Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Porque o sussurro das nossas palavras, embora murmuradas quasi ao ouvido um do outro, poderia talvez provocar a curiosidade de alguém que ainda não dormisse, e que o percebesse ; porque através das grades do jardim alguém que pela rua passasse, poderia ter-nos; porque emfim um acaso infeliz é possivel, e se te vissem comigo a esta hora, padeceria o teu credito, que depois do teu amor é o meu maior thesouro.
— Não, Jorge ; nós estamos seguros neste logar ; não o deixemos, eu t'o peço !...
— Ainda tens medo do veneno das flores, Juliana?... perguntou Jorge sorrindo.
— Talvez, respondeu sem pensar no que respondia, a bella moça.
— Oh! Juliana! dir-se-hia que é a desconfiança que de novo apparece no teu espirito.
— Jorge!
— Paciencia; não insisto mais, tornou o mancebo com uma voz sentida; devo contentarme com o que já fizeste por mim : abrindo a porta daquella sala, descendo a escada deste terraço, déste-me muito mais do que eu podia
merecer.
Juliana sentio-se commovida pelas palavras melancolicas do seu amante, arrependeu-se da resistencia que oppuzera ao convite que elle lhe fizera, e, tomando-lhe o braço, disse com doçura:
— Vamos, Jorge! vamos!
XVIII.
E os dous amantes passearão por entre as flores, ao clarão do luar, que cada vez mais brilhante parecia mostrar-se, e no seio daquella solidão deliciosa, em que respiravão perfumes embriagadores, e em que o silencio era somente interrompido por seus juramentos de amor.
Juliana ia pouco a pouco banindo de sua alma todo o instinctivo receio que determinara suas fracas hesitações ; ia pouco a pouco e sem sentir quebrando os laços do delicado pejo, que ao mesmo tempo a acanhava e defendia; e pouco a pouco ia abandonando-se a uma segurança imprudente, que a tornava cega ao perigo que corria, e surda ao clamor da virtude que se alvoroçava resentida.
Jorge procedia com habilidade consum-mada: não querendo comprometter-se por precipitado, mantinha-se dentro dos limites do mais escrupuloso respeito em suas acções ; não tinha ousado tocar com seus lábios nem as faces, nem
os cabellos de Juliana, nem com um leve movimento do seu braço procurara apertar ao peito a mão formosa e leve da encantadora moça.
Fallando á sua noiva, não lhe dirigira uma só proposição que não pudesse repetir aos ouvidos de todos, ou enunciar em alta voz no meio de uma assembléa; discorrendo porém sobre o amor, e como se deixasse levar por uma inspiração arrebatadora, encadeiava sophismas graciosos que produzião consequencias que parecião verdadeiras, e erão apenas erros perigosos e lições disfarçadas de um senualismo vergonhoso; pintava o quadro do amor com as tintas de uma luxuria dissimulada, de modo que se fizesse contemplar e ap-laudir sem temor e sem desconfiança pela donzella, que sem o perceber abria o coração á voluptuosidade e deixava accender-se nelle uma flamma traiçoeira e infernal.
E assim ião os dous amantes passeando e conversando tão esquecidos do mundo e do tempo, que Juliana sorrio ouvindo o signal de três quartos depois das duas horas, e disse:
— Oh ! como passou voando esta meia hora de passeio, Jorge !...
— Malditas sejão pois as azas do tempo que vôa, quando devia arrastar-se preguiçoso ! e gloria ao amor que sabe aproveitar as horas, que fogem rapidas ! passemos...
— Sinto-me um pouco fatigada : voltemos, vamos sentar-nos em um dos bancos do terraço.
— Juliana ! temos diante de nós um caramanchão que nos ofierece um banco de relva !
Juliana deixou-se levar como uma pobre cega pela mão do perfido conductor.
XIX.
O caramanchão era aberto por tres lados, e tinha o outro lado e o tecto coberto por um tapete de verdura formado por trepadeiras de flores odoriferas. O banco de relva que havia no caramanchão estava molhado do orvalho.
Jorge tirou do braço a sua capa, desdobrou-a, estendeu-a, sobre a relva, e fazendo sentar Juliana a seu lado, disse pela vigésima ou trigesima vez :
— Ah! como tu és formosa, minha querida noiva!...
— Eu quizera parecer sempre formosa a teus olhos, Jorge ; formosa porém não sou eu : formosa é esta lua tão brilhante e serena! for moso é este céo tão limpo de nuvens ! formoso é este jardim tão coberto de flores que embalsamão os ares ! formosa é esta noite tão rica de encantos! formosa emfim é esta solidão tão cheia de amor innocente e puro !
— Juliana! a tua alma se abre finalmente, livre de vãos temores, ás emoções enlevadoras e fervidas do mais nobre dos affcctos !... falla mais, falla ; porque tuas palavras me parecera os echos que respondem ás fallas que do meu coração têm rompido para os meus labios !
— Jorge ! Jorge ! o mais que eu sinto não se diz, porque é impossível; eu te amo! Eis tudo.
O sino do templo vizinho dobrou annunciando tres horas da noite.
Jorge sentio como um brando choque, pois estremeceu
ligeiramente; não dando porém a perceber a impressão que recebera, disse logo:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.