Por José de Alencar (1872)
O dinheiro, esse azoto social, sem o qual não se vive nas cidades: eis a grande questão, que se debate nas ruas e praças, desde o mendigo até o rei, um esmolando os magros vinténs, o outro distribuindo os milhões nacionais. Era essa também a preocupação de Ricardo naquele momento. As circunstâncias do mancebo de dia em dia se tornavam mais estreitas.
Morava ele com a mãe de Fábio, que o agasalhara como o futuro cunhado de seu filho; já essa posição de hóspede o constrangia, apesar dos contínuos protestos da boa senhora, a repetir todos os dias, que a despesa de casa não aumentara um real por sua causa, e que longe de incomodar-se, tinha ela ao contrário o maior prazer com tão agradável companhia.
Ainda quando assim fosse, e Ricardo procurava tornar-se o menos pesado, acanhava-o essa dependência de alheio favor, e repugnava-lhe viver a expensas de outrem, apesar da amizade de Fábio e dos laços que breve deviam ligar as duas famílias.
Mas o que exacerbara naquele dia estas nobres suscetibilidades de Ricardo, era a posição especial em que se achava com relação a Fábio, desde o último domingo.
Já anteriormente não gostara do desembaraço com que o noivo de sua irmã se portara em casa do Soares; disfarçara contudo, fazendo-lhe apenas ao de leve alguns reparos, a que o outro não deu importância.
Foi porém no dia do passeio à “Vista Chinesa” que Ricardo se recolheu contrariado ao último ponto, não só pela semcerimônia com que se intrometera o Fábio na roda dos convidados, filando o cavalo do Lima, como pelo namoro escandaloso que travara com D. Guilhermina.
Sentia Ricardo a necessidade de ter com o amigo uma prática séria, na esperança de coibir a tempo aqueles ímpetos e evitar futuros dissabores, senão verdadeiros desregramentos, que trariam a infelicidade de duas famílias.
Fábio porém evitava as ocasiões em que o assunto pudera muito naturalmente vir a talho, trazido pela divagação de uma palestra entre amigos. Um emprazamento emprestaria à conversa ares de solenidade que seriam de mau prenúncio. Podia o noivo de Luísa enxergar nas palavras do amigo uma exprobação de quem já se arrogava autoridade de chefe de família; e irritando-se, persistir no caminho que levava.
Razão tinha Ricardo para recear esse resultado; pois desde a primeira visita à casa do Soares sentia que o espírito de Fábio, arrastado pela sedução daquela sociedade, subtraía-se à sua influência.
O menor arrefecimento nas relações dos dois moços teria conseqüências graves, pois determinaria a retirada de Ricardo para São Paulo, desvanecendo a esperança por tanto tempo afagada de fazer carreira na corte, e preparando para Luísa uma decepção cruel.
Tais eram os pensamentos que nessa manhã carregavam a fronte do jovem advogado de uma nuvem de tristeza. Eram dez horas e meia, e Fábio ainda não chegara ao escritório. A sua mesa, colocada do outro lado da sala, estava intacta como ele a deixara sábado. Nos dois cantos viam-se as rimas de autos velhos, que o moço pedira aos escrivães a pretexto de estudar certas questões; mas realmente para dar à sua banca o aspecto forense. Esses cartapácios faziam as vezes de uma tabuleta.
- É capaz de não vir hoje, como já não veio ontem, disse consigo Ricardo.
E ia voltar à tradução, quando ouviu passos na escada; momentos depois na porta de comunicação entre os dois repartimentos surdiu a figurinha encarquilhada do Visconde de Aljuba:
- Pode-se entrar?
- Oh! Sr. visconde!... Faça favor.
Ricardo, surpreso da visita, ergueu-se para oferecer ao Aljuba uma cadeira a seu lado.
- Custou-me a dar com o escritório. Também foi procurar uma rua tão esquisita. Nada; isto não serve. É preciso arranjarmos quanto antes uma sala aí na rua Direita, ou mesmo na da Quitanda...
- Ainda não é para mim, e quem sabe se o será algum dia.
- Ora qual! disse o visconde com seu riso fagoteado e batendo no ombro do moço. Você breve está aí recheado! Veja o que lhe digo.
Uma das particularidades do visconde era familiarizar-se com as pessoas que tratava a ponto de chamá-las por você desde o primeiro dia. Entendia que o dinheiro lhe dava essa liberdade, como lhe dera a excelência com que o abarrotavam a cada canto.
Ricardo não gostou do modo achavascado; mas disfarçou.
- Dito por V. Exª., é um bom agouro.
- Oh! Eu cá nunca me engano. Sujeito que tem de ser apatacado, eu o descubro logo pela pinta. Olhe o Soares. Foi vêlo, e conhecer logo que aquele patife acabava podre de rico.
- Então acha-me com jeito de homem apatacado?
- Tem todos os sinais.
- Quais são eles?
- Eu cá sei. Mas vamos ao que serve. Para começar, temos aqui uns dois negocinhos... Meu procurador há de passar por cá depois. Trouxe os papéis para explicar-lhe bem a coisa.
Tirou o visconde do bolso um maço de papéis preso por um elástico, e pô-lo na ponta da mesa.
- Este é uma escritura de hipoteca dum sujeito que me deve seis contos. A casa há de valer uns vinte; ainda tem uns escravinhos; bem tangida a embroma, como os senhores sabem fazer, podemos passar a mão em tudo.
- Engana-se; eu não sei fazer desse milagres, disse Ricardo, já não podendo conter o sarcasmo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.