Por José de Alencar (1857)
O silêncio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus ecos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas interrompido um momento pelo passo dos animais, que faziam estalar as folhas secas.
Parecia que deviam ser seis horas da tarde, e que o dia caindo envolvia a terra nas sombras pardacentas do ocaso.
Álvaro de Sá, embora habituado a esta ilusão, não pôde deixar de sobressaltar-se um instante, em que, saindo da sua meditação, viu-se de repente no meio do claro-escuro da floresta.
Involuntariamente ergueu a cabeça para ver se através da cúpula de verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma centelha de luz que lhe indicasse a hora.
Loredano não pôde reprimir a risada sardônica que lhe veio aos lábios.
— Não vos dê cuidado, sr. cavalheiro, antes de seis horas li estaremos; sou eu que vo-lo digo. O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.
— Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma coisa, mas falta-vos o animo de a proferir. Uma vez por todas, falai abertamente, e Deus vos guarde de tocar em objetos que são sagrados.
Os olhos do italiano lançaram uma faisca; mas o seu rosto conservou-se calmo e sereno.
— Bem sabeis que vos devo obediência, sr. cavalheiro, e não faltarei dela. Desejais que fale claramente, e a mim me parece que nada do que tenho dito pode ser mais claro do que é.
— Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para outros.
— Ora dizei-me, sr. cavalheiro; não vos parece claro, à vista do que me ouvistes, que adivinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa possível?
— Quanto a isto, já vos confessei eu; não há pois grande mérito em adivinhar.
— Não vos parece claro também que observei haverdes feito esta expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias eis-nos ao cabo dela?
— Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a opor.
— Não decerto; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com satisfação, quando o coração nele se interessa.
— Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e colhendo as rédeas.
O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continuou:
— Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem; foi de D. Antônio de Mariz, sem dúvida?
— Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me, replicou o moço com arrogância.
— Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano cortesmente, partistes do Paquequer em uma segunda-feira, quando o dia designado era um domingo.
— Ah! também reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de despeito.
— Reparo em tudo, sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda, que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente antes do domingo.
— E não observastes mais nada? perguntou Álvaro com a voz trêmula e fazendo um esforço para conter-se.
— Não me escapou também uma pequena circunstância de que já vos falei.
— E qual é ela, se vos praz?
— Oh! não vale a pena repetir: é coisa de somenos.
— Dizei sempre, Sr. Loredano; nada é perdido entre dois homens que se entendem, replicou Álvaro com um olhar de ameaça.
— Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D. Antônio, e o italiano carregou nessa palavra, manda-vos estar no Paquequer um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.
— Tendes um dom admirável, Sr. Loredano: o que é de lamentar, é que o empregueis em futilidades.
— Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a olhar para seus semelhantes, e ver o que eles fazem?
— Com efeito é uma boa distração.
— Excelente. Vede vós, tenho visto coisas que se passam diante dos outros, e que ninguém percebe, porque não se quer dar ao trabalho de olhar como eu, disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.
— Contai-nos isto, há de ser curioso.
— Ao contrário, é o mais natural possível; um moço que apanha uma flor ou um homem que passeia de noite à luz das estrelas... Pode haver coisa mais simples? Álvaro empalideceu desta vez.
— Sabeis uma coisa, Sr. Loredano?
— Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.
— Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o oficio de espião.
O aventureiro ergueu a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao cabo de uma larga adaga que trazia à ilharga: no mesmo instante porém dominou este movimento, e voltou à bonomia habitual.
— Quereis gracejar, sr. cavalheiro?...
— Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavalo e encostando-se ao italiano, falo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por Deus, que à primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como a uma cobra venenosa.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.