Por José de Alencar (1870)
Catita, porém, tomou aquela estranha resposta de Canho como agouro; e teve nessa noite um sonho bem triste.
IV
O PADRINHO
Soavam trindades na torre da matriz.
Manuel Canho ergueu-se e esperou de cabeça descoberta pela última badalada; depois do que, saiu na volta da Rua das Palmas onde morava o coronel.
Estavam à porta o cabo de ordens e uma récua de camaradas paisanos ao serviço do coronel. Não havia então na campanha do sul homem ou estancieiro importante que não se acompanhasse de um bando de gaúchos. O número desses camaradas, que lembram os acostados da Idade Média, indicava o grau de preponderância e riqueza do patrão.
Voltara Bento Gonçalves do quartel, e enquanto serviam a ceia, foi ter na sala com seu prisioneiro, D. Juan Lavalleja.
O caudilho dava sinais bem visíveis de mau-humor, no cenho carrancudo e na impaciência com que trincava a ponta do cigarro de palha. Por momentos arrependia-se do que tinha feito, e lamentava não ter morrido combatendo contra Frutuoso Rivera ou Bento Gonçalves, antes do que sujeitar-se à humilhação de render as armas. E a quem? A brasileiros.
Não obstante, no meio desta apoquentação, lá surdia no ânimo do ambicioso caudilho uma idéia, que ele ruminava com a mesma pertinácia do dente a morder a palha do cigarro.
Com a entrada de Bento Gonçalves, a sofreguidão de Lavalleja aumentou. Correspondendo apenas com um gesto seco à saudação do hóspede, ergueu-se e começou a percorrer a varanda de uma a outra ponta, em passo de carga. Pelo que lembrou-se o coronel de assobiar o toque de avançar a marche e marche.
Ou porque o gracejo do hóspede o excitasse, ou porque era chegado o momento da explosão, Lavalleja veio como uma bomba parar em face do coronel, e exclamou com uma voz taurina, atirando aos ares um murro furioso:
— Coronel, o senhor não é um homem!
Como aquela palavra abalou Bento Gonçalves, que achou-se em pé de repente, afrontando em face o oriental! Mas não passou de um primeiro assomo; a alta estatura que a indignação erigira perdeu a rijeza ameaçadora; no rosto anuviado perpassou o sorriso plácido e sereno das grandes almas, que uma cólera pequena não conturba. São essas almas como o grande oceano; qualquer borrasca não o agita; para subvertê-lo é preciso o tufão dos Andes.
— O senhor é meu prisioneiro e hóspede desta casa, general, disse Bento Gonçalves sentando-se com a maior calma. Em outro momento e outro lugar, eu lhe mostraria que um brasileiro não vale um, mas dez homens; enquanto que são precisos dois castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disto.
— Outro tanto lhe podia eu retorquir; mas não estou agora para bravatas. Digo e repito que não é um homem, Sr. Bento Gonçalves, pois se o fosse, seria o primeiro de todo este Rio Grande. Em vez de coronel se faria general. Que vale o comando desta fronteira para quem pode, estendendo a mão, apanhar a presidência da província?
— Que pretende dizer com isto, general?
— Caramba! No momento em que Bento Gonçalves quiser, o Rio Grande do Sul será um Estado independente como a Banda Oriental. Está bem claro agora? Para arrancar minha pátria ao jugo do império bastaram trinta e três heróis; bem sei que um deles era D. Juan Lavalleja. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa-se aqui ficar bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica-se porque lhe digo que não é um homem. Mas decerto que não o é. Minha mulher, D. Ana Monteroso, teria vergonha de praticar semelhante fraqueza; ainda que é mulher de quem é, todavia...
— De que lhe serviu ao senhor, diga-me, fazer a divisão da Cisplatina? retorquiu o coronel com ironia. Lá está seu compadre, dentro do queijo; e eu obrigado bem contra minha vontade a desarmar o herói da independência de sua pátria, como um rebelde.
— Lá isso não vem ao caso; é a sorte da guerra. Hoje ganhou meu compadre a partida, amanhã chegará a minha vez; todavia, cá entre nós, quem manda é o mais forte; não somos governados por um menino de sete anos.
— Quem governa é a lei, respondeu Bento Gonçalves em tom seco.
— Burla, coronel; este mundo é governado por duas coisas: a força ou a astúcia. O mais, isso de lei, de liberdade e justiça, são palavras sonoras para o povo, que no fim de contas não passa de um menino a quem se acalenta com um chocalho... O Rio Grande lhe pertence, coronel, como a Banda Oriental a mim, D. Juan Lavalleja.
— Vamos cear, general.
— Então deixa passar a ocasião?
— Sou brasileiro; nasci cidadão do império; e assim hei de viver, enquanto houver liberdade em meu país, porque para mim a liberdade não é uma burla para enganar o povo, mas o primeiro bem, que não se perde sem desonra, e não se tira sem traição. Quando eu me convencer que para ser livre, é preciso deixar de ser imperialista, não careço que ninguém me lembre o que me cabe fazer. O coronel Bento Gonçalves saberá cumprir seu dever.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.