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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Pode ser; nunca ouví falar dele. 

— Porque há três anos que o primo Fragoso lá não vai; o Recife enfeitiçou-o. 

— Mas em suma, senhores, atalhou o Ourém curioso; quem é êsse ilustre e famoso 

Dourado, do qual já que o nosso Camões não teve dele notícia, farei eu 

 

«Que se espalhe e se cante no universo, 

Se tão sublime preço cabe em verso.» 

 

O capitão-mór voltou-se para o padre Teles, que pelo jeito acumulava ao cargo de capelão o de cronista: 

— Padre Teles, conte aos senhores a história do Dourado. 

— O Dourado é um boi… ia começando padre Teles. 

— Um boi? atalhou o Ourém desconsertado. 

— Eu também pensei que era algum valentão, observou o João Correia que partilhara da 

surpresa. 

— E eu tinha por certo que era o rei daquele célebre encantado, de que tanto se fala, e que debalde procuraram os descobridores, inclusive o nosso Pero Coelho. Mas talvez que o El-Dourado virasse boi! tornou Orém. 

— Boi, sim! afirmou o capitão-mór por sua vez admirado da estranheza do licenciado. Então que pensavam os senhores? É um boi destemido e que tem zombado dos melhores vaqueiros dêste sertão. Há sete anos que êle apareceu, e até hoje ainda não houve quem se gabasse de pôr a mão no Dourado. 

O capitão-mór falou com ufania, como se as proezas do animal se contassem entre os brasões de sua fidalguia sertaneja. Nisso mostrava bem que era cearense da gema. 

— Nem o Louredo, nosso vaqueiro, pai do Arnaldo… Onde está êle? 

O fazendeiro voltara-se para procurar com a vista ao rapaz; mas não o encontrou. 

— Nem o Louredo, que foi o mais afamado campeador de todo êste sertão, pôde com o Dourado; e não foi por falta de vontade, que uma vez andou-lhe uma semana inteira na pista. Mas também tal mêdo tomou-lhe o boi, que levou um sumiço grande… Há bem quatro anos que não se tinha notícia dele. Não é isso, padre Teles? 

— Há de fazer pela páscoa, sr. capitão-mór, respondeu o reverendo. 

— Já vejo que o Dourado é um herói, um touro de Maraton, que ainda não encontrou o seu Teseu. 

— Todavia não é para comparar-se com o Rabicho da Geralda! observou o Daniel Ferro.

— Temos outro barão assinalado? acudiu o Ourém. 

— Dêste, já eu tinha notícia. Há uma antiga de vaqueiros, acudiu João Correia. 

— Ainda esta noite os rapazes a cantaram lá no Bargado, tornou Daniel Ferro, que entoou a 

primeira quadra da trova. 

 

Eu fui o liso Rabicho 

Boi de fama conhecido 

Nunca houve neste mundo

Outro boi tão destemido. 

 

Padre Teles, que fôra atalhado na sua crônica do Dourado, aproveitou o ensêjo para introduzir também a sua quadra: 

 

Minha fama era tão grande 

Que enchia todo o sertão; 

Vinham de longe vaqueiros

P’ra me botarem no chão. 

 

— Já vejo que êste foi uma espécie de Minotauro, pois tinha de homem a fala, observou o Ourém que ria-se daqueles entusiasmos sertanejos. 

O capitão-mór ordenou silêncio com um gesto para opor a seguinte contestação: 

— O Rabicho da Geralda, sr. Daniel Ferro, foi sem dúvida um corredor de fama. Nós ainda conhecemos o José Lopes, vaqueiro da viúva, que nos contou as proezas de seu boi. Mas nosso parecer é que não chegava ao Dourado. 

— Veja o sr. capitão-mór queo Rabicho zombou dos melhores catingueiros de todos êstes sertões, até do Inácio Gomes que ainda hoje tem nome na ribeira do São Francisco. 

— Não era nada à vista do Louredo, nosso vaqueiro; pode acreditar, que é a verdade. 

— O Rabicho andou onze anos fugido, sem que se tivesse notícia dele; e o Dourado, como o sr. capitão-mór mesmo disse, só há sete anos é que apareceu. 

— Onze anos? interrogou o fazendeiro: 

— A cantiga diz: 

 

Onze anos eu andei 

Pelas caa ingas fugido; 

Minha senhora Geralda 

Já me tinha por perdido. 

 

O argumento tirado da cantiga, embaraçou o capitão-mór, que voltou-se para o ajudante:

— Que lhe parece, Agrela? O ajudante acudiu pronto. 

— É certo, senhor alferes, que o Dourado, como disse muito bem o sr. capitão-mór, só há sete anos apareceu; mas ninguém sabe quantos anos andou sumido pelas serras, sem que se soubesse dele. Ora, sendo um boi ainda novo, como atestam quantos o conhecem, não é muito que viva ainda uns vinte anos e mais. 

— Então que diz a isto? perguntou o capitão-mór triunfante com a argumentação de seu ajudante. Vinte anos para onze!… 

— Ainda não me rendo, tornou o Daniel Ferro. Se o Dourado pode durar ainda vinte anos, o que não nego, o Rabicho com certeza chegaria aos trinta, se não viesse aquela sêca tão grande. Foi preciso ela para acabar com aquele boi. 

O capitão-mór outra vez embaraçado volveu o olhar ao ajudante que não demorou a réplica. 

— Aí está a diferença. O Rabicho acabou com a sêca, e o Dourado escapou dela, como escapará de todas as outras por maiores que sejam. 

(continua...)

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