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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Mandei contratar na Europa um artista de merecimento superior para os trabalhos das minhas oficinas, e chegou-me no ultimo paquete um armênio de habilidade extraordinária; mas que me desagrada por ter pretensões a muito sabido em magia.

—Ainda uma esperança! exclamei; eu me abraço com a mais tênue, com a mais dúbia, e até mesmo com a mais louca. Onde está o armênio?...

—Em um pequeno gabinete no fundo da casa, e ai dorme de dia e trabalha de noite e sempre só: é um maníaco.

—Poderia eu falar-lhe?

—Vou mandá-lo chamar.

—Entender-me-á ele?...

—Fala perfeitamente todas as línguas em que lhe falam.



X

Entramos para a casa das oficinas; porque o armênio não gostava de mostrar-se no armazém.

Vou dizer com inteira verdade o que ouvi e o que o bom velho meu amigo viu e me referiu miudamente tanto nesta ocasião, como à hora da meia-noite no gabinete misterioso, Passados apenas alguns minutos o armênio apareceu.

Era um homem alto, magro e com os ossos muito salientes: trazia os cabelos crescidos, o rosto contraído, a face macilenta enegrecida pela fumaça; suas mãos enormes estavam empoeiradas, e seus dedos coroados por grandes unhas pareciam garras; vestia calças e blusa de pano vermelho.

—Que pretendem de mim? perguntou ele em português.

Não me animei a falar; o bom velho, meu amigo, também não ousou fazê-lo: foi o Reis quem falou por mim, expondo a minha Infelicidade, e a desesperada esperança que eu concebera.

O armênio se aproximou de mim, considerou-me durante alguns instantes, examinou-me os olhos, apalpou-me os ossos do crânio, e mostrando-se compadecido, disse: —Não te quero mal, e o dia é mau; hoje é sábado, e os gênios sinistros predominam: escolhe outro dia, e eu te darei a vista. O Reis fez um movimento denunciador da sua incredulidade.

O armênio encarou-o fixamente, e depois perguntou-lhe:

—Duvida sempre?

—Não duvido, tenho a certeza de que a sua magia não é impostura somente porque é lamentável mania.

O armênio desatou a rir; devia ser um rir medonho, porque foi longa e estridente gargalhada, e porque, segundo me disse o velho, ele não tinha um único dente.

—De que ri assim?... inquiriu o Reis.

—Do triunfo e do mal: duvidam do meu poder, e vou prová-lo: eis o triunfo; infiltrarei o ceticismo na alma de um inocente mancebo eis o mal.

Tive um ímpeto de coragem, avancei um passo e perguntei-lhe:

—Dar-me-ás a vista?...

—Sim, e mais penetrante do que a desejas.

—Como?

—A experiência te responderá.

—E tu por que não?...

—Que te importa?... já o disse: terás vista mais penetrante do que desejas e pensas; queres? —Por que modo a terei?

—Dando-te eu uma luneta mágica.

—Quando?

—Hoje mesmo e amanhã, na hora em que acabará o dia de hoje para começar o dia de amanhã, à meia-noite;

—E o teu prêmio?

—Será a tua próxima convicção de que é melhor ser cego, do que ver demais.

—Aceito.

—É o mal.

—Aceito.

—É o gelo no coração!

—Aceito.

—E o ceticismo na vida!

—Aceito.

—Por que, criança?...

—Porque eu quero ver.

—Veras demais!

—Aceito.

—Volta à meia-noite.



XI

Quando, de volta da casa do Reis, me achei a sós na solidão do meu quarto, comecei a sentir espinhos na consciência, temores de incorrer em grande pecado por ir procurar na magia remédio contra a minha miopia física.

Mas na luta do desejo ardente de ver bem i distintamente, e dos meus escrúpulos religiosos que acabavam de despertar, eu me reconheci tão fraco e tão pecador como Eva, porque pela ambição da vista deixava-me sempre escravo das promessas do armênio, como Eva se deixou escrava dos conselhos infernais da serpente pela ambição da ciência do bem e do mal.

Hesitei: meditei, e desconfiado da minha miopia moral, resolvi-me a consultar a opinião das três consciências mais sãs que eu conhecia no mundo.

A consciência do mano Américo, o homem que vivia por si e por mim, o tipo do desinteresse e da abnegação.

A consciência da prima Anica, a jovem símbolo do amor mais dedicado, e sem sombras do egoísmo.

A consciência da tia Domingas, a velha religiosa e santa, que vivia a rezar, e que era toda misticismo.

Dirigi-me ao mano Américo e perguntei-lhe:

—Se encontrasses um mágico que te oferecesse um talismã com a virtude de te assegurar a vitória em todas as eleições de deputados, e de te fazer subir ao ministério, que farias?

Meu irmão respondeu-me logo:

—Para servir a minha pátria, e dedicar-me todo a ela, eu aceitaria o talismã, e o traria sempre comigo.

Achei-me a sós com Anica, e apressei-me a consultá-la:

—Se houvesse um feiticeiro, que por artes diabólicas possuísse e te quisesse dar o segredo da formosura e da vida em constante primavera até cem anos de idade, que farias?

—Abraçava o feiticeiro, tomava-lhe o segredo e pedia-lhe que te desse, mesmo por artes diabólicas, melhores olhos para que visses a minha formosura encantada.

Fui ter com a tia Domingas e fiz-lhe a seguinte pergunta:

—Se lhe aparecesse um homem suspeito de se ter vendido ao demônio, e lhe apresentasse o bilhete de loteria em que uma hora antes houvesse saído a sorte grande, que faria?

—Somente pelo gosto de enganar o demônio, comprava o bilhete, e recebendo o prêmio, gastava metade em obras de misericórdia.

(continua...)

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