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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Foi assim que êle descobriu a Bonina, e atinou com a razão do sumiço inexplicável da novilha, cujos rasto o Inácio Góis e a sua gente não puderam descobrir. 

Tinha sido uma proeza do Aleixo Vargas, que laçara a novilha no pasto e a levara aos ombros até o curral da fazenda do Bargado. O Marcos Fragoso aplaudira a lembrança; e preparou-se para no dia seguinte conduzir êle mesmo a fugitiva, toda enfeitada de nastros de fitas, e restituí-la à sua gentil senhora. 

A porteira do curral, porém, amanheceu aberta; e não houve mais notícia do animal. Os cães de vigia não tinham latido durante a noite para dar sinal, de modo que não se compreendia como se dera a fuga. O Moirão persignou-se; e assentou para si que alí andavam artes de Arnaldo ou bruxarias, o que vinha a dar no mesmo. 

Quando, pois, três dias antes chegara à Oiticica o convite do capitão Marcos Fragoso para uma montearia, Arnaldo adivinhou que o mancebo desejava, antes de pedir a mão de D. Flor, mostrar ainda uma vez à donzela sua bizarria e captar-lhe a admiração. 

Nessa mesma noite, porém, observou êle uma circunstância que o pôs de sobreaviso. 

Tinha chegado à fazenda do Bargado na véspera um bando de gente armada; vinha dos Inhamuns, donde com certeza a fôra chamar um próprio, que o Arnaldo vira partir oito dias antes. 

Além disso notou o sertanejo nessa e nas seguintes noites uma arrumação e movimento d’armas de toda a casta, que mesmo para aqueles tempos de falta de segurança, eram desusados, e indicavam preparativos de alguma expedição. 

Na véspera tornara êle já noite alta à sua rede na copa do jacarandá, bem convencido de que o Fragoso tramava alguma coisa; e essa convicção ainda o dominava naquele momento. 

Também não lhe escapou a quantidade de vaqueiros e pagens que formavam a comitiva do dono do Bargado; entretanto não era isso que mais o inquietava; porém o receio de um perigo vago e indefinido, que êle sentia agitar-se em tôrno de si, mas que não podia apreender. 

 

III – O Dourado 

 

A cavalgada chegara a uma ligeira eminência donde se dominava toda a planura em tôrno.  

Era daí que melhor podia-se apreciaro aspecto dessa natureza múltipla, que se desdobrava desde a baixa até as serras de Santa Maria, Santa Catarina e do Estêvão, agrupadas ao norte, e da serra do Azul, que aparecia mais longe para as bandas do Aracatí. 

Nos tabuleiros um bando de emas apostavam carreira com os veados campeiros; as raposas davam caça às zabelês; e o tamanduá passeava gravemente hasteando o longo penacho de sua cauda à guisa de bandeira. 

Pelas margens das lagoas os jaburús caminham lentos e taciturnos ou miram-se imóveis nas águas. As garças carmeiam com o bico a alva plumagem; e o maranhão dorme ainda, em pé no meio do brejo, com a cabeça metida embaixo da asa e uma das pernas encolhida. 

Além aparecia ao longe um mar doce. Era o Quixeramobim, que pejado com as chuvas do inverno, transbordara do leito submergindo toda a zona adjacente. No meio dêsse oceano boiava uma coroa de terra, que a torrente impetuosa arrancara da margem, e que deslizava como uma ilha flutuante. 

Uma vaca surpreendida naquela nesga do solo continuava a pastar muito tranquila o capim viçoso, e às vezes fitava admirada a margem, que ia fugindo rapidamente à sua vista. 

A várzea estava coalhada de gado, que no comprido pêlo e no aspecto arisco mostrava ser barbatão. Os touros erguendo a cabeça por cima das franças do panasco, lançavam à comitiva um olhar inquieto. 

— É boi como terra! exclamou o Daniel Ferro com o seu falar sertanejo. 

— Nem porisso, observou Ourém. Pela notícia, esperava outra coisa. Alí haverá quando muito umas cem cabeças. 

— Êsse é o que está no limpo, a descoberto; e o outro? acudiu Agrela? 

— Aonde? 

— Por dentro do capim. Repare quando dá o vento! 

Depois de uma breve pausa, para descanso dos animais, os cavaleiros preparavem-se para começar a montearia. 

Como se tratava principalmente de campear os touros bravos por divertimento, o vaqueiro do Bargado com seus rapazes, deu cêrco à várzea, tangendo o gado para o limpo, a fim de escolherem os cavaleiros os touros que deviam correr apostados entre si, como era costume nessa caçada original. 

Estava o capitão-mór e seus companheiros de observação, quando viram à desfilada o José Bernardo. 

— Lá está o Dourado, sr. capitão, gritou êle de longe, mas velando a voz como receoso de ser ouvido além. 

— Pois seja benvindo, o Dourado; ainda que eu não tenho a fortuna de o conhecer, ao tal senhor, disse o Marcos Fragoso galanteando. 

— Pois não o conhece? acudiu o capitão-mór. É verdade que desde menino saíu do Quixeramobim, onde nasceu e criou-se; senão havia de ter notícia dele. 

— É então algum façanhudo? tornou o mancebo no memo tom. 

— Tem fama por todo êste sertão, respondeu gravemente o capitão-mór. 

— E a fama já chegou aos Inhamuns, acrescentou Daniel Ferro.

(continua...)

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