Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
No Reis depositava eu e deposito confiança sem limites. Ou todos o julgam pela visão do bem da minha luneta mágica, ou se eu me engano no juízo que faço do Reis, todos se enganam comigo. Recebi o amigo Reis, como um cego, a quem se anuncia o primeiro raio de luz, e com ele a vida pelos olhos.
Apertamos as mãos, e nos sentamos um ao lado do outro.
—Temos sofrido muito ambos, e pelo mesmo erro, disse-me o Reis.
—Como?
—Eu errei, deixando-o entregar-se a um pretendido mágico; o senhor errou acreditando exageradamente nele.
—Mas se eu vejo!!!
—É porque ele conhece e esconde o segredo de elevar a maior, a mais alto, e ainda não calculado grau os vidros côncavos destinados a corrigir a miopia; tudo mais que ele emprega é delicadíssimo artifício de charlatanismo para excitar e inflamar a imaginação.
—A sua descrença é um erro...
—A minha tolerância é que tem sido erro; a notícia que imprudentemente fez publicar na imprensa diária da corte, e a fama da sua nova luneta deram causa a que meu armazém seja com freqüência procurado por pretendentes a instrumentos mágicos de ótica, sofrendo eu perseguições e desgostos, que mal pode calcular; isso porem é o menos.
—Que é então o mais?
—A situação em que se acha.
—Que pensa?
—Ouça-me com paciência: a sua pretendida visão do bem o tornou alvo das zombarias e do ridículo...
—Do ridículo?! ! !
—Não há vadio, nem trapaceiro que não tenha abusado da sua boa-fé; o senhor aparece em público associado e convivendo com as celebridades mais imorais e desprezíveis da cidade...
—Que me está dizendo?
—A verdade; todas as senhoras conhecem já a sua... mania de se supor amado por elas sem exceção de uma só, e de amar igualmente a todas, e isso as diverte de modo tal, que nenhuma o vê que não precise de grande esforço para conter o riso...
—O riso!...
—Enfim o senhor é o divertimento de muitos, e o objeto da compaixão dos homens graves, que acreditam indispensável que sua família o sujeite a mais zelosa curadoria...
Senti que sucumbia ao peso do meu infortúnio.
O amigo Reis prosseguiu:
—Seu irmão foi hoje a nossa casa e queixou-se da maléfica influência das duas lunetas mágicas saídas das minhas oficinas; tive de reconhecer a minha responsabilidade e, pedindo perdão, assegurei que mais nunca permitiria ao armênio outra operação mágica para facilitar-lhe nova luneta.
—Que fez!... exclamei tremendo.
—Seu irmão disse-me que antes de três dias seria nomeado seu curador, e que empregará até a força para recolhê-lo ao seio da família . . .
—Três dias... e depois a privação da luneta mágica, a cegueira, e a casa tornada cárcere!!!
—Quando seu irmão saiu, fui ter com o armênio e referi-lhe a sua desgraça, a sua lamentável...
—Necedade.
—Não me animava a dizê-lo; os seus grandes prejuízos, e ridículo proceder em conseqüência da visão do bem.
—E o armênio?
—Respondeu-me, levantando e encolhendo os ombros com cure gelada indiferença. —Estou perdido...
—Então avisei severamente ao armênio, de que eu o despediria para sempre da minha casa, se nela praticasse uma única vez mais as suas pretendidas artes mágicas.
—E ele?
—Nem sequer olhou para mim; mas riu-se com o seu rir medonho.
—Não o despedirá!
—Despedi-lo-ei, se não me obedecer. Quanto ao senhor, meu jovem amigo, submeta-se a sua sorte: volte para o santo asilo da sua família, e deixe-se dirigir e guiar por seu irmão. —Estou perdido, repeti lugubremente.
O Reis despediu-se e deixou-me só.
XXVII
Meu irmão dá-me três dias de liberdade, o mesmo prazo que se concedia aos condenados à morte: três dias entre a intimação e a execução da sentença.
E todavia meu irmão é o melhor dos homens, e símbolo do amor fraternal.
Serei eu realmente néscio ou idiota?... mas eu penso, raciocino, reflito, e tenho consciência de que o faço.
Ninguém me chamou idiota, somente me julgaram doido, quando eu julgava os homens e as coisas pela visão do mal.
Será pois a visão do bem fonte de necedade?...
É certo que pela visão do bem eu vejo todos sem exceção, tudo sem exceção resplendendo pureza e perfeições; ainda não descobri defeito em alguém, ainda não pude julgar má ação alguma.
Com efeito esta inocência e perfeição de todos e de tudo excluem a idéia do pecado, e portanto a idéia do prêmio e do castigo na vida eterna, o prêmio, porque é distinção, e não podem haver escolhidos e distintos quando todos são igualmente bons; o castigo, porque não há que castigar.
Assim pois eu ataco pela base a filosofia, a doutrina católica...
Meu Deus! terei eu sem o pensar chegado até ofender a religião? . . .
A visão do bem da minha luneta será como a do mal acesa pelo demônio?... será infernal pelo excesso de mostrar sempre o bem em todos e em tudo?
Minhas idéias se baralharam, minha cabeça começou a pesar-me; receei a iminência de um ataque cerebral, ou algum acesso de loucura.
Tomei o chapéu e sai sem destino, levando fixada a minha luneta; dei por mim na Rua Direita, reconhecendo o Boulevard Carceller, e fui sentar-me isolado à sombra da árvore mais vizinha da Igreja do Carmo.
(continua...)