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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Ribeiro – Pedir perdão de quê? O amor não é um crime.

Carolina – Meu Deus!... E minha mãe?

Ribeiro – Vem, Carolina.

CENA XIV (Os mesmos e Luís)

Carolina – Ah!

Ribeiro – Quem é este homem?

Carolina – Meu primo.

Luís – Não pense que é um rival que vem disputar-lhe sua amante. Não, senhor! Há pouco recusei a mão de minha prima que seu pai me oferecia; não a amo. Mas sou parente e devo ampará-la no momento em que vai perder-se para sempre.

Ribeiro – Não tenho medo de palavras; se quer um escândalo...

Luís – Está enganado! Se quisesse um escândalo e também uma vingança bastavame uma palavra; bastava chamar seu pai. Mas eu sei que não é a força que dobra o coração; eu temo que minha prima odeie algum dia em mim o homem que ela julgará autor de sua desgraça.

Ribeiro – O que deseja então?

Luís – Desejo tentar uma última prova. O senhor acaba de falar a esta menina a linguagem do amor e da sedução; eu vou falar-lhe a linguagem da amizade e da razão. Depois de ouvir-me, ela é livre; e eu juro que não me oporei à sua vontade.

Ribeiro – Ela ama-me! Era por sua vontade que me seguia.

Luís – Ela ama-o, sim; mas ignora que este amor é a perdição; que ela vai sacrificar a um prazer efêmero a inocência e a felicidade. Não sabe que um dia a sua própria consciência será a primeira a desprezá-la, e a envergonhar-se dela.

Carolina – Luís!

Ribeiro – Não acredites.

Luís – Acredite-me, Carolina. Falo-lhe como um irmão. Esses brilhantes, esse luxo, que há pouco o senhor lhe prometia, se agora brilham a seus olhos, mais tarde lhe queimarão o seio, quando conhecer que são o preço da honra vendida!

Carolina – Por piedade! Cale-se, meu primo!

Depois a beleza passará, porque a beleza passa depressa no meio das vigílias; então ficará só, sem amigos, sem amor, sem ilusões, sem esperanças: não terá para acompanhá-la senão o remorso do passado.

Ribeiro – Tu sabes que eu te amo, Carolina.

Luís – Eu também... a estimo, minha prima.

Ribeiro – Vem! Seremos felizes!

Carolina – Não!... Não posso!

Ribeiro – Por quê?... Há pouco não dizias que eras minha?

Carolina – Sim...

Ribeiro – A uma palavra deste homem, esqueces tudo?

Carolina – Não esqueço, mas...

Ribeiro – Sei a causa. Se ele não chegasse, eu era o preferido; mas entre os dois, escolhe aquele que talvez já tem direito sobre sua pessoa.

Carolina – Direitos sobre mim?

Luís – Já lhe disse que não amava essa moça.

Negar em tais casos é um dever. Adeus; seja feliz com ele.

Carolina – Com ele!... Mas eu não o amo!

Ribeiro – Já lhe pertence.

Carolina – Luís? Eu lhe suplico! Diga que é uma falsidade!

Luís – Eu juro!

Ribeiro – Não creio em juramentos!

Carolina – Oh! não!

Margarida (de dentro) – Carolina!

Carolina – Minha mãe!

Luís – Margarida!

Carolina – Ah! Estou perdida! (Desfalece nos braços de Ribeiro)

Luís – Silêncio! (Vai fechar a porta. Ribeiro aproveita-se deste momento e sai, levando Carolina nos braços)

CENA XV (Luís e Margarida)

Luís – Ah!... (Corre à janela; ouve-se partir um carro; volta com desespero; vê os laços de fita, apanha-os e beija)

Margarida – Carolina! ...Que é isto, Luís?

Luís (mostrando as fitas) – São as asas de um anjo, Margarida; ele perdeu-as, perdendo a inocência.

Margarida – Minha filha!

ATO PRIMEIRO

(Salão de um hotel. Pequenas mesas à direita e à esquerda. No centro uma preparada para quatro pessoas)

CENA I

(Pinheiro, Helena e José)

Helena – Ainda não chegaram.

Pinheiro – Não há tempo, José, prevenirás o Ribeiro, logo que ele chegue, de que estamos aqui.

José – Sim, senhor.

Helena – O champagne já está gelado?

José – Já deve estar. Que outros vinhos há de querer, Sr. Pinheiro?

Pinheiro – Os melhores.

Helena – Eu cá não bebo senão champagne.

Pinheiro – Por espírito de imitação. Ouviu dizer que era o vinho predileto das grandes lorettes de Paris.

Helena – Não gosto de franceses.

Pinheiro – Pois eu gosto bem das francesas.

Helena – Faz bem! Nós é que temos a culpa! Se fôssemos como algumas que a ninguém têm amor!...

Pinheiro – Qual! Santo de casa não faz milagres.

José Já viu uma dançarina que chegou pelo paquete?

Pinheiro – A que está no Hotel da Europa?

José – Não; está aqui, no número 8.

Helena– Alguém lhe pediu notícias dela?

José (rindo) – O Sr. Pinheiro gosta de andar ao fato dessas coisas.

CENA II

(Pinheiro e Helena)

Helena – Como esteve maçante o teatro hoje!

Pinheiro – Como sempre.

Helena – Não sei que graça acham esses sujeitinhos na Stoltz! Não tem nada de bonita!

Pinheiro – É prima dona!

Helena – Sabes quem deitou muito o óculo para mim? O Araújo.

Pinheiro – Ah! Está apaixonado por ti?

Helena – E por que não? Outros melhores têm-se apaixonado!

(continua...)

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