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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

A mentira acompanhava-a ás sociedades, aos passeios, aos saráos, aos theatros : a verdade, que aliás não a deixava nunca, erguia-se terrivel no silencio da noite e na solidão do seu quarto ; erguia-se, e abrazava-lhe a face e os labios, lembrando-lhe beijos impuros ; erguia-se, e cantava-lhe aos ouvidos horas inteiras, e incessante e desesperadamente aquelle canto sinistro que marcara o momento da sua perda e do seu opprobrio.

E Juliana, que tinha horror a essas noites de indizivel martyrio, ainda mais se arreceiava de que viesse alguma vez sua mãi observal-a, temendo que por acaso então adormecida revelasse em um sonho traidor o segredo fatal da sua vergonha.

A misera jovem, que em horas de imprudencia e de loucura tinha calado aos pés os preceitos do dever e da virtude, já estava pois sendo severamente castigada.

Recebia um castigo, nas justas murmurações de um mundo sempre desapiedado da mulher que se avilta.

Recebia outro castigo nesse desassocego e medo que incessantemente sentia.

E mais que tudo a consciência, que é como um écho da voz de Deus, a castigava com as torturas horriveis do remorso.

XXIV.

O caracter de Juliana era capaz de emprestarlhe a audacia necessária para resistir á silenciosa, mas palpitante reprovação com que ella era recebida nas reuniões em que se apresentava.

Sua vaidade dava-lhe forças para impôr-se.

Quando ás vezes via suas rivaes sorrirem maliciosamente olhando para ella, encarava-as atrevidamente, ou dardejava sobre as inimigas um olhar de fingido desprezo, que chegava a confundil-as.

Sem tremer, sem corar e sem empallidecer, Juliana resistia aos olhos perscrutadores dos homens, que parecião querer penetrar em seu coração e ler ahi um segredo cruel e sinistro.

E apezar daquelles sorrisos, daquellas vistas dos olhos insolentes, apezar do murmurar injurioso que ás vezes sorprendia de passagem, a pobre moça dansava, ria, folgava como d'antes, trazendo no rosto o céo e na alma o inferno.

Em duas noites de reunião, porém, teve emfim Juliana de enfraquecer.

Em uma dellas, era um baile, ostentava a pobre moça toda a sua alegria artificial, e no momento em que acabava de levantar-se para aceitar o braço de um cavalheiro com quem ia dansar, vio de subito apparecer na sala Jorge de Almeida, que fixou sobre ella um olhar cheio de cruelissima ousadia.

Juliana estremeceu violentamente, recuou um passo, deixou-se cahir sentada na cadeira de que acabava de levantar-se, e desculpou-se com o seu cavalheiro, dizendo-lhe a tremer :

— Não posso... é impossivel.

Esta impressão tão forte e profunda, que recebera Juliana ao ver entrar na sala Jorge de Almeida, foi interpretada pelos curiosos e observadores de um modo muito maligno para a infeliz moça, quo logo depois retirou-se do baile.

Passados alguns dias, em outra e muito numerosa e brilhante reunião, depois de algumas horas dedicadas á dansa e á musica, estava Juliana com algumas jovens, não tão bellas, mas tão vaidosas como ella, descançando e conversando em uma pequena sala que communicava com o toucador.

Fallavão sobre musica.

Juliana sinha sido muito applaudida pouco antes cantando um romance, que pela primeira vez fora ouvido.

Uma das moças mordêra-se de inveja por que não pudera agradar tanto quanto esperava, executando uma aria já cem vezes cantada no theatro italiano.

Depois de longo conversar, a invejosa, cançada de ouvir elogios ao romance de Juliana, disse sorrindo ironicamente :

— Sei um romance muito mais bonito do que esse que cantou D. Juliana.

— E qual é ?...

— Não tem nome ainda; posso porém repetir uma das tres estrophes de que consta a sua poesia.

— É novo ?...

— Para quasi todos, mas talvez que D. Juliana já o conheça, pois que é tão apaixonada de romances.

— Conta-o.

E a invejosa cantou baixinho :

Esta lua tão formosa,

Esta noite deleitosa,

Este céo de lactea cor,

Este silencio profundo.

Este repouso do mundo,

É tudo encanto de amor.

Um gemido pungente interrompeu o canto da invejosa. Juliana acabava de desmaiar.

XXV.

A miseria victima de um infame seductor não poude combater por mais tempo contra a sociedade que a repellia e que no emtanto continuava a abrir o seio ao seu algoz.

Voltando daquelle ultimo baile em que desmaiara ouvindo um canto injurioso, Juliana adoeceu gravemente.

Durante oito dias luctou com a morte, venceu-a emíim e talvez a pezar seu ; ficou-lhe porém uma profunda e acerba melancolia, contra a qual não houve recurso que aproveitasse. Os medicos aconselharão distracções. Juliana não se prestou mais a voltar aos bailes e ás reuniões, e apenas condescendeu em passeiar fora da cidade com sua mãi e Fábio.

Os passeios repetião-se inutilmente e sem o menor proveito : a melancolia de Juliana era invencivel, e fazia tremer a Cândida e ao seu sempre fiel e extremoso amante. Um dia Fábio chegou á casa de Cândida ainda mais commovido do que nos anteriores.

— Que tens, Fábio ?... ha alguma novidade ?... perguntou Cândida.

— Sim, mas é preciso não deixal-a perceber a Juliana.

— Então...

— Jorge de Almeiada casa-se amanhã.

— Silencio, Fábio! pelo amor de Deus silencio!

(continua...)

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