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas no cavalo. Toca avante a escolta.
O trôço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo do propagar-se pela floresta.
Enquanto êles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam para longe todo êsse chamiço, isolando os grossos troncos, que se não podiam facilmente derrubar na ocasião.
No meio dessa faina que o capitão-mór dirigia em pessoa e animava com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia correr a donzela nesse instante, se é que já não fôra vítima da horrível catástrofe.
— Minha filha!… Flor!… bradava a desolada mãe.
E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespêro à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.
Rápida contração frisou o rosto grave e plácido do capitão-mór, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia que recalcou a primeira impulsão, pela fôrça com que o velho se firmou na sela, vergando ao seu pêso o espinhaço da cavalgadura à feição de um arco.
— Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa filha não corre perigo.
— De-certo, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse ao caminho, senão teria voltado.
— Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à nossa casa, observou o capitãomór e tomou ao serviço: Aguenta, rapazes!
— Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez teimasse em passar para mostrar que não tem mêdo.
— Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma coisa, do que Deus nos livre e guarde…
— Amém! disse a dama.
O capitão-mór tirou o chapéu, gesto que toda a escolta imitou.
— Por fôrça que se havia de ouvir!
— Com êsse barulho do fogo, que parece uma trovoada!…
— Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe a pele!
— Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mór.
— A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um cavalo que está rinchando lá em casa?
— É verdade! exclamou D. Genoveva.
Agrela aplicou o ouvido.
— E não é outro senão o baio!
— Está vendo, D. Genoveva?
A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente o coração, deixa uma incredulidade, que se não desvanece com palavras e muitas vezes resiste à própria realidade.
É só depois que ao coração, como ao lago revôlto pela tempestade, volta a bonança, que êle recobra sua limpidez, na qual espelha as celestes esperanças.
— Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada, sr. Campelo.
O capitão-mór voltou-se para Agrela. Minha senhora dona já pode passar, disse o tenente.
Olá, o Xavier e o Benteví!
— Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.
— Ordena o sr. capitão-mór que acompanhem à casa a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.
— Ordenamos!
— Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta de aflições.
O capitão-mór fez à mulher uma respeitosa cortesia, e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tomou ao serviço que sua gente empreendera para atalhar o incêndio e salvar as matas vizinhas, ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.
O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na direção da fazenda tinha cortado a tromba do incêndio que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada, onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou a apagar-se, ficando apenas o brasido.
Todavia, não era prudente abandonar êsse imenso borralho, donde o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.