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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

"- Por que passa todo o santo dia e mais a noite a escrever? Isto faz mal.

"Que olhos que me deitou! Ainda me alembro.

"- Estes livros são a minh'alma. O que tu vês em mim, Tonico, são os ossos que a lepra vai roendo.

"Cruzes! Tive um medo... das falas e dos olhos com que me olhou.

"E foi guardando os livros e desatou num pranto, num pranto... que. parecia um menino a chorar.

"Por esse tempo a gente de Olinda já andava alvoroçada com a estada do moço na casa velha. Diziam, que falso testemunho! que ele andava empestando a cidade. O rebuliço foi crescendo, e um bando saiu a gritar pelas ruas, e foi e requereu ao juiz do povo que pusesse o leproso para fora, senão haviam de mandar procurador a El-Rei.

"Dois dias, com tanto mar e vento que fez, o pai não saiu.

"Fiquei banzando com a idéia que o pobre moço não tinha quem lhe comprasse a comida. De noite me veio um sonho, e me acordei soluçando.

"- Que tens, Tonico?... De que choras?... perguntou minha mãe.

"- Ele não tem que comer...

"Isto me saiu sem querer, quando ainda estava tonto de sono.

"- Ele quem?...

"Vi que era sonho e calei a boca; porém não preguei mais olho.

"Logo na outra noite, enquanto o pai descansava, corri ao quarto do moço; a porta estava cerrada; mas havia luz dentro.

"Ele estava sentado junto da mesa com a testa encostada na caixa onde guardava os livros. A vela ia-se acabando. Pensei que estava chorando como às vezes costumava, e levantei a cabeça dele com pena.

"Santo nome de Jesus! Soltei um grito! Estava morto! E tinha morrido de tome.

"Quando foram à casa velha para deitá-lo fora, só acharam o corpo que enterraram na praia. A gente da cidade ficou descansada.

"Mas eu, quem via que podia dormir! Era um sonho atrás do outro. Aqui então! mesmo acordado, estava vendo a cada passo aquele vulto de preto com seu rosto triste. Ele que me aparecia tão amiúdo, tinha cousa que me pedir.

"O que era? .~.. Pus-me a parafusar!... Vai senão quando me alembrou aquele dito dos livros:

"São a minh'alma."

"E não era outra cousa! O corpo que saia da terra, é que a alma andava penando por este mundo! Queria que enterrasse a caixa para seu repouso e descanso dele.

"Porém eu entrar mais na casa! Quem viu!

"Só de me alembrar, os cabelos espetavam, e corria-me pelas costas um suor tão frio.

"Foi Deus, que as paredes de fora caíram; e então um domingo, depois da missa, com os outros rapazes que andavam brincando na praia, fomos e puxamos a caixa; com uma vara cavou-se um buraco e enterrou-se."

- Aonde? perguntei eu com ansiedade.

- Por fora dessa parede em. que o senhor está encostado. Meu pai tinha-se deitado maislonge; e eu depois daquela noite não me animava a sair de perto dele.

"Quando acabei de enterrar a caixa, pareceu. que me tiravam um peso do coração. Ele ainda me apareceu uma vez. Foi para agradecer... Depois não voltou.

"Deus tenha sua alma."


IV

O velho tinha acabado a sua história, que eu ouvira com uma atenção religiosa:

- Por isso é que tanto me alembrei dele!... Foi ali mesmo, assim todo vestido de preto, que meapareceu pela primeira vez.

Não escutava mais o pescador; estava cheio da idéia de possuir os manuscritos que me faziam palpitar, como se fossem um tesouro. E eram realmente um tesouro para mim.

- Diga-me!.. É capaz de acertar com o lugar em que enterrou a caixa? 

- Com os olhos fechados!... Os anos que foram já apagaram muita cousa, mas aquelestempos de menino, parece que estão voltando!

- Pois venha mostrar-me.

O velho ergueu-se. Saímos do convento e beiramos a parede que olha o mar. Depois de alguns passos, ele parou.

- Por que é que o senhor quer saber?

Hesitei; adivinhava o escrúpulo do velho.

- Por simples curiosidade.

- É aqui! disse ele abaixando a mão.

- Está certo?...

- Estou vendo!

E o pescador ajoelhou-se e fez uma oração. Compreendi que ele respeitava aquela cova como se fosse realmente uma sepultura.

Não perturbei o seu recolhimento, e esperei que terminasse.

- Empresta-me o seu remo?

- Para quê? perguntou-me estremecendo.

- Para desenterrar a caixa.

(continua...)

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