Por José de Alencar (1864)
E a boa senhora mostrou a sobrinha sentada a alguma distância.
Aproximei-me. Já o baile tinha perdido a simetria da entrada, no seio da confusão que é o seu maior encanto: a música, as vozes, os risos, os ruge-ruges das sedas, os burburinhos da festa, enchiam o salão.
No meio dessa multidão jovial, Emília tinha uma atitude de corça arisca, erriçando os velos macios e estremecendo aos rumores vagos da floresta. A menor palavra, um vestido que roçava, uma sombra a projetar-se, a assustavam. Contudo, às vezes à força de vontade, ela arrancava dessa mesma timidez audácias ingênuas, que não teria uma senhora: erigia a fronte com altivos desdéns, e fitava em face qualquer homem que a olhava.
Cumprimentei-a. Inclinou a fronte, não para corresponder-me, mas para esquivar-me o rosto. Quando lhe pedi a contradança, creio que ela fez um grande esforço, porque o seu pescoço de cisne perdeu a doce flexibilidade: ergueu a cabeça com certa aspereza.
Pôs os olhos em meu rosto, e correu-me um olhar frio e gelado, que me transiu. —Não, senhor; disse com a voz seca e ríspida.
Ainda eu estava imóvel diante dela, quando chegou-se pressuroso o Barbosinha:
—Já tem par para esta contradança, D. Emília! —Ainda não tenho, não senhor; respondeu ela com a pronúncia clara e vibrante.
—Então, faz-me a honra de dançar comigo? Levantou-se para tomar o braço do cavalheiro. Eu tive uma vertigem de cólera; era a segunda vez que essa menina humilhava-me. D. Leocádia passou nessa ocasião.
—Ah! Não quis dançar com Mila? —Ao contrário, não lhe mereci essa fineza. —Pois ela recusou! disse a senhora contrariada. —Naturalmente já tinha par, D. Leocádia.
Emília, que se colocara para a quadrilha a pequena distância, voltou-se rápida ao ouvir as minhas palavras. Um fino sorriso de ironia passou-lhe fugace entre os lábios.
—Vou preveni-la para a seguinte; me havia respondido a tia.
—Perdão, D. Leocádia! Teria com isso o maior prazer, mas... eu me retiro já.
—Deveras, doutor? atalhou D. Matilde, que atravessava o salão.
Dê-me o seu braço. Então, como é isso? O senhor já se retira? —Estava nessa intenção, D. Matilde; mas agora, admira-me como a pude ter.
—Ah! É cata-vento assim? —Quem deixará de o ser, quando o sopro vem perfumado da mais linda boca?
—Eu devia puni-lo por ser tão lisonjeiro, obrigando-o a dançar comigo esta contradança... —Isso seria a minha recompensa.
—Parece-lhe?... Pois vou dar-lhe outra mais doce. D. Matilde fez com o leque um aceno à filha:
—Julinha? —Mamãe! —Dança com o Sr. Amaral, e vê se consegues fazê-lo esquecer as horas.
—Ao menos a punição é generosa: foge-me o original, mas deixa-me a cópia sua.
Isto foi dito enquanto a menina trocava algumas palavras com uma amiga. D. Matilde esperava o meu cumprimento, e o agradeceu com terno sorriso:
—Antes que me esqueça, doutor, disse-me ela; nós estamos em casa todas as noites que não forem de baile ou teatro lírico: e nas quintas-feiras com especialidade.
A prima e companheira de infância de Emília era uma moça muito galante, Parecia-se com a mãe somente no rosto: o talhe não o tinha, nem alto nem esbelto, mas admiravelmente torneado.
Julinha nunca foi loureira; faltava-lhe para isso o orgulho de sua formosura, e a inveja da formosura alheia. Mas educada na sala, aos raios da galanteria materna, perdera cedo o casto perfume. Desde menina habituou-se a ser amimada ao colo e beijada por quantos frequentavam a casa.
Deus a tinha feito nimiamente boa e compassiva; por isso quando chegou a idade do coração, ela não soube recusar ao amor as carícias, que foram brincos da infância. Suas afeições eram sempre sinceras e leais; nunca traiu nem por pensamento o seu escolhido; mas também se este a esquecia e mudava, ela facilmente se consolava, porque em naturezas como a sua o amor não cria raízes profundas, e só vegeta à, superfície d'alma.
Continuei a frequentar a casa de D. Matilde. Ali durante um mês, Emília não perdeu ocasião de crivar-me o coração com os alfinetes de sua cólera feminina.
Uma noite de reunião, servia-se o chocolate. Ela ia tomar uma xícara na bandeja que passava, quando o criado sem perceber o movimento seguiu. Se visses o meigo império do olhar que me lançou, compreenderias porque, apesar de meu ressentimento, apressei-me a servi-la.
Entretanto quando lhe ofereci o chocolate, recebeu inteiramente distraída, sem me olhar.
—Muito agradecida! disse-me, atirando a palavra da ponta do beiço o mais lindo, e também o mais desdenhoso.
Retirei a mão, julgando que ela sustinha entre os dedos delicados a xícara; mas esta acabava de espedaçarse no chão manchando a saia achamalotada de seu rico vestido de seda azul.
Emília ficou impassível. Volvendo lentamente o rosto, atirou-me por cima do ombro estas duas palavras que vieram afogadas no escárnio:
—Com efeito!...
E retirou-se da sala.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.