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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

MENDES – Compadre, o teu tabaco é melhor do que a tua consciência. Dá cá tabaco (Tomam).


Cena II

Peres, Mendes e Joana, que desce a escada.


PERES – A Antonica da Silva?...

JOANA – Encerrou-se no quarto, que lhe destinamos.

PERES – E as meninas?...

JOANA – Bordavam ao pé de mim.

PERES – Manda-as bordar sozinhas no sobrado...

JOANA – Então a Antonica é moça de costumes suspeitos?

PERES – Não; mas queria casar contra a vontade do pai, um mau exemplo para as nossas filhas. Anda, preciso dizer-te uma coisa... (Vão indo).

MENDES – Comadre; pode ser que seu marido se salva, mas não entra no céu sem passar pelo purgatório ( Vão-se pelo portão).


Cena III

Inês, observa da varanda e depois desce.


INÊS – Até o meio dia ou pouco mais ficamos sós. Não sei que sinto... desejo, mas não posso olhar para o moço!... há no meu seio alvoroço, na minha alma confusão... não me entendo! quando ele se aproxima, estremeço toda... tenho lido em novelas tantas lições de amor! ai, meu Deus!... se eu amo, o amor incomoda muito no princípio (Canta)


Depois daquele abraço e dos beijos sem conta

Que ele me deu, e eu dei.

Sabendo que era homem, nem pude ver afronta

No ardor que provoquei...

Mas agora...

Não posso olha-lo, ai, não!

Junto dele bisonha

O pejo me devora...

Sou toda olhos no chão...

Tenho tanta vergonha!

De moço em roupa justa vestida ele me viu

E de calções até

Culpada mamãe só, que foi quem me vestiu

E fez-me Almotacé

Mas agora...

Não posso olha-lo, ai, não! !...

Junto dele bisonha

O pejo me devora,

Sou toda olhar no chão...

Tenho tanta vergonha!


Cena IV

Inês e Benjamim, que desce a escada.


BENJAMIM – Este momento é um milagre de amor...

INÊS – Ah! (Medrosa) mamãe... (Olhando).

BENJAMIM – Não tarda; é por isso que tenho pressa. Quisera ficar aqui vestido de mulher toda a minha vida; mas tanta dita não dura: esperam-me perseguição, tormentos...

INÊS – Corre algum perigo?...

BENJAMIM – Pouco importa: resistirei à mais cruel adversidade, se merecer levar comigo a esperança do seu amor. Eu amo-a!

INÊS – Senhor...

BENJAMIM – É que sua mãe não tarda... não tarda... (Toma-lhe a mão).

INÊS – Tenho muita vergonha...

BENJAMIM – Entre duas moças, como nós somos, não devem haver essas vergonhas! eu amo-a! e mamãe não tarda...

INÊS – Não sei... não ouso...

BENJAMIM (Larga a mão de Inês) – Ora está... aí vem sua mãe... (Triste) sou muito infeliz!

INÊS (Voltando o rosto e abaixando os olhos) – Amo-o.

BENJAMIM – Ah! brilhou a luz do meu futuro! a mamãe agora pode chegar... pode chegar...


Cena V

Inês, Benjamim, Joana e Brites.


JOANA (A Benjamim) – Que fazia aqui junto de Inês?

BENJAMIM – Não fazia nada, não senhora: como ainda sou Antonica da Silva, tratava de salvar as aparências.

JOANA – Creio que apertava a mão de minha filha...

BENJAMIM – Qual! não apertava, não senhora: as moças, quando passeiam no jardim, costumam às vezes dar-se as mãos. Eu estava fingindo costumes de mulher.

JOANA (A Inês)— Que te dizia este se... esta senhora?

INÊS – Eu me sentia muito vexada... não sei bem... penso que me falava... de Macacu...

BENJAMIM – Exatamente: falava de Macacu.

JOANA – E que dizia? (Senta-se, e Brites a seu lado; Inês em outro banco).

BENJAMIM (Em pé) – Descrevia as festas pomposas lá da vila: então as da igreja dos franciscanos! quando o guardião sobe ao púlpito, grita com uma eloqüência que faz dor de ouvidos (Senta-se junto de Inês) E as procissões!...

JOANA – Brites, senta-te ao pé de Inês; venha o senhor... a senhora para cá (Brites e Benjamim trocam os lugares).

BENJAMIM – Eu apenas salvava as aparências: as moças gostam de sentar-se juntinhas. Mas... os franciscanos.

JOANA – Os franciscanos? (À parte) Quem sabe?... (A Benjamim) quero ouvi-lo; ainda não me contou a sua história verdadeira (Leva-o para o fundo).

BRITES – Inês, mamãe já desconfia que gostas do Benjamim, e opõe-se...

INÊS – Para mim oposição é estímulo: sim! amo este moço e vou dizê-lo a meu padrinho...

BRITES – Ai, cabeça de novelas, vê lá, se te fazes heroína!...

INÊS – Se fosse preciso...

BRITES – Tonta! olha meu pai!...

INÊS (Encolhendo os ombros) – Tenho meu padrinho.

BRITES – Que faremos até ao meio-dia?... vou mandar trazer almofadas e banquinhas: quero ver se a Antonica da Silva faz rendas (Sobe a escada, dá ordens e volta).

JOANA (Voltando com Benjamim) – Ainda bem que não o prenderam.

BENJAMIM – Fugi, mas só à vingança do potentado; ao medo da guerra, não: as senhoras podem acreditar, que metido nestas saias está um homem.

JOANA – Provou-o, dando a bofetada no capitão-mor.

INÊS – Mamãe, ele deu bofetada em algum capitão-mor?...

JOANA – E por isso o perseguem, querem assentar-lhe praça de soldado... mas é preciso não falar nisto: segredo!...

BRITES – Recrutamento malvado! Em pouco tempo só ficarão velhos para noivos das moças. E para desesperar!

JOANA – (Vendo escravos que trazem quatro banquinhas e quatro almofadas) – Faremos rendas?... lembraram bem (Sentam-se nas banquinhas e tomam as almofadas).

INÊS (À parte) – Recrutamento e vingança... é horrível! (Senta-se).

JOANA (A Benjamim) – O senhor parece que não é novo na almofada!

(continua...)

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