Por Franklin Távora (1876)
Faltava porém a esse homem a prontidão nos movimentos físicos a que por inúmeras vezes devera sua salvação. Uma corda de couro cru prendia-lhe em diferentes anéis os braços, poucos dias antes prestes a levar a destruição e a morte a afastadas regiões.
Poucos foram os que não tiveram os olhos arrasados de lágrimas quando viram escravo de uma cadeia ignóbil o infeliz moço, que, ainda ontem, tinha a imensidão a seu dispor, e era livre como as feras no deserto. A presença do infeliz despertara a piedade de quase todos os espectadores.
Naquele tempo a cadeia de Goiana não tinha a solidez da que se vê presentemente na rua Direita. Era uma casa de um só pavimento a que faltavam quase todas as condições de segurança e higiene que as penitenciárias modernas reúnem.
Viam-se em suas janelas não grades, mas varões de madeira. Muitos criminosos conseguiram evadir-se quebrando alguns desses varões. Nem é de admirar que tais fossem as condições da cadeia pública daquela vila em 1776, se ainda hoje, com exceção das capitais e de algumas cidades interiores de mais nota, se apontam localidades importantes e até sedes de comarcas que não têm melhores prisões que as do tempo colonial.
Não só pela manifesta incapacidade da prisão pública, mas também por não confiar de ninguém a guarda de um réu dos quilates do Cabeleira resolveu Cristóvão de Holanda tê-lo em sua própria casa durante o tempo que fosse necessário para os preparativos da jornada ao Recife.
As primeiras autoridades de Goiana reuniram-se à noite em casado capitão-mor, que a tuba da fama começou a apregoar como o salvador da província.
Enquanto essas autoridades praticavam da questão do dia — a prisão do malfeitor, este, no pavimento inferior, de que uma parte lhe fora dada por menagem, entregava-se a fundas cogitações.
Um soldado, que dele se compadecera, o tinha persuadido a ir passar alguns momentos no quintal, a fim de se divertir de suas idéias tristes. O Cabeleira sentara-se a um canto, à sombra de uma cajazeira.
Em qualquer parte para onde volveu os olhos só lhe apareceram guardas que não perdiam um só dos seus movimentos. Ergueu os olhos acima dos altos muros que o cercavam, e deu com a vista nas belas estrelas que tinham sido suas companheiras no deserto. Aqueles astros saudosos, guias leais e constantes do filho da liberdade, não alumiavam agora nesse filho senão o escravo da justiça que qualquer criança poderia impunemente insultar.
Lembrou-se de Luísa, cujo cadáver não lhe havia permitido dar à sepultura o instinto da própria conservação; o medo irresistível da morte o impelira para o seio da floresta antes que ele houvesse cumprido este piedoso dever.
— Ah ! Luisinha ! — pensou ele. — Se eu tinha de cair alguns dias depois no poder da justiça, por que fugi então sem ter primeiro posto teu corpo ao abrigo dos urubus, ou dos cães de caça ? Ah ! meu amor, perdoa minha crueldade, perdoa minha ingratidão.
As lágrimas saltaram-lhe dos olhos em impetuosa torrente.
— De que choras, Cabeleira ? — perguntou-lhe o soldado que dele se mostrara compassivo. —Estás com medo da morte ?
— Não, não tenho medo de morrer — disse ele. — Estou chorando de me haver lembrado da única mulher, a quem, depois de minha mãe, quis bem nesta vida.
— Qual mulher? Será a que deixaste morta junto das cabeceiras do rio ?
— Essa mesma. Você a viu ?
— Sim, eu a vi. Mas que bem poderias querer a ela, se foste tu próprio, Cabeleira, que a mataste ?
— Não, eu não a matei; ela morreu, ela mesma, quando se considerava feliz comigo, e quando eu via nela meu maior prazer, minha maior dita. Ah, Luisinha, tu bem sabes que eu te queria muito bem, muito ! Que pena tenho eu quando considero que te perdi para sempre, que te deixei no deserto, que os carcarás furaram teus olhos, que os urubus despedaçaram tuas carnes, e que os anus, pretos como meu coração, esvoaçaram por cima de teus ossos !
Os soluços embargaram a voz do desgraçado.
— Se é por isso, não chores, Cabeleira. O corpo de Luisinha não ficou às aves nem aos animais do mato.
— Não ficou ?
— Eu o enterrei com minhas próprias mãos.
— Você ?
— Eu e mais outro companheiro.
O bandido correu ao soldado para o apertar em seus braços em sinal de reconhecimento. Mas a corda que o prendia pelos lagartos tolheu que ele lhe desse esta demonstração.
— Não tem que me agradecer — disse o miliciano. — Eu vi Luisinha menina. Você não me conhece, mas eu também o vi pequeno; e se sua prisão estivesse em minhas mãos, nunca ela se teria feito.
O soldado afastou-se do Cabeleira para que este não lhe visse as lágrimas que de quatro em quatro estavam banhando suas faces.
— Não se afaste, camarada — disse o prisioneiro. — Tenho certeza de que você não me quer mal, e por isso quero pedir-lhe um favor. Não sei como poderei passar esta noite com a tristeza que tenho. Poderá você arranjar-me uma viola ?
Pouco depois ignotos sons, que estão acima do maior elogio, levaram melancolia e saudade ao coração de todo aquele de quem se fizeram ouvir.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.