Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Jorge de Almeida, proseguio Fábio, deve dentro de dous mezes casar-se com a filha de um rico capitalista desta cidade, e logo depois partir com a sua noiva para a Europa.
— Fábio! Fábio ! bradou Juliana com desespero ; dize-me que estás mentindo !...
— Não, respondeu Fábio ; não menti; affirmote que é exacto tudo quanto acabaste de ouvir.
A moça ajoelhou-se aos pés de Fábio, levantou para elle mãos supplicantes, e disse chorando :
— Oh!... assegura-me que mentiste!... é indispensavel que tenhas mentido, Fábio!...
essas cartas que me apresentaste não são verdadeiras ; este casamento de que me fallas é uma falsidade.... Oh!.... dize-me que estás mentindo, Fábio!...
— Juliana, eu juro pela minha honra e pela salvação das almas de meu pai e de minha mãi, que te disse a verdade e somente a verdade.
A misera jovem fitou um olhar desvairado no rosto de Fábio.
— E agradeço a Deus, continuou o mancebo, agradeço a Deus o ter-me concedido a gloria de descobrir tudo isso ainda a tempo de salvar-te.
— É tarde ! murmurou Juliana, mas em voz tão baixa que Fábio não poude ouvil-a; é tarde ! agora é muito tarde ! E cahio desmaiada.
XXII.
Juliana estava arrastando longos dias e tormentosas noites de arrependimento e de remorso.
Toda a esperança de felicidade e de futuro se apagara de uma vez para sempre no coração da infeliz moça.
As lagrimas que ella chorava escondida começavão a abrir um sulco em suas faces mimosas e bellas.
Seus labios não sorrião mais senão com um fingimento que a ninguém illudia.
Juliana sentia que era desgraçada, e que a sua desgraça era irremediavel.
Fábio tinha-lhe dito a verdade.
Depois da impressão terrivel que produzira em Juliana a noticia do proximo casamento de Jorge de Almeida, e a demonstração de falsidade das cartas que este apresentara em nome de seu pai, a moça concebera uma duvida consoladora, e abraçára-se com a idéa de que Fábio, inspirado por um vil e indigno ciúme, procurava enganala.
Em breve porém teve Juliana de reconhecer que fazia uma nova injustiça ao seu pobre mas honesto e extremoso amante,
Jorge de Almeida appareceu aos olhos da sua noiva, e delia ouvindo tristissimas queixas de mistura com a relação da sua perfídia e do seu crime, jurou que era victima de uma negra calumnia, e sahio precipitado, asseverando que voltaria antes de duas horas com as provas irrecusaveis de sua innocencia.
E, Juliana esperou duas horas, e depois dous dias inteiros inutilmente, porque Jorge de Almeida não voltou mais, e só em logar delle chegou no terceiro dia o desengano.
Jorge de Almeida escreveu uma carta a Cândida, mostrando-se resentido das suspeitas injuriosas de Juliana, e retirando por isso a palavra de casamento que lhe tinha dado.
O seductor não ousou escrever uma unica palavra a sua victima.
A despedida e desenganos erão feitos com selvatica rudeza; mostravão-se porém dignos da moralidade do algoz.
Cândida, acabando de ter a insolente carta, levantou colerica os olhos para o céo e imprecou vingança.
Juliana, que ouvira a leitura daquella horrivel
sentença que a condemnava, curvou a cabeça, e embebeu os seus olhos na terra, como se quizesse esconder á sua vergonha.
— Levanta a cabeça, minha filha, disse emfim Cândida, concentrando a sua cólera; anima-te, consola-te : esse miseravel não te merecia : levanta a cabeça!
Juliana ergueu a fronte, e olhou tristemente para sua mãi, sem lhe dizer palavra; mas sua consciência lhe estava respondendo que não podia mais levantar a cabeça diante de Jorge de Almeida.
XXIII.
O projecto de casamento de Jorge de Almeida com a bella Juliana fora por alguns amigos sabido ; a noticia do triste desenlace da intriga infame forjada por um vil seductor correu logo de bocca em bocca, soffrendo muito por isso a reputação da victima.
As murmurações e as injurias levantadas pelas mais terríveis suspeitas marcavão já com o sello da reprovação a infeliz moça.
Cândida e Fábio comprehendêrão que era indispensavel que Juliana tornasse a apparecer nas sociedades e que assoberbasse a horrivel tormenta que contra ella se desfechava.
A situação era realmente tão dolorosa e difficil como positiva e irrecusavel.
Voltando ás assembléas que costumava frequentar, Juliana protestava ao menos com a sua presença e com a sua placidez contra as indignidades que a seu respeito erão espalhadas, e, no caso contrario, fugindo ao mundo elegante
e ás festas, e escondendo-se em um retiro, procurando um esquecimento que não estava nos seus habitos, deixava em pé e vigorando as suspeitas que lhe despedaçavão a coroa e o véo branco da pureza.
Juliana attendeu aos conselhos de Fábio e de sua mãi, e voltando aos bailes, ás festas e aos theatros, abraçou-se com a mentira.
Com a mentira, sim ; porque erão mentiras o brilho do seus olhos, o sorriso dos seus labios, a alegria do seu rosto e o encanto da sua conversação.
A verdade guardava-a ella no seio : a verdade era o
arrependimento, era o remorso.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.