Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
IRENE (A Mário) – Se eu tivesse poder sobre o senhor, exigiria que ficasse...
MÁRIO (A Irene) – Exige de um soldado a deserção na hora da batalha! esperam-me, dª. Irene; palavra de honra que contam comigo...
CASIMIRO – Não vais hoje ao alcaçar, Mário?
MÁRIO (A Braz) – Já viu esta?... (Alto.) Não, senhor; hoje passo a noite em casa: meu pai quer o meu bilhete?...
CASIMIRO – Esqueces que hoje a noite é de recepção, adoidado?
MÁRIO – Ah! é verdade! mais uma razão para que eu não saia de casa.
VIOLANTE (A Braz) – Braz! Braz! por fim de contas no meu tempo não era
assim.
(Vão-se todos para a casa; Braz conduz Violante, Lauriano acompanha Clemência. Mário apodera-se de Irene, Casimiro de mau modo segue perto destes dois.)
FIM DO PRIMEIRO ATO
ATO II
Passeio Público do Rio de Janeiro: ao fundo, o Outeiro dos Jacarés, tendo aos lados as escadas que dão subida para a varanda; nos planos até a frente, quanto se puder aproveitar, copiando o sítio.
CENA I
VIOLANTE e BRAZ, CLEMÊNCIA e AUGUSTO, CASIMIRO e PORFÍRIO; até o fim do ato, concurso de passeadores de ambos os sexos
VIOLANTE – Quero descansar aqui por alguns minutos.
CASIMIRO – Liberdade plena; subo com Porfírio ao terraço... gosto muito da vista da barra. (Segue com Porfírio.)
CLEMÊNCIA – Eu vou com o sr. doutor até a ponte rústica. (Segue com Augusto.)
BRAZ – Cuidado não caia, dª. Clemência: o corrimão da ponte está meio estragado.
AUGUSTO (A Clemência) – Aquilo é comigo.
CENA II
VIOLANTE sentada, BRAZ em pé
BRAZ – Aquele sujeito que acompanha Clemência é um dos três namorados da aposta.
VIOLANTE – Teimas em querer envolver-me em semelhante embrulhada?
BRAZ – A madrinha teve sempre queda para pregar peças; ensaie esta comédia; basta que se finja disposta a casar-se, que se mostre um pouco sensível, que... et coetera... et coetera.
VIOLANTE – Por fim de contas tenho sessenta e dois anos: é inverossímil.
BRAZ – Inverossímil! com quinhentos contos e depois dos cinqüenta anos quanto mais velha mais noivos a escolher... pela regra das probabilidades...
VIOLANTE – Mas os três designados amam Clemência, apesar de pobre.
BRAZ – Não amam, namoram: a diferença é enorme.
VIOLANTE – Queres por força que eu me abaixe a parecer velha ridícula e néscia?
BRAZ – Por oito dias só: verá o ensino que daremos e a confusão que irá pela casa.
VIOLANTE – E no fim?
BRAZ – Haverá desengano de tolos e abatimento da vaidosa.
VIOLANTE – Braz, eu não gosto de brincar; quando, porém, me atiro à zombaria é como no tempo em que jogava o entrudo.
BRAZ – E assim é que deve ser; começaremos hoje, e aqui mesmo. (A um
homem que passa.) Humilde servo de V. Ex. (Cumprimentam-se.) VIOLANTE – Quem é?
BRAZ – Um candidato a concordata próxima, ou a falência que deixa inteiro o quebrado: a madrinha não compreende? pois eu lho explico de modo tão lúcido que no fim da explicação ainda menos entenderá.
VIOLANTE – Ora venha mais essa.
BRAZ – Há quebrar, e quebrar; quebrar direito que deixa um homem sem serventia: é o infortúnio de banqueiros e negociantes honrados, a quem prejuízos inevitáveis e os desconcertos de muitos arrastam fatalmente para ruína imerecida: esses são uns patetas, que a sociedade castiga com o menos-cabo, porque ficam pobres; quebrar torto é outra coisa: é uma sorte de equilíbrio, em que o bom ginástico se entorta, fingindo cair para levantar-se mais direito. Entendeu?
VIOLANTE – Vou percebendo, Braz.
BRAZ – Pois é a estes que me refiro; concordata quer dizer a discordância afinada entre o devedor e os credores; falência quer dizer grande sobra realizada pela mágica da rebentação; exemplo: este meu amigo deve à praça mais de quatro mil contos e calcula suavemente com o sacrifício de quinze por cento para consolação dos credores; mas pode crer que ele fica inteiro depois de quebrado, e que por isso a sociedade há de cumprimentá-lo com todo o respeito. (A um velho e uma jovem que passam.) Escravo submisso da excelentíssima!... senhor comendador, sempre a remoçar! (Cumprimentam-se.)
VIOLANTE – A filha deste velho é bem bonita!
BRAZ – Vinte e um anos e sua esposa há dois.
VIOLANTE – Que!
BRAZ – O meu amigo comendador é menos velho do que parece; não lhe pesam os setenta anos que completou há oito dias; o santo homem é um pouco muçulmano: passando às suas quintas núpcias ao desposar aquela moça, nem por isso emendou-se dos costumes antigos; mudou de odalisca ha três meses e entretém com prodigioso luxo uma menina de dezesseis anos, comprada à miséria de seus pais. Ah! esquecia-me de prevenir a madrinha que ele conta numerosos e jovens amigos.
VIOLANTE – E a pobre mulher?
BRAZ – Inviolável e sagrada: vive abençoando com ambas as mãos a odalisca, e tem um primo, doutor em medicina, que receita ao velho marido passeios freqüentes e distrações fora de casa.
VIOLANTE – Que língua envenenada!
CENA III
VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA e AUGUSTO
CLEMÊNCIA – A titia já viu o peixe boi?
VIOLANTE – Ainda não: vens apresentar-mo?
CLEMÊNCIA – O sr. Braz pode encarregar-se disso: agora vou ao terraço ver o mar.
AUGUSTO – O mar?... é a imagem da inconstância: não se espelhe no mar. (Vão-
se.)
CENA IV
VIOLANTE e BRAZ
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.