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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Ande lá, ande lá! Isto agora é uma letrinha dum rapaz, um peralta que já esbanjou a legítima do pai, e está à espera da herança da mãe. É preciso pôr-lhe em cima o ano do nascimento e andar com a tramóia depressa para arranjar uma sentençazinha, que fique na gaveta bem guardada à espera do bolo. Enquanto o marreco anda na pinga, não olha para estas coisas, nem dá o cavaco, sobretudo caindo eu com uns cobres, que ele anda seco. Mas assim que meter-se na herança, é capaz de vir com histórias de que são falsas as letras, que ele as aceitou quando já estava declarado pródigo, e outras petas. 

- Desculpe-me, Sr. visconde, não posso me encarregar destes negócios, disse Ricardo com fria gravidade, carregando sobre a última palavra. 

- Por que então? 

- Permita-me que reserve para mim os motivos de meu procedimento, tornou Ricardo no mesmo tom. 

- Ora já sei! É sobre isso mesmo que eu vinha falar-lhe; mas precisava antes de apalpar o terreno... Compreende, heim! 

Foi Ricardo quem dessa vez ficou surpreso do desembaraço do usurário. 

- A coisa está bem encaminhada! Você é um finório! continuou o visconde apertando o joelho de Ricardo. Mas, olho vivo, que anda uma súcia de galfarros à cola da rapariga. Então o Nogueira e o Bastos? Dois velhacos de marca. Deixe-os por minha conta, que os conheço; têm de haver-se com um macaco velho. Lá o Guimarães não mete medo, é um pateta. 

- Explique-se melhor, Sr. visconde, eu não o entendo. 

- Faça-se de inocente! Ah! managão?! Quem não sabe que a rapariga está pelo beiço! Você é um ladrão feliz! 

- De que rapariga me fala o senhor? 

- Ora de quem há de ser senão da Guida, a filha do tratante do Soares? Domingo na Tijuca, todos conheceram como ela se derretia... E tinha razão! Olé se tinha. 

- Não admito gracejos a este respeito, Sr. visconde. 

- E esta! Não costumo gracejar com os negócios. 

- Então é um negócio que o senhor veio propor-me... 

- E que negócio!... Magnífico!... Olhe; um namoro com uma rapariga como a Guida, custa caro! Eu conheço aquela sujeitinha! Está acostumada a atirar fora as notas do banco como se fossem papéis de bala! Além disso há de ser preciso sustentar por muito tempo, um ano seguramente, a tamóia, o que fica um tanto salgadete. 

O visconde hesitou um momento, calculando uma última vez as probabilidades da especulação. Ricardo, mantendo com esforço a calma de um frio desprezo, desviava com desgosto o olhar da fisionomia grosseira e astuta do usurário:

- Pois, meu amigo, eu forneço todo o dinheiro necessário para o nosso negocinho... Já sabe, com a condição de tirar a minha fatia do bolo. Que diz? Vamos ao ajuste; sempre é bom. 

- Creio que terminou a sua proposta? perguntou Ricardo com a voz contida. Cabe-me agora responder.

- Sem dúvida. 

- Não tenho pretensões à filha do Sr. Soares; nem existe entre nós mais do que relações do acaso, que vão como vêm. Enganou-se, pois, Sr. visconde; não é a mim que devia dirigir-se, para a sua especulação. Deu o aljuba um saltinho na cadeira. 

- Ahn! Não quer? Percebo a embroma. Fia-se na rapariga? Olhe lá, não se arrependa... 

- Queira poupar-me à necessidade de dar-lhe a resposta que merecia sua proposição; mas o senhor força-me...

- Isso de mulher, não há que fiar, insistiu o visconde receoso de que lhe escapasse a pechincha. Então aquela que é o diabo de saia, ou o pai, o Soares, que tudo é um. Aposto que já o engazopou... 

Ergueu-se Ricardo afinal ao impulso da indignação que por muito tempo recalcara; abotoou o visconde pela gola do casaco, e arrastou-o até a porta da rua. 

Executada esta expulsão em silêncio, apenas interrompido por algumas interjeições do visconde, Ricardo, vendo que lhe ficara sobre a mesa o chapéu do miserável, atirou-lho do alto da escada. 

Só então reparou ele na presença de Fábio, que se ocultara na janela para deixá-lo passar com o visconde a reboque. 

- Ouviste? 

- Tudo! O sujeito esteve impagável! 

- E sabes quem é o culpado do que acontece? 

- Sou eu, se te parece!... Ora, pois, arranja-me daí já um processo. Servirá para praticares no crime. Código, artigo 264. Mete-me nessa tarrafa policial! Anda; um estelionato, de cumplicidade com o visconde! 

- Não estou de veias para gracejos. Conversemos seriamente, Fábio. Desde ontem que desejo esta ocasião. 

- És difícil de contentar. Queres coisa ainda mais grave do que o Código Criminal e um bom processo de estelionato? Sem atender às facéias do amigo, Ricardo continuou: 

- São estas as conseqüências do passo errado que me obrigaste a dar, indo à casa do Soares. 

- Com esta lógica sou capaz de Ter provar que, se não viesses de São Paulo, não estarias aqui; e portanto o visconde não te pilhava. 

- Se todo o mal recaísse unicamente sobre mim!... Porém a minha pobre irmã Luísa também tem o seu quinhão. Mal sabe ela que as suas meigas saudades andam aqui desfolhadas ao vento do prazer, e quem sabe se já não calcadas aos pés de alguma falsa deidade! 

(continua...)

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