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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Pereira — É coisa muito pior do que dez cometas juntos: é o esquecimento dos deveres mais sagrados, e da honra das famílias.

Hortênsia — Isso então é muito sério; diga o que foi...

Pereira — Mais um passo dado para o descrédito da aristocracia...

Reinaldo — Quem vem lá?...Passe de largo!

Pereira — Lembram-se de Dona Inocência, a filha de um barão, e descendente de uma nobre casa de Portugal?...

Fabiana — Sim...sim...a baronesinha, como todos a chamam...

Pereira — Sangue puro de fidalga! Sangue puro como o de um cavalo árabe!...

Filipa (A Leonina) — A comparação parece de boleeiro.

Pereira — Pois bem...saibam todos: casou-se hoje.

Reinaldo (À parte) — Ai! Tenho uma namorada de menos.

Vozes — Casou-se?...mas com quem?...

Pereira — Com um negociante de retalhos!!!

Hortênsia — De retalhos?!...coitadinha!

Fabiana — Passou de filha de barão a noiva de retalhos! pobrezinha!...

Reinaldo — Mas o pai...matou-se...não é assim?

Pereira — Vergonha das vergonhas! Abraçou o genro.

Reinaldo — É o progresso!...são as luzes do século!...

Hortênsia (Com fogo) — Não pode haver nobreza, onde os nobres se aviltam misturando-se com a canalha!...

Pereira — É inaudito!

Maurício — Paciência; mas esqueçamos aqueles que se esquecem de si mesmos.

Pereira — Nós, porém, lembremo-nos sempre do que somos!...

Hortênsia — Sim! Nós seremos sempre dignos do nome que temos, do sangue que gira em nossas veias, e da nobreza de nossas famílias.



CENA X Os precedentes, Anastácio, Felisberto, Henrique, e a seu tempo, Fanny e logo Petit.

Anastácio — Maurício! Mana Hortênsia! (Voltam-se todos). Aqui vos trago comigo o nosso irmão, o mestre marceneiro Felisberto, e o nosso sobrinho Henrique, pintor.

(Surpresa geral).

Hortênsia (Desmaiando) — Ah!...

Leonina (Correndo a Hortênsia) — Minha mãe!

Maurício — Hortênsia!...desmaiada! meu Deus! Um médico! Petit, um médico!...(Movimento geral: Felisberto e Henrique ao fundo: no meio da confusão

Anastácio tira do bolso uma carta, desdobra-a e prepara uma torcida de papel).

Fanny — Um médica! Monsieur Petit, um médica! Oh! este non se úse n’Ingliterre!

Petit Le docteur! Le docteur! (Vai-se correndo).

Maurício — Hortênsia!

Leonina — Minha mãe!...

Pereira — Senhor Maurício, deite-lhe água fria na cabeça!

Reinaldo — Isto não é nada; deixem-me aplicar-lhe um globulozinho de beladona.

(Tira do bolso uma caixa homeopática).

Anastácio (Avançando com a torcida de papel) — Afastem-se! eu curo em um instante minha cunhada. (Introduz a torcida no nariz de Hortênsia, e esta espirra).

Espirrou!...está salva.

Hortênsia (Tornando a si) — Ah!...(Á parte) Malvado!...

Todos — Minha senhora!

Anastácio (Erguendo a torcida) — Viva a torcida!...a torcida é um específico infalível para o mal dos faniquitos!...

Leonina (À parte) — Marceneiro!...



FIM DO PRIMEIRO ATO

ATO II

O teatro representa um ponto do Jardim Botânico; ao fundo vê-se o lago e a pequena ilha; à esquerda grupos de bambus, à direita aparece sobre o seu outeiro um lado da casa de cedro; árvores e arbustos convenientemente dispostos.



CENA I

Maurício, Hortênsia, Leonina, Fabiana, Filipa, Frederico, Reinaldo, Lúcia e Pereira; uns contemplam o lago, descem outros da casa de cedro, etc: Anastácio, meio deitado na encosta do outeiro.

Hortênsia — Deveras que nunca vi rosa mais bela, nem mais perfeita.

Fabiana — Mas de quem seria a mão cruel que se atreveu a roubar aquela princesa do jardim? Vimos a rosa apenas alguns momentos, e quando voltamos a contemplála, tinha já desaparecido!

Reinaldo — A tal rosa tem dado que pensar às senhoras! oh! quem pudera transformar-me em um pé de roseira!

Hortênsia — É o mistério de uma flor, um começo de romance que enche de poesia o agradável passeio que nos proporcionou o comendador.

Pereira (Á parte) — Conheço agora que sou um homem muito espirituoso!

Lúcia — E não há quem rompa esse mistério?...

Filipa — Que mistério! Não há coisa mais simples: quem roubou a rosa foi o senhor

Anastácio.

Pereira — Não, não; sou capaz de apostar que a rosa se oculta junto de algum coração apaixonado, e está reservada para ser a palma da beleza.

Frederico — E que pensa Vossa Excelência?...(A Leonina) Nem mesmo o destino misterioso dessa rosa pode arrancá-la às tristes meditações, de que hoje se mostra apoderada?

Filipa — E quem tem culpa disso é ainda o senhor Anastácio. (Rindo-se)

Hortênsia — E desta vez adivinhou, Dona Filipa: o mano levou a conversar toda a noite com Leonina, e, certamente, lhe pregou tal sermão, que ainda hoje a faz estar pensativa e triste.

Maurício — Pois vençamos a sua melancolia obrigando-a a passear; creio que as senhoras já descansaram.

Frederico — Sim, e as flores esperam as borboletas.

Fabiana — Vamos, e eu quero ser o cavalheiro de Dona Leonina: hei de conseguir torná-la prazenteira e alegre. (Dá o braço a Leonina).

Pereira (Dando o braço a Hortênsia ) — Minha senhora! (Vão saindo Fabiana com Leonina pela esquerda e Frederico com Lúcia, Pereira com Hortênsia, e Reinaldo com Filipa pela direita).

CENA II

Maurício, que vai sair, e Anastácio, que o suspende.

(continua...)

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