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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Por que este sonho não se realizaria, querendo tu? Seria a consagração da minha felicidade. Sim; não há sacrifício de minha parte. Ana te daria os castos prazeres que não posso dar-te; e recebendo-os dela, ainda os receberias de mim. Que podia eu mais desejar neste mundo? Que vida mais doce do que viver da ventura de ambos? Ana se parece comigo; amarias nela minha imagem purificada, beijarias nela os meus lábios virgens; e minha alma entre a sua boca e tua gozaria dos beijos de ambos. Que suprema delícia... 

 

Lúcia calou-se de súbito, empalidecendo. Toda a sua pessoa assumiu-se, tomando a expressão vaga e estática de quem é absorvido por um recolho íntimo: figurava uma pessoa escutando-se viver interiormente. Até que ergueu-se espavorida; soltou um gemido pungente levando a mão ao regaço, e caiu fulminada em meus braços. 

 

O abalo interior que sofrera esse corpo delicado fora tão forte, que a cintura do vestido se despedaçara. 

 

Conduzi Lúcia ao seu leito, e só depois de cruéis angústias tive o consolo de vê-la recobrar os sentidos, mas para cair logo numa prostração, em que apesar dos meus rogos e instâncias, só a ouvia murmurar surdamente estas palavras incompreensíveis: 

— Eu adivinhava que ele me levaria consigo! 

 

— Ele quem, minha boa Maria? 

 

— O teu, o nosso filho! respondeu-me ela. 

 

— Como! Julgas?... 

 

— Senti há pouco o seu primeiro e o seu último movimento! 

 

— Um filho! Mas é um novo laço e mais forte que nos prende um ao outro. Serás mãe, minha querida Maria? Terás mais esse doce sentimento da maternidade para encher-te o coração; terás mais uma criatura com quem repartir a riqueza inexaurível de tua alma! 

 

— Cala-te, Paulo! Ele morreu! disse-me com a voz surda. E fui eu que o matei! 

 

— Para que te afliges assim! Nosso filho vive, há de viver! Não sentiste há pouco o seu primeiro movimento! 

 

Nisto chegou o médico a quem tinha escrito imediatamente, e que depois de examinar o estado de Lúcia, declarou que não inspirava receio. Ela estava ameaçada de um aborto, resultado do choque violento que sofrera, quando conheceu que se achava grávida. O doutor, um dos mais hábeis parteiros da corte, procurou desvanecer os receios de Lúcia, assegurando-lhe que seu filho vivia, e nada ainda fazia recear pela sua vida. 

 

Apenas o médico saiu, ela olhou-me tristemente: 

 

— Era o primeiro! Mas o tato das entranhas maternas, sejam elas virgens ainda, não engana. Nosso filho, Paulo, o teu, porque ele era mais teu do que meu, já não existe. 

 

À noite declarou-se a febre; uma febre intensa que a fez delirar. Foi então que conheci quanto eu vivia no seu pensamento: ela não disse no delírio uma só palavra que não se referisse a mim e a alguma circunstância de nossa vida mútua, desde o primeiro dia em que nos encontramos. 

 

Pela manhã, depois de um sono curto e agitado, achei-a mais tranqüila: 

 

— Tu me prometes, Paulo, casar com Ana! 

 

— Não tratemos disso agora, minha amiga! Quando ficares boa, tudo o que tu quiseres eu farei para a tua felicidade. 

 

— Mas essa promessa me daria tanto agora! 

 

Escuta, Maria, esse casamento nos tornaria infelizes a ti, a tua irmã, e a mim que não poderia amá-la, mesmo por causa dessa semelhança! Tu viverias sempre entre mim e ela! 

 

— Pois bem, promete-me que se ela não for tua mulher, lhe servirás de pai. 

 

— Juro-te! 

 

Beijou-me as mãos: 

— Ela vai ter tanta necessidade de um pai! 

 

Os acessos de febre repetiram-se durante três dias, e sempre mais graves. Uma tarde em que o médico apresentou a Lúcia um remédio: 

 

— Para que é isso? perguntou ela com brandura. 

 

— Para aliviá-la do seu incômodo. Logo que lançar o aborto, ficará inteiramente boa. 

 

— Lançar!... Expelir meu filho de mim? 

 

E o copo que Lúcia sustentava na mão trêmula, impelido com violência, voou pelo aposento e espedaçou-se de encontro à parede. 

 

— Iremos juntos!... murmurou descaindo inerte sobre as almofadas do leito. Sua mãe lhe servirá de túmulo. 

 

De joelhos à cabeceira eu suplicava-lhe que bebesse o remédio que a devia salvar. 

 

— Queres acompanhar teu filho, Maria, e abandonar-me só neste mundo. Vive por mim! 

 

— Se eu pudesse viver, haveria forças que me separassem de ti? Haveria sacrifício que eu não fizesse para comprar mais alguns dias da minha felicidade? Mas Deus não quis. Sinto que a vida me foge! 

 

A instâncias minhas bebeu finalmente o remédio, que nenhum efeito produziu. A febre lavrava com intensidade; eu já não tinha esperanças. 

 

— O remédio de que eu preciso é o da religião. Quero confessar-me, Paulo. 

 

Lúcia tomou os sacramentos com uma resignação angélica; e abraçando a irmã, disse-lhe: 

 

— Perdes uma irmã, Ana; fica-te um pai. Ama-o por ele, por ti e por mim 

 

O dia se passou na cruel agonia que só compreendem aqueles que ajoelhados à borda de um leito viram finar-se gradualmente uma vida querida. 

 

(continua...)

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