Por Franklin Távora (1876)
Joana mal pudera ouvir a intimação deste cruel mandado.
— Não, não ! — gritara, atirando-se para fora do palácio em estado de puro desespero.
Alguns soldados correram a pegá-la, mas em vão, porque, empregando esforços sobre a natureza, pudera Joana escapar, não sem deixar primeiro despedaçados nas mãos de um o lençol em que estava envolta, nas de outro parte dos seus cabelos que haviam de todo embranquecido. Aquela pobre mulher fora condenada pela adversidade a padecer angustiados momentos, para os quais não acharemos semelhantes no catálogo das tragédias humanas.
Ela fora pôr-se junto da masmorra, donde Cabeleira, Joaquim e Teodósio, que aí se achavam em grande recado, logo que houvessem recebido os confortos da religião, tinham de partir para o lugar do suplício.
A esse tempo já as circunvizinhanças desse lugar se achavam ocupadas por grandes massas de povo.
Quando no relógio da cadeia soou a hora fatal,; viu-se desfilar entre fortes colunas militares e a multidão os condenados. O silêncio e a tristeza que aumentam a solenidade destes espetáculos indescritíveis, eram de momento a momento perturbados pelos lamentos de Joana.
— Meu filho vai morrer enforcado ! Ah ! meu Deus, vós bem sabeis que ele não teve culpa —dizia ela com a voz entrecortada de soluços.
José César, cercado dos seus privados e lisonjeiros viu da varanda do palácio, outrora povoado pelo vulto homérico de Maurício de Nassau, tipo de mais fidalgo liberalismo que ainda transpôs aqueles umbrais, com uma espécie de recolhimento qual se estivesse presenciado uma procissão desfilar o fúnebre préstito, que em seu trajeto percorreu as ruas do Crespo, Queimado, Livramento, Direita, Pátio do Terço, e finalmente parou no largo das Cinco Pontas ao pé do terrível artefato. Era uma hora da tarde.
O juiz nomeado pelo governador para assistir à execução em conformidade do disposto na provisão régia, ordenou que o escrivão repetisse a leitura da sentença. Os delinqüente. ouviram pela vigésima vez, com sincera contrição, esse padrão do absolutismo colonial.
Finda a leitura, viu-se o Cabeleira aparecer, quase de súbito, no estrado da forca, ao lado do carrasco.
Ele não havia vacilado na rápida ascensão nem dava mostras de abatido.
Seu rosto estava pálido, mas sereno. A cabeça tinha despojada do belo distintivo a que o mancebo devia a alcunha com que seu nome chegou à posteridade.
Com um olhar longo e rápido abrangeu a multidão que se apinhava em derredor do patíbulo, e proferi, sem titubear, com voz ligeiramente alterada, estas palavras que a tradição recebeu como herança, para transmitir às gerações vindouras:
— Morro arrependido dos meus erros. Quando caí no poder da justiça, meu braço era já incapaz de matar, porque eu já tinha entrado no caminho do bem...
— Meu filho ! meu filho ! — gritou nesse momento Joana do meio do povo por entre o qual buscava embalde abrir caminho para chegar ao pé do cadafalso. A esta exclamação, o Cabeleira voltou-se confuso e comovido. Um longo suspiro escapou-lhe do peito opresso da súbita aflição. Seus lábios trêmulos deixaram passar estas precisas e pontuais palavras:
— Adeus mamãezinha do meu coração !
No mesmo instante, aos olhos da multidão profundamente abalada, a cena transformou-se como por oculto maquinismo. O infeliz mancebo, que, mal acabara de falar tinha sido rudemente impelido do estrado para o vácuo, pendia da corda assassina, tendo sobre os ombros o carrasco que apertava com as mãos cobardes o laço sufocante. Cena bárbara que enche de horror a humanidade, e cobre de vergonha e luto, como tantas outras, a história do período colonial !
No meio da multidão esta cena de morte reproduziu-se no mesmo instante, unicamente modificada na forma. Entre os braços de umas mulheres do povo, pobres mães decerto, Joana acabara de exalar o último suspiro. O coração tinha-se instantaneamente estalado de dor.
Poucos momentos depois ao cadáver do Cabeleira reuniram-se os de Joaquim e Teodósio, seus companheiros na vida e na morte, na história da província e nas reminiscências do povo, -de presente quase de todo apagadas pela mão do tempo.
A notícia de tão triste exemplo atravessou as remotas paragens onde repercutia a fama do grande matador, e passou ainda além nas asas ligeiras dos versos já citados, aos quais se devem reunir estes dois últimos, trovistas pernambucanos:
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar;
Veja Cabeleira
Que vai a enforcar.
Adeus, ó cidade,
Adeus, Santo Antão,
Adeus, mamãezinha
Do meu coração.
A execução do Cabeleira e seus co-réus não atalhou as desordens e delitos, a que se refere a provisão; não trouxe terror nem emenda aos malfeitores.
Os crimes atrozes, então muito freqüentes, se têm diminuído, ainda não cessaram de todo. As folhas públicas registram todos os dias por infelicidade nossa muitos deles, perpetrados no Norte, no Sul e na própria corte do Império.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.