Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Mas parece que o destino estava de candeias às avessas com o pobre moço; ao passar pela parte da platéia o Sr. Antônio agarrou-o pelo braço.
— Larga-me, deixa-me, Antônio.
— Não! é impossível! é preciso dizer a qual das duas pertences.
— Eu a nenhuma, deixa-me.
— Mas é preciso! é justo!... é inevitável!...
— Pois amanhã te direi; peço-te esta noite para resolver-me.
— Não, não! é necessário dizer já!
— Então... sou Candianista.
O Sr. Antônio recuou três passos, e disse com voz lúgubre:
— Otávio, fala sério, quero dizer, sisudo, com seriedade!
— Sou Candianista, repetiu Otávio.
— Sr. Otávio, exclamou depois de momentos de reflexão o Sr. Antônio, todas as nossas relações estão quebradas! esqueça-se de que sou vivo: e lembre-se que tem um amigo de menos, e um inimigo de mais.
E dito isto, retirou-se; mas talvez que tivesse de voltar mais exasperado que nunca, se a algazarra que faziam os Candianistas dentro do teatro não cobrisse a gargalhada que soltou Otávio, ouvindo as últimas palavras do Sr. Antônio.
Quase ao mesmo tempo saía a família que Otávio vinha esperar; ele correu para junto da escada, e a moça morena apenas o viu, olhou para trás e disse com voz bem alta ao ancião que mostrou ser seu pai:
— Ora esta, meu paizinho; por que eu digo que vir ao teatro tem seus prazeres e seus desgostos é, na verdade, um desgosto ter de ir a tais horas e a pé, à rua de... onde nós moramos.
E apenas acabou, olhou para Otávio, e sorriu-se. O moço tirou do seu álbum e escreveu: rua de... A senhora idosa, a quem nada escapava, bateu com o leque no ombro da filha, e disse-lhe ao ouvido: — Tu és a minha glória! honras a bela árvore de que és vergôntea.
No resto da noite apenas se fazem dignos de lembrar-se dois atos praticados pelo Sr. Antônio, e pelo moço com que havia disputado no hotel.
O moço, acompanhando a sege que conduziu a sua Candiani a casa, viu-a apear-se, e quando a porta se fechou, e a rua ficou solitária, ele chegou-se àquela, ajoelhou-se, e beijou três vezes a soleira em toda a sua extensão, depois erguendo-se, e, retirando-se, disse:
— Agora já posso dormir: beijando toda a soleira da porta, por onde ela entrou, beijei por força o lugar onde tocou com seu sapato o pé de um anjo!...
O Sr. Antônio levou adiante o seu sacrifício: ficou todo o resto da noite grudado com a porta da casa de sua inefável Delmastro, tendo o nariz enterrado na fechadura; ao amanhecer, ele a custo abandonou o difícil posto, e retirou-se, murmurando:
— Não dormi; porém, ao menos com o meu nariz metido na fechadura daquela porta, respirei por força alguma molécula de ar, que já tivesse sido respirada por aquela Musa do Parnaso.
II
Agastamentos conjugais
Um homem de cinqüenta anos, magro, alto, pálido, calvo, e de grande nariz, é o Sr. Venâncio, marido da Sr.ª D. Tomásia, e pai do Sr. Manduca e da Sr.ª D. Rosa.
Venâncio é um empregado, sem exercício, não nos lembra de que espécie; na vida que vive, vê-se obrigado a ser somente isso; pois que em tudo o mais é a sombra de sua mulher. Aos vinte e oito anos casou-se, porque seu pai lhe disse que era preciso fazê-lo, com uma senhora que se acompanhava de alguns mil cruzados de dote, como de fato os trouxe a Sr.ª D. Tomásia, que, pela sua parte, segundo ela mesma o diz, casou-se para se casar.
E este casal representou logo e continuou a representar o mais interessante contraste. Venâncio é débil, condescendente e pacato; se algumas vezes se empina, é para logo dobrar-se mais humildemente que nunca. Tomásia é forte, decisiva, arrogante e valentona. Não sabe senão mandar e quer sempre ser obedecida. Vendo de longe a sociedade elegante, trata de arremedá-la, e faz-se uma completa caricatura do que ela chama grande tom. Conhecendo cedo o gênio e caráter de seu esposo, tornou-se a déspota, a tirana do pobre homem; e para servirmo-nos de um pensamento dela mesma, escreveremos suas próprias palavras: “Venâncio, diz ela mil vezes, nesta casa a tua vontade é uma colônia, de que a minha voz é a metrópole.” E o pobre Venâncio, casado há vinte e dois anos, há vinte e dois anos que faz inúteis planos de independência; todos os dias levanta-se com disposição de sustentar a pé firme uma batalha decisiva, mas às primeiras cargas do inimigo larga as armas, bagagens e tudo, e põe-se em retirada, ou as mais das vezes ajoelha-se e implora anistia.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.