Por José de Alencar (1857)
Durante muito tempo o seu pensamento debateu-se nesta alternativa terrível, até que uma idéia consoladora veio restituir-lhe a calma.
Tinha achado um meio de tudo conciliar; um meio de satisfazer ao sentimento do seu coração e aos prejuízos do mundo.
Qual era este meio? Ele o guardou consigo e o concentrou o fundo d'alma; apenas um triste sorriso dizia que ele o havia achado e que sobre a dor profunda que enchia o coração, ainda pairava um sopro consolador.
Toda a noite se passou nesta luta íntima.
De manhã o moço saiu e foi ver Carolina, para receber um sorriso que lhe desse forças de resistir ao sofrimento.
A menina na sua ingênua afeição apercebeu-se da palidez do moço, mas atribuiu-a a um motivo bem diverso do que era realmente.
— Não dormiste, Jorge? perguntou ela.
— Não.
— Nem eu! disse, corando.
Ela cuidava que era só a felicidade que trazia essas noites brancas, que deviam depois dourar-se aos raios do amor.
Como se enganava!
De volta, Jorge dispôs tudo que era necessário para seu casamento e fechou-se no seu quarto até à tarde.
CAPÍTULO VI
Quatro pessoas se achavam reunidas na sala da casa de D. Maria.
O senhor Almeida, sempre grave e sisudo, conversava no vão de uma janela com um outro velho, militar reformado, cuja única ocupação era dar um passeio à tarde e jogar o seu voltarete.
O honrado negociante estava vestido em traje de cerimônia e machucava na mão esquerda um par de luvas de pelica branca, indício certo de alguma grande solenidade, como casamento ou batizado.
Os dois conversavam sobre o projeto do desmoronamento do morro do Castelo, projeto que julgavam devia estender-se todos os morros da cidade; era um ponto este em que o reumatismo do senhor Almeida e uma antiga ferida do militar reformado se achavam perfeitamente de acordo.
As outras duas pessoas eram um sacerdote respeitável e uma encantadora menina, que esperavam sentados no sofá, a chegada de Jorge.
— Quando será o seu dia? dizia, sorrindo, o padre.
— É coisa em que nem penso! respondia a moça, com um gracioso gesto de desdém.
— Ande lá! Há de pensar sempre alguma vez.
— Pois não!
E, dizendo isto, a menina suspirava, minha prima, como suspiram todas as mulheres em dia de casamento: umas desejando, outras lembrando-se e muitas arrependendo-se.
A um lado da sala estava armado um oratório simples; um Cristo, alguns círios e dois ramos de flores bastavam à religião do amor, que tem as galas e as pompas do coração.
Jorge chegou às cinco horas e alguns minutos.
O senhor Almeida apertou-lhe a mão com a mesma impassibilidade costumada, como se nada se tivesse passado entre eles na véspera.
Um observador, porém, teria reparado no olhar perscrutador que o negociante lançou ao moço, como procurando ler-lhe na fisionomia um pensamento oculto.
O padre revestiu-se dos seus hábitos sacerdotais; e Carolina apareceu na porta da sala guiada por sua mãe.
Dizem que há um momento em que toda mulher é bela, em que um reflexo ilumina o seu rosto e dá-lhe esse brilho que fascina; os franceses chamam a isto... la beauté du diable.
Há também um momento em que as mulheres belas são anjos, em que o amor casto e puro lhes dá uma expressão divina; eu, bem ou mal, chamo a isto... a beleza do céu.
Carolina estava em um desses momentos; a felicidade que irradiava no seu semblante, o rubor de suas faces, o sorriso que adejava nos seus lábios, como o núncio desse monossílabo que ia resumir todo o seu amor, davam-lhe uma graça feiticeira.
Envolta nas suas roupas alvas, no seu véu transparente preso à coroa de flores de laranjeira, os seus olhos negros cintilavam com um fulgor brilhante entre aquela nuvem diáfana de rendas e sedas.
Jorge adiantou-se pálido, mas calmo, e, tomando a mão de sua noiva, ajoelhou-se com ela aos pés do sacerdote.
A cerimônia começou.
No momento em que o padre disse a pergunta solene, essa pergunta que prende toda a vida, o moço estremeceu, fez um esforço e quase imperceptivelmente respondeu. Carolina, porém, abaixando os olhos e corando, sentiu que toda a sua alma vinha pousar-lhe nos lábios com essa doce palavra;
— Sim! murmurou ela.
A bênção nupcial, a bênção de Deus, desceu sobre essas duas almas, que se ligavam e se confundiam.
Pouco depois desapareceram os adornos de cerimônia e na sala ficaram apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade de dois corações.
Jorge às vezes esforçava-se por sorrir; mas esse sorriso não iludia sua noiva, cujo olhar inquieto se fitava no seu semblante.
Entretanto a alegria de D. Maria era tão expansiva; o velho militar contava anedotas tão desengraçadas e tão chilras, que todos eram obrigados a rir e a se mostrar satisfeitos.
Jorge, mesmo à força de vontade, conseguiu dar ao seu rosto uma expressão alegre, que desvaneceu em parte a inquietação de Carolina.
Contudo havia nessa reunião uma pessoa a quem o moço não podia esconder o que se passava na sua alma, e que lia, no seu rosto como um livro aberto.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.