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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Estef. Tanta inocência da alma obriga a esquecer em dona Corina o erro que foi só da ignorância: não refletes assim?...

Teod.

Confesso que penso desse modo. Sê franca: faço bem em insistir no casamento de Corina com o meu Carlos?...

Estef. Fazes... fazes... Teod. Dizes isso em um tom...

Estef. De quem se admira da hesitação: dona Corina não é só moça bonita... é meio milhão. Teima.

Teod.

Tu me resolves; mas em tal caso preciso do teu concurso. Corina é muito amiga tua; quero que patrocines a causa de Carlos.

Estef. Como se ele fosse meu filho: hei de fazer prodígios. Verás. Teod. (apertando-lhe a mão) Minha Estefânia!...

Estef. Carlos ainda não conseguiu tocar o coração de dona Corina?...

Teod.

Tem perdido o seu tempo em êxtases poéticos: o inocente bate à porta daquele coração a compassos diversos.

Estef. Com uma menina de quinze anos os versos tem seu lugar. Teod. A propósito: aqui está um acróstico do nosso poeta.

Estef. Lê.

Teod.

(lendo) A voz do coração, voz que é gemido

Mudo enleio que a fala tolhe e prende

O terno olhar nos olhos teus perdido,

Culto de fogo ao Sol que o fogo acende;

O receio, a esperança, a queixa, o medo

Rompendo d’alma que a teus pés se rende

Inda trêmulos n’alma em segredo

No poético ardil que amor socorre,

Amor de quem por merecer se morre.

(voltando o papel e lendo) As iniciais dos versos dizem: = Amo Corina = na verdade é bonito! Não achas bonito?...

Estef. Melhor do que isso, declaração em regra.

Teod.

E os versos trazem a assinatura de Carlos: é positivo!... Que talento o de meu filho!...

Estef. Cantarei como sereia aos ouvidos de dona Corina.

Teod.

Minha amiga, minha irmã!

Estef. Agora volto para receber a minha modista que talvez me esteja esperando... (em pé)

Teod.

O que eu disse relativamente a Corina...

Estef. Sepultou-se aqui.(aponta para o coração)

Teod.

Confio em ti. (abraça-a) Sê mãe de Carlos.

Estef. Tenho medo de adorá-lo demais (beijam-se. Estef. sai)

Cena 8ª

Teodora e logo Carlos

Teodora (acompanha Estef. até a porta: volta; relê para si os versos, sorri, vai à mesa escolhe um álbum, gruda com goma arábica que haverá em um vidro competente, o papel dos versos em uma das folhas do álbum e desfolha uma rosa na mesma página)

Carlos (Entrando) Não houve sessão no Senado por falta de quorum. (vendo Teod. junto da mesa) Que faz, minha mãe?... (começa o canto dentro)

Teod.

Silêncio! Júlia e Corina vão entrar.

Júlia (cantando dentro e até o fim)

Carlos

(continua o canto) O meu acróstico!...

Teodora Silêncio. (cai o pano durante o canto)

Fim do 1º ato.

Ato 2º

A mesma cena do 1º ato

Cena 1ª

Júlia e Corina

Júlia (deixando a janela) Minha mãe está no jardim conversando com o seu poeta.

Corina (Entrando) Vou buscar a tua boneca...

Júlia Para que?...

Corina Far-lhe-emos um vestido rico... todo de gaze branco e rendas.

Júlia Ora! na nossa idade brincar com bonecas?...

Corina Mas então o batizado...

Júlia Não vês que foi pretexto para te dar um baile?...

Corina Ah! a mim ou ao padrinho?

Júlia Em todo caso ganhas...

Corina Que faremos esta manhã?

Júlia Tudo e nada: por exemplo, olhar-nos ao espelho. Vem cá... (defronte do espelho)

Corina Para que isto?... (indo para o espelho)

Júlia Somos ambas bem bonitas!

Corina Me parece...

Júlia Tipos diferentes; ambos porém igualmente lindos.

Corina Eu menos...

Júlia Tu menos? Suponhamos! Como é então...

Corina O que?

Júlia (deixando o espelho) Vamos fazer um jogo?... (vai buscar um baralho de cartas, que devem ser muito friqnos [sic]) Queres ver?... Tu és a dama de ouros, eu sou a que aparecer primeiro. (corre as cartas) A de espadas. (baralha). Quem vence?...

Corina Tu com as espadas...

Júlia Sim? E tu com o ouro? Vejamos a quem saem os condes. (vai deitando as cartas a uma e outra dama) Aí tens: saiu para ti o de paus... também o de espadas. (larga as cartas) Não quero mais... Entendes isto?... (à frente da mesa)

Corina Eu não: é acaso.

Júlia Isto quer dizer que me é preciso que te cases... solteira, tu me fazes perder no jogo dos condes.

Corina Estás doida?

Júlia Eu?... Escuta: desde alguns meses que sinto a verdade: o sobrinho de d. Estefânia fazia-me a corte, e de súbito mudou de rumo, e é a ti que rende finezas, quando a tia nos visita. Pouco me importa... não deixou saudades...

Corina E eu por ventura o animo?

Júlia É outra questão: o moço que costuma passar a tarde em faetonte , esquecia os olhos em mim; mas depois ou fica vesgo, ou é só para ti que olha, quando por acaso te deixam ir à janela...

Corina E se ele soubesse como o acho horrível!...

(continua...)

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