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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Assim notou que o rival montava a cavalo e ia até certo ponto da estrada como que esperar por alguém que não chegava. Na ida, mostrava impaciência e inquietação; na volta vinha melancólico e curvado sobre si mesmo, absorto em fundo meditar.

Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesário; mas este não aparecia.

Estava quase expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do completo desengano.

Oh! se ele pudera!... Agarraria com forças de Josué esse Sol que lhe marcava os dias e o deixaria imóvel, até que o seu salvador se resolvesse a estender-lhe a mão.

E já ia findando a semana!...

Completo o círculo de horas, se Cesário não aparecesse, começava a imperar o juramento que dera, irrevogável, implacável!

—Matar-me-ei, dizia Cirino; ficarão sabendo que não menti às minhas palavras.

Nessa firme resolução saiu da vila; passou o Rio Paranaíba e, como costumava, caminhou pela estrada de São Francisco de Sales, talvez três léguas.

Contava pousar por aqueles sítios de modo que alongava o seu passeio.

Claro era o dia; lindo:

Por toda parte cantavam mil pássaros. Gritavam as gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.

Cirino ia multo agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na frente, buscavam na estrada, ansiosos, o vulto de um cavaleiro.

Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.

Alguém vinha a galope.

Seu coração pulsou que parecia ter entrado também a galopar.

Mas o som partia de detrás.

Sem dúvida, algum viajante vindo da vila.

Continuou Cirino na vagarosa marcha.

O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve consigo estaria emparelhando, quem extravagantemente em hora tão imprópria corria à desfilada.

O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguém a trote largo passara por perto de si, quase a rogar animal contra animal.

Dali a pouco, novo galope se fez ouvir.

Parecia que o mesmo cavaleiro havia dado de rédeas, cortando o rumo que levava.

Dessa vez, porém, Cirino acordou do letargo, esporeou vigorosamente a sua cavalgadura e... esbarrou com Manecão.

Instintivamente empalideceu. O outro estava também muito descorado.

Estacaram eles os animais e fitaram-se alguns minutos, de um lado com desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.

—Patrício, interpelou por fim o capataz em tom provocador, que faz mecê por aqui?

—Eu? perguntou Cirino.

—Nhor-sim, mecê mesmo.

—É boa... viajo.

—Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?

—Andejo, não, contestou Cirino com força. Não sou nenhum bruto.

E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola, fazendo menção de a sacar.

—Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é? —Sou o que sou, não é da sua conta.

Contraiu-se o rosto de Manecão.

De um tranco chegou o cavalo bem junto a Cirino e disse-lhe em voz surda:

—É um ladrão... é um cachorro! .

A esse insulto, puxou Cirino a pistola.

—Mato-o já, bradou com violência se continua a destratar-me.

Sorriu-se o capataz com desprezo.

—Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E sabe manejar garrucha!...

—Acabemos com isso, gritou Cirino.

—Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.

—Mas quem é o senhor? perguntou Cirino.

—Eu?

—Sim!... sim!...

—Então não me conhece?

—Não, balbuciou Cirino.

—Conhece Nocência? uivou Manecão com voz terrível

E de supetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a à queima-roupa em Cirino.

Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.

Dois gritos estrugiram.

Um de agonia, outro de triunfo.

Ficara Cirino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorrompeu em vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardônico.

—Matador! vil!... sim!... conheço Inocência... Ela é minha... Infame! .. Mataste-me... mas mataste também a ela!... Que te fiz eu?... Deus te há de amaldiçoar... sim, meu Deus, meus Santos .. maldição sobre este assassino... Foge, foge... minha sombra há de seguir-te sempre...

—Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavalo, isso mesmo é o que eu quero.

—Ah! queres? continuou Cirino com voz rouquejante, não é?... Pois bem!... De noite e de dia... minha alma há de estar contigo . . sempre, sempre! . . .

Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela testa.

Lentejava-lhe dos poros o suor frio e visguento da morte.

Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração tornou-se-lhe mais difícil

—Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer... assim. Devo sair desta vida... como cristão... Hei de saber perdoar... E reunindo as forças, acrescentou com unção e energia: Manecão... eu te perdôo... por Cristo... que morreu... na cruz, para nos salvar... eu te perdôo Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo, ouviste?

A medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.

—Não quero o teu perdão, bradou ele a custo.

—Não importa, respondeu-lhe Cirino com voz suave. Ele é... dado do fundo d'alma... Cata sobre tua cabeça...

(continua...)

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