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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Quero, quero morrer como cristão... Que me importa agora o mundo, a vingança... tudo?... só Inocência!... Coitada de Inocência... Quem sabe... se... ela... não morrerá? Manecão, dá-me água. Água pelo amor de Deus!... Desce do cavalo, homem. . . É um defunto que te pede... Desce!...

E com os braços erguidos acenava para Manecão.

—Água, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me água... eu te dou a salvação...

Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabelos. Queria fugir e não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo a agonia da sua vitima. Aquela cena, se lhe afigurava um pesadelo, e completo torpor lhe tolhia os membros.

Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela estrada a trote.

Ouvira também Cirino o estrupido e arregalara com ansiedade os olhos.

Desabrochou-lhe nos lábios um sorriso de acre tristeza.

Alguém vinha chegando.

Esporeou Manecão com vigor o cavalo e, levantando uma nuvem de poeira, desapareceu num abrir e fechar de olhos.

Nisto assomava um cavaleiro numa das voltas do caminho.

Era Antônio Cesário.

Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.

— O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorizado.

—Eu mesmo, respondeu Cirino com voz fraca. —Mas, quem lhe fez este dano, santo Deus?

E correndo para o moço ajoelhou-se junto dele e levantou-lhe o corpo.

—Quem foi o assassino?

—Ninguém, rouquejou o mísero, foi... destino... Morro contente... Dê-me água .. e fale-me de Inocência...

—Água? exclamou Cesário com desespero, aqui no meio do cerrado?... O córrego fica a três léguas pelo menos...

—Ah! replicou Cirino meio desvairado, se não há... com que estancar a sede do corpo... estanque a... da alma... Inocência... onde esta? quero vê-la... Diga-lhe que morri... por causa dela...

—Mas, quem o matou? bradou o mineiro.

—Não vale a pena dizê-lo, respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide agora... só de mim... Olhe nunca fui mau... não tenho pecados .. grandes... Acha que Deus me... há de perdoar?

— Acho, respondeu Cesário com força ..

—Que fiz eu... na minha vida? Talvez... enganasse os outros... dizendo que era .. médico... Mas também curei alguns . De nada mais me recordo... Ah! Sim... uma divida de honra... Na minha carteira... há uns seiscentos mil-réis; pague... trezentos ao Totó Siqueira, da vila; de... cinqüenta mil-réis. a cada camarada... meu... o mais... distribua.. todo... pelos pobres, sobretudo... morféticos... depois das .. missas... que por mim... mandar... rezar... ouviu?... ouviu?

Fez o mineiro sinal que sim.

Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cirino. Ia-se-lhe empanando o brilho dos olhos; ficara a língua trôpega, afilara-se-lhe o nariz e sinistro palor mais realçava a negra cor dos seus cabelos e barbas.

Sentara-se Cesário no chão para segurar com mais jeito o corpo do moribundo. Duas lágrimas vinham-lhe sulcando as másculas faces. Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cirino.

—Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou... o meu dia... Mas... eu lhe peço... nada diga... à sua afilhada... Não consinta... que case com... Manecão.

—Então, interrompeu Cesário, foi ele quem?...

—Não, não, contestou Cirino, mas... ela havia de ser... infeliz... Ouviu?

Promete-me?

—Prometo, respondeu Cesário com firmeza. Juro até...

—Pois bem, suspirou o agonizante, agora... agradeço a morte. Quero apegar-me... às Santas do Paraíso... e chamo por...

E com esforço, no último alento, murmurou mais e mais baixo:

—Inocência!

Na tarde deste dia, o viajante que passasse por aquele sitio poderia ver uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca feita de dois grossos paus amarrados com cipós.

Eram mostras da caridade do mineiro Antônio Cesário

EPÍLOGO—REAPARECE MEYER

Possuí-te do justo orgulho o coroem os louros de Apolo tua cabeça.

( Horácio ).

No dia 18 de agosto de 18é3, presenciava a cidade de Magdeburgo pomposo espetáculo, há muito anunciado no mundo científico da sabia Germânia.

Era uma sessão extraordinária e solene da Sociedade Geral Entomológica, a qual chamava a postos não só todos os seus membros efetivos, honorários, correspondentes, como muitos convidados de ocasião, a fim de acolher e levar ao capitólio da glória um dos seus mais distintos filhos, um dos mais infatigáveis investigadores dos segredos da natureza, intrépido viajante, ausente da pátria desde anos e de volta da América Meridional, em cujas regiões centrais por tal forma se embrenhara, que impossível havia sido seguir-lhe o roteiro, até nos mapas e cartas especiais do grande colecionador Simão Schropp.

Revestira-se de mil galas a ciência. Todos os sócios de casaca preta, gravata e luvas brancas alguns com discursos nos bolsos, enchiam a sala das sessões muito antes da hora marcada; a orquestra executava a sonata nº 2é de Ludwig van Beethoven, e senhoras ostentavam toilettes ricas e de aprimorado gosto. De repente atroou um grito:

—Vivat Meyer! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...

E, ao passo que todos os pescoços se estiravam para ver quem entrava sacudiam-se no ar com entusiasmo lenços e chapéus.

(continua...)

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