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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Faz muito bem. Não é possível que ela esteja a sofrer por mais tempo esse cruel tratamento, em que não posso consentir enquanto estiver nesta casa. Não foi para esse fim que sua defunta senhora criou-a com tanto mimo, e deu-lhe tão boa educação. Isaura, apesar de tua descaída, quero-te bem ainda, e não tolerarei mais semelhante escândalo. Vamos dar-te ao mesmo tempo a liberdade e um excelente marido.

— Excelente!... meu Deus! Que escárnio! — refletiu Isaura.

— Belchior é muito bom moço, inofensivo, pacífico e trabalhador; creio que hás de dar-te otimamente com ele. Demais para obter a liberdade nenhum sacrifício é grande, não é assim, Isaura?

— Sem dúvida, minha senhora; já que assim o quer, sujeito-me humildemente ao meu destino. Arrancam-me da masmorra — (continuou Isaura em seu pensamento), — para levarem-me ao suplício.

— Muito bem, Isaura; mostras que és uma rapariga dócil e de juízo.

André, vai chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o gosto de anunciar-lhe que vai enfim realizar o seu sonho querido de tantos anos. Creio que o senhor Miguel também não ficará mal satisfeito com o arranjo que damos a sua filha; sempre é alguma coisa sair do cativeiro e casar-se com um homem branco e livre. Antes assim do que fugir, e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto desejo o teu bem, quero ser madrinha neste casamento, que vai pôr termo a teus sofrimentos, e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento, que há muito tempo dela andavam arredados.

Ditas estas palavras, Malvina abriu um cofre de jóias, que estava sobre uma mesa, e dele tirou um rico colar de ouro, que foi colocar no pescoço de Isaura.

— Aceita isto, Isaura, — disse ela, — é o meu presente de noivado.

— Agradecida, minha boa senhora, — disse Isaura, e acrescentou em seu coração: — é a corda, que o carrasco vem lançar ao pescoço da vítima.

Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por André.

— Eis-me aqui, senhora minha, — diz ele, — o que deseja deste seu menor criado?

— Dar-lhe os parabéns, senhor Belchior, — respondeu Malvina.

— Parabéns!... mas eu não sei por quê!...

— Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vai ser livre, e... adivinhe o resto.

— E vai-se embora decerto... oh!... é uma desgraça!

— Já vejo que não é bom adivinhador. Isaura está resolvida a casar-se com o senhor.

— Que me diz, patroa!... perdão, não posso acreditar. Vossemecê está zombando comigo.

— Digo-lhe a verdade; ai está ela, que não me deixará mentir.

— Apronte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que amanhã mesmo há de se fazer o casamento aqui mesmo em casa.

— Oh! senhora minha! divindade da Terra! — exclamou Belchior indo-se atirar aos pés de Malvina e procurando beijá-los, — deixe-me beijar esses pés...

— Levante-se daí, senhor Belchior; não é a mim, é a Isaura que deve agradecer.

Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.

— Oh! princesa de meu coração! — exclamou ele atracando-se ás pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quase foi à terra com a força daquela furiosa e entusiástica atracação. Era para fazer rebentar de riso, a quem não soubesse quanto havia de trágico e doloroso no fundo daquela ímpia e ignóbil farsa.

— Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teus pés este teu menor cativo, Belchior!... olha para ele, para este teu adorador, que hoje é mais do que um príncipe... dá cá essa mãozinha, deixa-me comê-la de beijos...

— Meu Deus! que farsa hedionda obrigam-me a representar! -murmurou Isaura consigo, e voltando a face abandonou a mão a Belchior, que colando a ela a boca no transporte do entusiasmo, desatou a chorar como uma criança.

— Olha que palerma! — disse André para Rosa, que observava de parte aquela cena tragicômica. — E venham cá dizer-me que não é o mel para a boca do asno!

— Eu antes queria que me casassem com um jacaré.

— Este meu sinhô moço tem idéias do diabo! quem havia de lembrar-se de casar uma sereia com um boto?

— Invejoso!... você é que queria ser o boto, por isso está aí a torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era que o nhonhô te desse de dote à Isaura.

— Isso queria eu!... aposto que Isaura não vai casar de livre vontade! e depois... nós cá nos arranjaríamos... havia de enfiar o boto pelo fundo de uma agulha.

— Sai daí, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...

— Não te arrebites, minha Rosa; já agora não há remédio senão contentarme contigo, que em fim de contas também és bem bonitinha, e... tudo que cai no jequi, é peixe.

— É baixo!... agüente a sua tábua, e vá consolar-se com quem quiser, menos comigo.

CAPÍTULO XXI

— Então, Leôncio, — dizia Malvina a seu esposo no outro dia pela manhã, — deste as providências necessárias para arranjar-se esse negócio hoje mesmo?

— Creio que é a centésima vez que me fazes essa pergunta, Malvina, — respondeu Leôncio sorrindo-se. — Todavia pela centésima vez te responderei também, que as providências que estão da minha parte, já foram todas dadas. Ontem mesmo mandei um próprio a Campos, e não tardarão a chegar por aí o tabelião para passar escritura de liberdade a Isaura com toda a solenidade, e também o padre para celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de estar todos prontos; e tu, Malvina, manda já preparar a capela para se efetuar esse casamento, que pareces desejar com mais ardor, — acrescentou sorrindo, - do que desejaste o teu próprio.

(continua...)

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