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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Ah! já sei, — disse Leôncio, — são eles, são as pessoas que mandei chamar; o vigário, o tabelião e mais outros... bom! já não nos falta tudo. Vieram mais depressa do que eu esperava. Manda-os apear e entrar, André.

André sai, Leôncio toca uma campainha, e aparece Rosa.

— Rosa, diz-lhe ele, — vai já chamar sinhá Malvina e Isaura, e o senhor Miguel e Belchior. Já devem estar prontos; precisa-se aqui já da presença de todos eles.

— Estou aflito por ver o fim a esta farsa, - disse Leôncio a seu amigo, — mas quero que ela se represente com certo aparato e solenidade, para inculcar que tenho grande prazer em satisfazer o capricho de Malvina e melhor iludir a sua credulidade; mas — fique isto aqui entre nós, — este casamento não passa de uma burla. Tenho toda a certeza de que Isaura despreza do fundo d'alma esse miserável idiota, que só em nome será seu marido. Entretanto ficarei me aguardando para melhores tempos, e espero que o meu plano surtirá o desejado efeito.

— Cá por mim não tenho a menor dúvida a respeito do resultado de um plano tão maravilhosamente combinado.

Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, apareceu à porta do salão um belo e jovem cavalheiro, em elegantes trajos de viagem, acompanhado de mais três ou quatro pessoas. Leôncio, que já ia pressuroso recebê-los e cumprimentá-los, estacou de repente.

— Oh!... não são quem eu esperava!... murmurou consigo. – Se me não engano... é Álvaro!...

— Senhor Leôncio! — disse o cavalheiro cumprimentando-o.

— Senhor Álvaro, — respondeu Leôncio, — pois creio que é a esse senhor, que tenho a honra de receber em minha casa.

— É ele mesmo, senhor; um seu criado.

— Ah! muito estimo... não o esperava... queira sentar-se... quis então vir dar um passeio cá pelas nossas províncias do Sul?...

Estas e outras frases banais dizia Leôncio, procurando refazer-se da perturbação em que o lançara a súbita e inesperada aparição de Álvaro naquele momento crítico e solene.

No mesmo momento entravam no salão por uma porta interior Malvina, Isaura, Miguel e Belchior. Vinham já preparados com os competentes trajos para a cerimônia do casamento.

— Meu Deus!... o que estou vendo!... — murmurou Isaura, sacudindo vivamente o braço de Miguel: - estarei enganada?... não... é ele.

— É ele mesmo... Deus!... como é possível?

— Oh! — exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que exalou como um suspiro, expressava o desafogo de um pego de angústias, que lhe pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com atenção veria um leve rubor naquele rosto, que a dor e os sofrimentos pareciam ter condenado a uma eterna e marmórea palidez; era a aurora da esperança, cujo primeiro e tímido arrebol assomava nas faces daquela, cuja existência naquele momento ia sepultar-se nas sombras de um lúgubre ocaso.

— Não esperava pela honra de recebê-lo hoje nesta sua casa, — continuou Leôncio recobrando gradualmente o seu sangue-frio e seu ar arrogante. — Entretanto há de permitir que me felicite a mim e ao senhor por tão oportuna visita. A chegada de V. Sa. hoje nesta casa parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.

— Sim?!... muito folgo com isso... mas não terá V. Sa. a bondade de dizer por quê?...

— Com muito gosto. Saiba que aquela sua protegida, aquela escrava, por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vai ser hoje mesmo libertada e casada com um homem de bem. Chegou V. Sa. mesmo a ponto de presenciar com os seus próprios olhos a realização dos filantrópicos desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e eu da minha parte muito folgarei se V. Sa. quiser assistir a esse ato, que ainda mais solene se tornará com a sua presença.

— E quem a liberta? - perguntou Álvaro sorrindo-se sardonicamente.

— Quem mais senão eu, que sou seu legitimo senhor? — respondeu Leôncio com altiva seguridade.

— Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor: — disse Álvaro com firmeza. - Essa escrava não lhe pertence mais.

-—Não me pertence!... — bradou Leôncio levantando-se de um salto, — o senhor delira ou está escarnecendo?...

— Nem uma, nem outra coisa, - respondeu Álvaro com toda a calma: repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.

— E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ela?

— Os seus credores, senhor, — replicou Álvaro, sempre com a mesma firmeza e sangue-frio. — Esta fazenda com todos os escravos, esta casa com seus ricos móveis, e sua baixela, nada disto lhe pertence mais; de hoje em diante o senhor não pode dispor aqui nem do mais insignificante objeto. Veja, — continuou mostrando-lhe um maço de papéis, - aqui tenho em minhas mãos toda a sua fortuna. O seu passivo excede extraordinariamente a todos os seus haveres; sua ruína é completa e irremediável, e a execução de todos os seus bens vai lhe ser imediatamente intimada.

A um aceno de Álvaro, o escrivão que o acompanhava apresentou a

Leôncio o mandado de seqüestro e execução de seus bens. Leôncio, arrebatando o papel com mão trêmula, passeou rapidamente por ele os olhos faiscantes de cólera.

(continua...)

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