Por José de Alencar (1875)
— E de impedir que se malogue, acrescentou Fragoso vivamente.
— Não diga tanto.
— Pois eu afirmo.
Desta vez foi Ourém que fitou o olhar no rosto do primo para ler aí a explicação de suas palavras. O sorriso de Fragoso ainda mais o embaraçou.
— O primo tem algum propósito?
— Não perguntou quando íamos à Oiticica? Pois já estamos em caminho.
— AH! Então esta montearia?… Que ela era em honra de Diana caçadora, eu sabia; mas não suspeitava que teríamos um eclipse da lua, logo pela manhã. Assim Endimião prepara-se a arrebatar do céu a deusa?
— Pretendo entender-me com o capitão-mór na volta; conforme o que êle resolver, amanhã estaremos em sua fazenda, para fazer-lhe o pedido com as cerimônias do costume e que êle não dispensa; ou iremos caminho do Recife.
— Desta alternativa é que eu não tenho receio. Havemos de tornar ao Recife, mas depois das bodas.
— Quem sabe? Podem fazer-se lá, observou Fragoso com o mesmo sorriso malicioso que já uma vez excitara o reparo de Ourém.
— Também é verdade, sem que haja necessidade de me estar o primo Fragoso a falar por alusão e com palavras encobertas.
— Pois quer mais claro, primo Ourém?
— O rapto das Sabinas de que falei há pouco efetuou-se no meio de uma festa. Lembra-se?
— Muito pouco. Fui mau estudante de latim e já não sei por onde anda o meu Eutrópio.
— Os romanos convidaram os seus vizinhos para assistirem a uns jogos marciais; no meio do espetáculo os surpreenderam, e tomaram-lhes as filhas.
— A que vem agora a história romana neste sertão? Não me dirá?
— Olhe; as suas meias palavras seriam capazes de fazer-me desconfiar que esta montearia tinha o mesmo fim.
— E que lhe parecia o alvitre?
— Muito romano, primo, e bem vê, que eu, na minha qualidade de togado, sou pelos meios conciliadores, cedant arma togœ, como disse o velho Túlio.
— Não tenha susto. Tudo se há de fazer em boa e santa paz, eu o espero. Demais o capitãomór não é homem com quem se arrisquem tais surpresas, pois anda sempre com boa escolta.
— No quer acho que obra como varão prudente, tornou Ourém, aproveitando o ensêjo para
uma citação de Camões, que era seu poeta favorito:
«Eu nunca louvarei
O capitão que diz, eu não cuidei.»
Tinham os dois chegado à beira de uma coroa de mato, onde já os esperavam Daniel Ferro e João Correia, parados ao pé de uma marizeira colossal.
Era alí o ponto designado para o encontro com o capitão-mór.
Ao cabo de breve espera, ouviram o tropel dos animais; e os cavaleiros correram pressurosos a saudar as senhoras que já apareciam por entre o arvoredo do tabuleiro.
Depois de trocadas as mais corteses saudações, seguiram juntas as duas cavalgadas.
— Temos uma excelente manhã para a nossa montearia, sr. capitão-mór, disse Marcos
Fragoso.
— Excelente, em verdade, respondeu Campelo circulando com o olhar os horizontes, como quem ainda não se apercebera do tempo que fazia.
Arnaldo, a-pesar-de preparado para o encontro, não pôde conter o movimento de repulsão que arrancou-lhe a chegada de Marcos Fragoso. Como, porém, estava afastado, ninguém reparou no seu gesto, nem percebeu o olhar com que êle marcava o destruidor de sua felicidade.
Desde então, o sertanejo que já se mostrava esquivo, afastou-se ainda mais e, a pretêsto de não estorvar o caminho aos outros, desviou-se para o lado e seguiu por dentro do mato.
Um só instante, porém, não tirava os olhos de Marcos fragoso. Atento ao seu menor gesto, cogitava entretanto consigo no que podia ocorrer nesse passeio, cujas consequências êle ia conjeturando.
Como bem se presume, o sertanejo desde a noite em que ouvira a conversa do Fragoso e seus amigos na varanda da casa do Bargado, não perdeu mais de vista o homem a quem êle considerava seu maior inimigo.
Nessa observação o auxiliava muito o velho Jó, que nos longos anos vividos no deserto adquirira a sagacidade de um índio.
Depois da volta de Arnaldo à fazenda, o capitão-mór nunca mais falou do velho, nem aludiu ao fogo da capoeira. Era fato que parecia não ter existido para êle. E como não fosse crível que o capitão-mór deixasse ficar sem punição um caso tão grave, a gente da fazenda teve como certa a morte do solitário. Havia quem afirmasse que êle fôra devorado pelas chamas, pois ainda lhe encontrara um resto dos ossos queimados. O João Coité, porém, protestava, jurando por todos os santos, que Jó andava ao redor da casa em figura de lobishomem, e que êle já o tinha encontrado uma vez.
Livre, pois, o velho das perseguições que sofria, consentiu Arnaldo que êle deixasse furtivamente a gruta onde o abrigara, para ocultar-se nas vizinhanças do Bargado e trazê-lo ao corrente do que alí se passava.
O Marcos Fragoso não deu mais um passo que o sertanejo não soubesse; seguia-o como sua sombra, e por mais de uma vez o vira aproximar-se da Oiticica na esperança de fazer-se encontrado com D. Flor.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.