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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Espere, tornou d. Carolina, escute, senhor. Houve um dia, quando minha mãe era viva, em que eu também socorri um velho moribundo. Como o senhor e sua camarada, matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus filhos; em sinal de reconhecimento também este velho me fez um presente; deu-me uma relíquia milagrosa que, asseverou-me ele, tem o poder uma vez, na vida de quem a possui, de dar o que se deseja. Eu cosi essa relíquia dentro de um breve; ainda não lhe pedi coisa alguma, mas trago-a sempre comigo; eu lha cedo... tome o breve, descosa-a, tire a relíquia e à mercê dela talvez encontre sua antiga amada. Obtenha o seu perdão e me terá por esposa.

— Isto tudo me parece um sonho, respondeu Augusto, porém, dê-me, dê-me esse breve!

A menina, com efeito, entregou o breve ao estudante, que começou a descosê-lo precipitadamente. Aquela relíquia, que se dizia milagrosa, era sua última esperança; e, semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo se agarra à mais leve tábua, ele se abraçava com ela. Sé faltava a derradeira capa do breve.., ei-la que cede e se descose alta uma pedra... e Augusto, entusiasmado e como delirante, cai aos pés de d. Carolina, exclamando:

— O meu camafeu!…O meu camafeu!...

A senhora d. Ana e o pai de Augusto entraram nesse instante na gruta e encontraram o feliz e fervoroso amante de joelhos e a dar mil beijos nos pés da linda menina, que também por sua parte chorava de prazer.

— Que loucura é esta? perguntou a senhora d. Ana.

— Achei minha mulher!... bradava Augusto; encontrei minha mulher! … Encontrei minha mulher!

— Que quer dizer isto, Carolina?...

— Ah! Minha boa avó!… respondeu a travessa Moreninha ingenuamente; nós éramos conhecidos antigos.

Epílogo

A chegada de Filipe, Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que reinava na gruta. O projeto de casamento de Augusto e d. Carolina não podia ser um mistério para eles, tendo sido, como foi, elaborado por Filipe. de acordo com o pai do noivo, que fizera a proposta, e com o velho amigo, que ainda no dia antecedente viera concluir os ajustes com a senhora d. Ana e portanto, o tempo que se gastaria em explicações passou-se em abraços.

— Muito bem! Muito bem! disse por fim Filipe; quem pôs o fogo ao pé da pólvora fui eu, eu que obriguei Augusto a vir passar o dia de Sant’Ana conosco.

— Então estás arrependido?...

— Não, por certo, apesar de me roubares minha irmã. Finalmente para este tesouro sempre teria de haver uni ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste.

— Mas, meu maninho, ele perdeu ganhando...

— Como?...

Estamos no dia 20 de agosto: um mês!

— E verdade! Um mês!... exclamou Filipe.

— Um mês! ... gritaram Fabrício e Leopoldo.

— Eu não entendo isto, disse a senhora d. Ana.

Minha boa avó, acudiu a noiva, isto quer dizer que, finalmente, está presa a borboleta.

— Minha boa avó, exclamou Filipe, isto quer dizer que Augusto deve-me um romance.

— Já está pronto, respondeu o noivo.

— Como se intitula?

A Moreninha.

FIM

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