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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Começou então o homúnculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito expressivos, que de tudo estava ciente, participando de todos os projetos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois ofendidos.

Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez ver que Pereira laborava em engano, tão-somente quanto a pessoa.

Com multa propriedade de imitação e perfeita mímica, ora levantando o braço para caracterizar as fisionomias, tão exatamente representou Meyer e Cirino, que o mineiro logo os reconheceu.

—Bem sei, bem sei, Tico, murmurou ele. Você fala do doutor e daquele...

Ai o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de Inocência, indicou que nada tinha ela com o alemão. Ficaram pasmos os dois.

— Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cirino, meu Deus?!

—Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas vezes a cabeça.

—Qual! protestou Pereira, o doutor?...

Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.

Gesticulou como um possesso; correu para fora de casa; denunciou as entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cirino; mostrou o lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o grito que dera; lembrou a cena da madrugada, findando com aqueles tiros; exprimiu-se por sinais tão adequados e tais movimentos de cabeça e fisionomia, que toda a dúvida desapareceu do espírito de Pereira.

Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua cólera subiu a um grau de violência inexprimível.

Esteve a cair fulminado.

—Infame, murmurou roxo de ira, tu me pagas!

—Infame... Infame!

Depois voltando-se para Manecão:

—Dê-me esse... eu o quero...

Abanou o capataz a cabeça.

— Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o senhor... e fez de mim chacota.

—Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje... parta já. E quando voltar, diga só: estamos desagravados... Inocência será sua...

Parando um pouco. concluiu tomado de enleio:

—Se quiser aceitá-la.

—Havemos de conversar.

Teve o mineiro uma explosão de desespero

—Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nos? Um homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu teto, bebe da água que carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me partam!... Não quero mais saber que esse miserável respire o ar que respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como ele!... Hei de cuspir-lhes na cara... Pinchá-los fora como cães que são!... Ladrões! .. Eu... Interrompeu-o Manecão com calma:

—Não faça nada... E preciso que ninguém saiba do que se está passando aqui... Ninguém!... percebe?

—E então?

—Faça de conta que recebeu uma letra de Sant'Ana. O cujo foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?

Pereira fez sinal de tudo compreender.

—Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.

—Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta cabeça corno um cortiço de guaxupés... E um zumbido!... Mostre que já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atados a você... Tudo lhe pertence... Enquanto a honra do mineiro não for desafrontada... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha! .

—Coragem, coragem, aconselhou o outro.

—Se este socavão não chegar para esconder minhas misérias... mudo-me para as bandas do Apa... Parece que vou morrer... sinto fogo dentro da cabeça...

E, vencido pela emoção, encostou a testa à mesa, deixando cair os braços.

Bateu-lhe Manecão no ombro.

—Que é isso, meu pai? animo! De que serve ser homem?... Olhe cara a cara a sua desgraça... que também é minha. Não o consola a certeza de que aquele homem brevemente...

—Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se retirara, mas que faremos deste tico de gente, que sabe tudo ?

—Não o deixe sair mais de casa.

—Qual!... É que nem muçu. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú e até no Corredor.

—Pois bem... Ficará sabendo que... um só piscar de olho... pode sair-lhe caro... muito caro.

—Então implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquela gente vá... Se eu pudesse ainda dormir... esquecia um pouco, mas .

Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.

Incontinente foi Manecão despachar os camaradas de Cirino, os quais, pouco depois saiam com destino à casa do Leal.

Em seguida, montando o tropeiro a cavalo, partiu em carreira desapoderada para a Vila de Sant'Ana do Paranaíba, onde chegou alta noite.

CAPÍTULO XXX

DESENLACE

Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vide. É aqui que devo tombar. É aqui que ela há de acabar.

(Shakespeare, Henrique V, Ato 1)

Eis que vi um cavalo amarelo, e quem o montava, era a morte.

(São João Apocalipse)

Durante três dias, foi Cirino rigorosamente espreitado pelo noivo de Inocência. Com a cautela própria dos seus hábitos esquivos, soube Manecão acompanhar-lhe todos os passos sem ser pressentido.

(continua...)

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