Por José de Alencar (1856)
Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janelas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permitiam ver o que se passava na sala.
Sentei-me sobre uma pedra e esperei.
Não se ria, D... ; estava resolvido a passar ali a noite ao relento, olhando para aquela casa e alimentando a esperança de que ela viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrifício.
Não me enganei.
Havia meia hora que a luz da sala tinha desaparecido e que toda a casa parecia dormir, quando se abriu uma das portas do jardim e eu vi ou antes pressenti a sua sombra na sala.
Recebeu-me com surpresa, sem temor, naturalmente, e como se eu fosse seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de que às vezes costumam cercá-lo.
— Eu sabia que sempre havias de vir, disse-me ela.
— Oh! não me culpes! se soubesses!
— Eu culpar-te? Quando mesmo não viesses, não tinha o direito de queixar-me.
— Por que não me amas!
— Pensas isto? disse-me com uma voz cheia de lágrimas.
— Não! não!... Perdoa!
Perdôo-te, meu amigo, como já te perdoei uma vez; julgas que te fujo, que me oculto de ti, porque não te amo e, entretanto, não sabes que a maior felicidade para mim seria poder dar-te a minha vida.
— Mas então por que esse mistério?
— Esse mistério, bem sabes, não é uma coisa criada por mim e sim pelo acaso ; se o conservo, é porque, meu amigo..., tu não me deves amar. — Não te devo amar! Mas eu amo-te!...
Ela recostou a cabeça ao meu ombro e eu senti uma lágrima cair sobre meu seio.
Estava tão perturbado, tão comovido dessa situação incompreensível, que me senti vacilar e deixei-me cair sobre o sofá.
Ela sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um pouco mais calma:
— Tu dizes que me amas!
— Juro-te!
— Não te iludes talvez?
— Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora és tu, ou antes, a tua sombra.
— Muitas vezes toma-se um capricho por amor; tu não conheces de mim, como dizes, senão a minha sombra!...
— Que me importa? ..
— E se eu fosse feia? disse ela, rindo.
— Tu és bela como um anjo! Tenho toda a certeza.
— Quem sabe?
— Pois bem; convence-me, disse eu, passando-lhe o braço pela cintura e procurando levá-la para uma sala vizinha, donde filtravam os raios de uma luz.
Ela desprendeu-se do meu braço.
A sua voz tornou-se grave e triste.
— Escuta, meu amigo ; falemos seriamente. Tu dizes que me amas ; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. As almas como as nossas quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um amor sem esperança e sem futuro?...
— Não, mil vezes não! Não entendo o que queres dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!... — Eis o que eu temia; e, entretanto, eu sabia que assim havia de acontecer ; quando se tem a tua alma, ama-se uma só vez.
— Então por que exiges de mim um sacrifício que sabes ser impossível?
— Porque, disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas mágoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão abrigar-se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu seio uma idéia de morte, a trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bela mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrível!...
A exaltação com que falava tinha-se tornado uma espécie de delírio; sua voz, sempre tão doce e aveludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração.
Ela caiu sobre o meu seio, agitando-se convulsivamente em um acesso de tosse.
CAPÍTULO V
Assim ficamos muito tempo imóveis, ela, com a fronte apoiada sobre o meu peito, eu, sob a impressão triste de suas palavras.
Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a sua serenidade disse-me com um tom doce e melancólico:
— Não pensas que melhor é esquecer do que amar assim?
— Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo imenso e um grande consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa viuvez da alma separada de sua irmã, não; aí há um sentimento que vive, apesar da morte, apesar do tempo. É, sim, esse vácuo do coração que não tem uma afeição no mundo e que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam.
— Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada! ...
— E me pedias que te esquecesse!...
— Não! não! Ama-me; quero que me ames ao menos...
— Não me fugirás mais?
— Não.
— E me deixarás ver aquela que eu amo e que não conheço? perguntei, sorrindo.
— Desejas?
—Suplico-te!
(continua...)
ALENCAR, José de. Cinco Minutos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16677 . Acesso em: 14 jan. 2026.