Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Juliana, não te esfrie esse entusiasmo pela solidão : dentro em pouco serás minha esposa: tu és o encanto das mais brilhantes sociedades, és a flor mais bella de jardim ele gante da nossa capital; eu não ousarei roubar- te á admiração e ao culto das nossas assem-bléas, não te privarei das festas em que és sempre a rainha, não; mas hei de pedir-te algumas vezes o sacrifício de breves dias em que eu te leve a uma solidão propicia e deleitosa, em cujo seio eu te adore, e ninguém perturbe o meu culto, e ardente e apaixonado eu me farte de beijar os teus olhos que me tornarão escravo, e o teu peito, onde tenho meu thronode amor !...
Jorge fallava com vehemencia calculada ; alguma cousa porém devia preoccupal-o não pouco; porque uma ou outra vez sua cabeça se voltava de leve, e o seu ouvido como que procurava um som estranho e longinquo.
Juliana muito enlevada para poder notar naquelles ligeiros signaes de uma impaciencia inexplicavel, respondeu ao seu noivo :
— Jorge ! d'ora avante eu quero ser bella somente para ti, quero a solidão comtigo não para um dia, mas para sempre; porque a
minha vida, o meu futuro, e a minha felicidade dependem só e exclusivamente do teu amor !
— Juliana!... exclamou o mancebo com paixão e apertando entre as suas uma das mãos da donzella; Juliana!... minha Juliana !...
A moça não retirou a mão que o mancebo apertava, e nesse momento soou não muito longe um canto que pouco a pouco veio-se approximando.
Um sorriso quasi imperceptivel passou pelos labios de Jorge de Almeida.
XX.
A voz que cantava era de homem, suave porém e melodiosa, tão cheia de sentimento que passava dos ouvidos ao coração de quem a escutava.
E o canto, quebrando o silencio das deshoras, tinha alguma cousa de irresistivel encantamento.
Juliana disse :
— Alguém passa cantando, Jorge !
E Jorge respondeu apertando a mão da donzella:
— Escutemos, Juliana.
A voz dizia assim no seu canto :
Esta lua tão formosa,
Esta noite deleitosa,
Este céo de lactea côr,
Este silencio profundo,
Este repouso do mundo,
É tudo encanto de amor.
O canto parou por momentos.
— Como é bello este canto ! disse Juliana suspirando.
— É porque exprime os puros sentimentos do coração, respondeu Jorge.
E o mancebo levou aos labios a mão que apertava, e beijou-a muitas vezes.
A voz continuou a cantar com dobrada suavidade:
Emquanto dura este enleio,
Triumphão de um vão receio Os que se amão cora ardor, Vencem do pejo os rigores, E vão no meio das flores
Trocar protestos de amor.
— Juliana... minha noiva ! exclamou Jorge.
Juliano não respondeu, antes procurou afastarse do apaixonado mancebo, que a reteve junto de si, segurando-a pela mão que continuava a beijar, e abraçando-a docemente pela cintura, que o braço atrevido não abandonou mais.
O canto ouvio-se ainda:
A lua é discreta e nobre,
E da noite o manto cobre
Beijo roubado ao pudor ;
As flores o beijo ouvirão,
As auras d'elle sorrirão,
Mas ganhou um beijo amor.
O canto cessou, e ao mesmo tempo Jorge do Almeida abraçou ainda mais ternamente Juliana, e ousou depor nos labios da donzellaum beijo ardente e voluptuoso.
XXI.
Erão onze horas da manhã.
Juliana estava pallida e melancolica; esforçava-se por encobrir a tristeza que a abatia, mostrava-se por momentos alegre e satisfeita ; mas logo depois cahia em nova e sombria meditação.
Cândida sentada em frente de sua filha observava-a cuidadosa.
Ao meio-dia, recebeu Juliana um bilhete em que Jorge de Almeida lhe repetia os seus juramentos de amor e de constancia.
O bilhete dissipou em parte a melancolia de Juliana.
Cândida retirou-se mais socegada, vendo a filha dirigir-se serena e quasi contente para a sala e dalli sentar-se ao piano.
Mas Juliana tocou apenas durante alguns minutos,porque de súbito seus dedos ficarão immoveis sobre o teclado, e seus olhos afogárão-se em pranto.
Logo depois ouvirão-se os passos de alguém que subia a escada.
Juliana enxugou as lagrimas, e, enfeitando o rosto com um mentiroso sorriso de alegria levantou-se para receber a pessoa qui ia chegar.
Fábio entrou na sala.
— Como vem risonho hoje! disse-lhe Juliana.
— Sim, Juliana, respondeu o mancebo; venho contente e feliz, porque achei um meio seguro para salvar-te do perigo que estavas correndo, — Salvar-me!... exclamou a moça aterrada.
— Eu não me enganei, continuou Fábio; Jorge de Almeida procurava seduzir-te.
— Seduzir-me !
— Juliana, vai buscar as cartas que esse miseravel te entregou, dizendo que erão escriptas por seu pai.
— As cartas ?.,. e para que ?...
— Para demonstrar-te que são falsas.
A moça correu como louca para dentro, e em breve voltou, trazendo as cartas.
Fábio examinou a lettra e repetio com segurança :
— São falsas.
— Oh! é impossível!... bradou a infeliz moça.
Fábio tirou do bolso algumas cartas que trazia, e mostrando as a Juliana, continuou;
— Estas sim são do pai de Jorge ; eu as obtive de um negociante que foi correspondente delle, e que deixou de o ser, aborrecido das exigencias e das indignidades desse mancebo.
Juliana, comparando as cartas, reconheceu á primeira vista a mais completa differença da lettra.
— E não é só isso, Juliana; ha mais alguma cousa.
— Que mais?... que mais'?... perguntou a moça, torcendo com
força as suas mãos delicadas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.