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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Estou aqui, papai, disse Inocência em voz alta e um pouco trêmula.

Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado. Julgou dever dizer alguma coisa.

—Até que afinal a dona saiu do ninho... E que hoje o dia está de sol, não é?

A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistência que o fez abaixar os olhos.

—Ela esteve doente, desculpou Pereira.

E voltando-se para a filha:

—Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você em negócios particulares.

— Bem percebe ela, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo para risos.

Inocência replicou em tom incisivo:

—Não percebo.

—Está se... fazendo de... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já... se esqueceu... do que tratei com seu pai?... Parece que comeu muito queijo.

Com a mesma entoação e cortando-lhe a palavra retorquiu ela: —Não me lembro.

Houve uns minutos de silencio.

Acumulava-se a cólera no peito de Pereira; seus olhares irados Iam rápidos de Manecão à imprudente filha.

—Pois, se você não se lembra, disse ele de repente, eu cá não sou tão esquecido,

—Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se à beira da mesa para ficar mais chegado à moça, faz-se de enjoada a toa... o nosso casamento...

—Seu casamento? perguntou Inocência fingindo espanto.

—Sim...

—Mas com quem?

—Ué, exclamou Manecão, com quem há de ser... Com mecê...

Pereira fora-se tornando lívido de raiva.

O anão acompanhava toda essa cena com muita atenção Cintilavam seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo raquítico estremecia de impaciência e susto.

A resposta de Manecão, levantou-se rápida Inocência e, como que acastelando-se por detrás da sua cadeira, exclamou:

—Eu? .. Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero... não quero... Nunca... Nunca...

Manecão bambaleou.

Pereira quis por-se de pé, mas por instantes não pôde.

—Está doida, balbuciou, está doida.

E, segurando-se à mesa, ergueu-se terrível.

—Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva. —Não, disse a moça com desespero, quero antes...

Não pode terminar.

O pai agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.

Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe, de encontro à parede.

Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra amparando o peito com as mãos. Mortal palidez cobria-lhe as faces e de ligeira brecha que se abrira na testa deslizavam gotas de sangue Ia Pereira precipitar-se sobre ela como para esmagá-la debaixo dos pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, ocultou as lágrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.

Manecão não fizera o menor gesto. Extático assistira a toda essa dolorosa cena. A fisionomia estava impassível, mas, por dentro, seu coração era um vulcão.

Lúgubre silencio reinou por algum tempo naquela sala.

O anão chegara-se a Inocência, tomando-lhe uma das mãos: depois, a fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por sinais a necessidade de retirar-se.

A custo pôde ela seguir aquele conselho. Quase de rastos e ajudada por Tico é que saiu da presença do pai e de seu perseguidor.

Nenhum movimento fizeram os dois para retê-la. Calados como estavam, deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela grandeza daquela desgraça.

Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.

Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito. Afinal, exclamou:

—É preciso que eu desembuche o que tenho cá dentro, senão estouro .. Quem for homem que seja... Manecão, Nocência para nós está perdida... para nós, porque um homem lhe deitou um mau-olhado . . .

—E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.

—Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo meti o diabo em casa... Estive alerta... mas o mal já caminhava.

—Mas, quem é ele? tornou a perguntar com impaciência Manecão.

—Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o sossego que Deus me deu...

Contou então às pressas Pereira todas as tentativas do alemão Meyer, tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim supunha, já haviam produzido os seus danosos frutos.

—Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquele cachorro que tudo era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.

—Para quê? interrompeu Manecão.

—Respondam os urubus...

—Para matá-lo? —Sim...

Houve breve pausa.

—Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe há de dar cabo da pele.

—Por quê?

—É negócio que me pertence. O senhor é pai.,. eu porém sou noivo.

Mangaram com os dois... mas o alamão fica no chão.

—Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje... agora, se possível for. Cão danado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva. Vá depressa e venha contar-me que aquele homem já não existe... Como velho, como pai... abençôo a mão que o há de matar. Cala o sangue que correr... sobre os meus cabelos brancos . . .

Havia toda esta conversa sido atentamente ouvida por alguém: o anão Tico.

Viera a pouco e pouco aproximando-se da mesa com os olhos a fulgir. De repente, colocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.

—Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.

(continua...)

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