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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Eugênia disse que o mal de Maurícia desapareceria com o leite tomado todas as manhãs ao pé da vaca, banhos frios, e passeios pela estrada. Virgínia aprovou este tratamento, e Sinhazinha prometeu fazer companhia a Maurícia. Esta, porém, mostrava-se no todo desanimada. Tinha por certo o seu aniquilamento. Estava resignada, e dizia que não havia de chegar ao fim do ano.

Uma tarde, Maurícia foi atacada de febre tão forte que dela não se levantou mais. Os médicos deram à moléstia fatal um nome acabado em ite: mas o que a levou à sepultura não foi senão o sacrifício que se impusera.

Três dias depois do ataque, a casa de Martins que durante tantos anos servira de estância de prazeres puros e alegres, oferecia um espetáculo altamente contristador. Ia emudecer a voz que fizera vibrar as harpas mais harmoniosas que ainda ressoavam na pitoresca estrada; iam tolher-se finos e gelados os dedos torneados e coloridos, que arrancaram das teclas mudas e frias as mais ardentes e apaixonadas inspirações dos grandes mestres da arte dos sons e das melodias; ia, enfim, morrer aquela beleza ainda fresca, ainda admirável, dando o grande exemplo de uma rara abnegação, depois dos maiores e mais eloqüentes testemunhos de respeito ao dever conjugal. Mulheres, mirai-vos nesse espelho de aço puro! Maurícia existiu. Foi, como aqui se pinta, uma mulher que honrou seu sexo e a família brasileira.

Albuquerque e Paulo, que tinham vindo do engenho na véspera, ora se sentavam, ora passeavam pela sala comovidos mas silenciosos. Na alcova, D. Eugênia, Sinhazinha, D. Carolina e D. Teodora, em pranto, rodeavam o leito da agonizante. D. Matilde, mais perto dela do que nenhuma outra, tinha quase sobre os joelhos a sua cabeça e pegava-lhe de uma das mãos. Virgínia, que não tivera coragem de arrostar a transição daquela que ia levar consigo parte de sua alma, soluçava inconsolável em um aposento vizinho.

— O Dr. Ângelo está tão distante daqui! — disse Maurícia. Mandem chamá-lo.

Quero vê-lo antes de morrer.

— Ele vem aí - respondeu-lhe D. Matilde.

— Levo algumas saudades da vida - tornou a agonizante.

E depois disse:

— O meu sacrifício matou-me...

Foram estas as suas últimas palavras.

Depois da morte de Nunes Machado, não houve naquela estrada outro caso de morte que produzisse nos habitantes tão profunda impressão. Nem podia acontecer o contrário. Por vários anos, especialmente por ocasião das festas de São João, do Natal e da Conceição eles tinham visto passar de braço dado com alguma jovem das mais estimadas, ou algum cavalheiro de maior distinção, em grupos de famílias por baixo das árvores, colhendo flores, sorrindo feliz, gracejando e brincando, aquela senhora respeitável sem entono, esbelta sem afetação, formosa sem os esplendores da primeira juventude, sempre desejada, sempre querida e sempre digna do apreço e respeito dos que a conheciam.

No outro dia, a capelinha, onde fora depositado o cadáver parecia horto. Não houve rosas, perpétuas, saudades, murtas e alecrins em todos os sítios dos arredores, que não tivessem vindo adornar o penúltimo paço de tão preciosos restos mortais. Não houve matrona, ou moça, ainda que não pertencesse ao círculo de onde havia emigrado para nunca mais voltar aquela musa canora, apaixonada e honesta, que não mandasse levar à capelinha o seu ramalhete ou o seu açafate com flores - delicado tributo de estima, espontaneamente rendido em honra de quem deixava tão gentil memória na face da terra

CONCLUSÃO

Voltando do interior à capital de Pernambuco, o primeiro ponto para onde me encaminhei, depois de ter ido ao meu cabeleireiro, foi o teatro. Havia cerca de oito meses que eu estava fora do Recife. A minha estada na remota povoação aonde me levara interesse particular, fora um longo e ininterrupto tédio. Cheguei ávido de distrações. Ora, a primeira que se me ofereceu foi um espetáculo anunciado para aquele dia. Esse espetáculo despertou logo em mim dobrada curiosidade: o drama, além de novo, era original de Ângelo.

No teatro, encontrei-me com Martins, que fora atraído pela mesma novidade que eu. Ângelo estava num camarote da segunda ordem. Notando eu a presença de duas senhoras que me pareceram estranhas à família do dramaturgo, Martins veio em socorro à minha lembrança:

— Não conheces mais Sinhazinha e a mãe?

— Ah! São elas?

— Ângelo está de casamento justo com Sinhazinha.

Nesse momento, o nosso amigo, que nos vira, fez sinal para que fossemos ter com ele. Subimos, e do camarote assistimos aos seus triunfos literários.

Quase não conheço Sinhazinha. Estava muito menos delgada do que antes, corada, bonita e parecia ter perdido parte dos modos tímidos, melhor direi, do acanhamento que um ano atrás era a sua feição dominante. Ângelo mostrava-se satisfeito, para não dizer feliz. Enfim, notei entre as duas famílias uma como benevolência recíproca e íntima, que me deu a medida da harmonia a coroar o laço ajustado entre os dois jovens.

Lembrei-me de Maurícia ao sair do teatro, e falei nela a Martins.

— Vai fazer um ano que a acompanhei à sepultura. Teve uma vida bem penosa e crua. Descansou.

Comoveram-me estas palavras.

Entrei em casa, revolvendo no pensamento aquela profunda sentença que Herculano pôs nas elegias do Presbítero de Cartéia:

(continua...)

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