Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

ADRIANO – Sim!... sim!... (Abraça-a.) tu és como Dejanira e me arrojas ao vulcão! (Curva-se, beija-lhe a mão, Dionísia afaga-lhe os cabelos.)

DIONÍSIA – Fica assim!...como és belo! como te amo! como serei feliz!...

ADRIANO – Feiticeira! fazes-me esquecer tudo! eis os pendentes que ontem me pediste (Tira do bolso uma caixinha e dá-a.) São do teu gosto?...

DIONÍSIA (Abrindo a caixa.) – Magníficos! para que tão ricos?... não quero que te arruínes por mim: lindíssimos!... mas, jura que depois de amanhã...

ADRIANO – Juro-o...

DIONÍSIA (Sorrindo.) – Vem, pois, amanhã à tarde... vem, formoso e feliz ladrão da sesta!... e agora, pobre ladrão da noite, queres beijar-me os olhos que dizes ser tão bonitos? ...

ADRIANO – Oh! minha Dionísia!... (Abraça-a e beija-lhe os olhos.)

CENA X

DIONÍSIA, que vai-se logo, ADRIANO E CINCINATO

CINCINATO – Eu sou míope: podem continuar que não vejo coisa que me espante.

DIONÍSIA – Ah! (Vai-se correndo e rindo.) ADRIANO – Importuno!

CINCINATO – Ainda em cima do serviço que te prestei?... é caso em que água fria na fervura livra de pelação infalível. Esta Dionísia é uma espécie de polvo...

ADRIANO – É uma mulher alucinadora, e irresistível... Cincinato, meu amigo, meu irmão... é a fatalidade!... tem sido e são inúteis os teus conselhos... estou perdido...

CINCINATO – Ainda é tempo.

ADRIANO – É muito tarde... a miséria pelo jogo... o frenesi, a loucura pela paixão criminosa... oh! eu sou um desgraçado... eu reconheço o mal que faço e me arrasto para o abismo.

CINCINATO – Não dou um bilhete das barcas Ferry pelo teu juízo... eu quebro louça, porém, assim não.

ADRIANO (Pensando,) – E depois de amanhã... (Súbito.) vou jogar. (Indo-se.)

CINCINATO – Hoje não jogas: há mouros na costa; o espanhol apurou a ladroeira: Demétrio e outros já estão a toda isca. Adriano! sê homem! foge desta espelunca... e volta para o lado de tua bela e nobre esposa...

ADRIANO – Para que a lembras?... sou algoz... eu sei... mas bem vês que desatino...

CINCINATO – Lá o ninho do amor puro... lá beleza, paciência, suavidade, virtudes... aqui... pior! vou caindo na sensibilidade e saio do meu elemento... Adriano!

sabes onde estamos?...

ADRIANO – Em uma casa de jogo, cujo empresário é um miserável.

CINCINATO – Sim... casa de jogo magistral. Quadro primeiro: sala da frente iluminada a gás; mobília de mogno e piano de jacarandá; personagens, uma velha que toca, e uma moça que canta; a velha representa o papel de bumbo, pratos e campainhas para não se ouvir da rua a balbúrdia do fundo da casa; a moça namorando de dia e cantando de noite representa o papel de alçapão e isca para apanhar passarinhos.

ADRIANO – Impacientas-me... (Ruído dentro: soa o piano)

CINCINATO – Em? lá está a velha no ofício. Quadro segundo: esta sala, escarpa do precipício, caminho do inferno, passagem do desespero, gabinete que medeia entre o frontispício da hipocrisia, e o interior da furna do vício, e uma vez por outra em cada noite, gaiola de passarinhos, a quem a moça, que canta, dá abraços e beijos por engodo, e os deixa com água no bico depois de depená-los muito à sua vontade.

Exemplo: certo episódio que vi ainda há pouco.

ADRIANO – Cincinato... pensas que algum outro homem...

CINCINATO – Não respondo: porque me perguntas no singular. Quadro terceiro: sala resplendente de luzes e carregada de sombras negras; mesa grande e cercada de jogadores risonhos poucos, turvos muitos, sinistros alguns, desconfiados todos; se não estão ao pau, estende-se a tripa: é o mesmo; voltam-se as cartas... há pulmões que não respiram... o estrabismo da suspeita entorta todos os olhos... a atmosfera é pesada... ouvem-se juras, insultos, rugidos... rola o dinheiro e evaporam-se fortunas, e na mesa horrível sem que o vejam, sem que o sintam, prepara-se o roubo do amo pelo caixeiro, a perversão do filho-família, que furtará as jóias de sua mãe e a firma de seu pai, a miséria da família pela ruína do seu chefe, a prevaricação do empregado público, a falência inexplicável do negociante, a desonra, a chave da prisão, o punhal ou o revólver do suicida... (Um jogador atravessa a cena em desespero e vai-se.) Vês aquele que furioso se retira? Adriano! é talvez esposo da mais honesta senhora, a quem reduz à miséria pelo jogo, e a desesperado abandono pela paixão adúltera e vergonhosa...

ADRIANO – Cincinato! (Sussurro dentro.)

CINCINATO – Escorreguei para o romantismo sentimental, mas volto ao meu elemento no quadro quatro que é o melhor. Quadro quarto: palácio do sono perpétuo na solidão da indolência; na sala do desmazelo há um leito de papoulas, e dorme nele per omnia secula seculorum... adivinha quem... (Sussurro.)

ADRIANO – Quem? (Aumenta o sussurro.)

CINCINATO – A polícia. (Forte ruído.)

ADRIANO – E tu!... como estás aqui!...

CINCINATO – Eu quebro louça em toda parte. (Grande ruído.) Oh, lá! gritem sem receio que a polícia dorme sempre como o animal condenado por Maomé! (Voltando da direita.) O Demétrio já tem um dos olhos vermelho-brasa e o outro azul, como sangue de fidalgo puro. (Estrepitoso ruído.) ADRIANO – Que tempestade... vou ver...

CINCINATO (Segurando-o.) – Não hás de ir...

CENA XI

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...45678...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →