Por Bernardo Guimarães (1869)
Gonçalo deixou portanto a Palma, e embrenhou-se por sertões desconhecidos passando voluntariamente uma vida de ásperas mortificações e penitências. Vagueou por um largo tempo através dos ermos com um bordão à mão e um saco às costas, vivendo de esmolas ou de frutos e legumes silvestres, tendo por leito o chão frio e duro, por teto a ramagem das florestas ou a abóbada úmida de alguma lapa cavada pela natureza no viso das montanhas. Mas nem assim conseguia acalmar os pungentes remorsos que lhe atormentavam a consciência. Os fantasmas de suas vítimas o acompanhavam por toda a parte como a sombra de seu corpo, e noite e dia lhe torturavam a alma. O grosseiro e parco alimento que tomava parecia-lhe ensopado em lágrimas e sangue. À noite espectros sinistros o ansiavam e enxotavam-lhe o sono das pálpebras requeimadas de prantos e vigílias. Com os olhos amortecidos, as faces pálidas e macilentas, o corpo emagrecido e alquebrado, parecia um espectro surgido dos túmulos, e ninguém mais reconheceria nele a figura atlética e garbosa do vigoroso mancebo de outrora. Errante de povoação em povoação, de fazenda em fazenda, muitas vezes também estacionava entre as hordas selvagens, que o respeitavam e veneravam como um pajé, e conhecedor de sua linguagem e costumes procurava não sem algum resultado doutriná-los e reduzi-los ao grêmio da religião cristã. Mas não podia persistir por muito tempo entre eles, pois que os hábitos e usanças dos índios, suas festas e todas as cenas que entre eles presenciava, lhe despertavam na alma amargas e pungentes lembranças desse tempo tão cheio de extraordinárias peripécias que passara entre os Chavantes.
Também nas aldeias e habitações dos brancos, além dos tormentos que lhe infligia sua própria consciência, não lhe faltavam ocasiões de dissabores, e ouvia por toda a parte contar-se com todos os seus horríveis pormenores a história do hediondo atentado que perpetrara na pessoa de seu amigo, e que se tornara célebre em toda a capitania, e era forçado a dizer — amem — a todas as tremendas execrações que caíam sobre o assassino de Reinaldo. Era mais uma humilhação e um castigo, que aceitava resignado em expiação de suas enormes culpas. Esses mesmos que o veneravam e lhe beijavam o hábito como a um santo, sem o saber execravam sua memória e enchiam seu nome de maldições, e assim em vez de ensoberbecer-se com essas mostras de respeito e veneração, que lhe tributavam, mais humilhado e confuso se achava aos olhos da própria consciência.
Depois de longas e contínuas peregrinações pelos desertos, pelas fazendas e choupanas sem poder achar consolação nem repouso em parte alguma, Gonçalo apareceu por fim na povoação de S. José do Tocantins. Seu corpo fraco e extenuado definhava de mais a mais, e parecia um prodígio a ardente e infatigável atividade que o animava ainda a despeito de todos os jejuns, macerações e fadigas a que se sujeitava. Parecia que sua alma estava prestes a exalar-se daquela frágil prisão corpórea; mesmo assim porém, mesmo apesar das orações, penitências e mortificações a que se entregava, Gonçalo, não achando lenitivo algum às cruéis tribulações de seu espírito, vagava sem repouso pelos ermos os mais inóspitos e desabridos, exposto a todos os rigores do tempo, como o Édipo da fábula perseguido pelas Eumênides, ou como o Aasvero da legenda cristã em seu eterno peregrinar.
Um dia, oprimido de cansaço e de sede, e acabrunhado de mortal tristeza, chegou a um sítio ermo e silencioso, sem horizonte nem perspectiva alguma, a um triste e retraído vale rodeado de morros áridos e de aspecto lúgubre, cobertos de uma vegetação enfezada e rasteira. Tudo era ali mudez e solidão; uma só ave não piava pelos ramos amarelados dos arbustos, nem se ouvia rumor que denunciasse a existência de ente vivo por aquelas soturnas e melancólicas paragens. Apenas ouvia-se o vento a farfalhar pelas ramas ressequidas dos matagais e o burburinho de um córrego a desfiar por uma grota pedregosa, triste como a reza monótona murmurada ao pé do ataúde de um finado... Gonçalo desceu à grota, matou a sede, e depois ajoelhou-se para dar graças ao céu, e encomendar sua alma a Deus, pois pensou ser ali o último pouso de sua peregrinação sobre a terra. Gonçalo, se é lícito comparar uma frágil criatura humana com a divindade, estava então como o Cristo nessa hora de profundo abatimento, nesse momento de suprema agonia, em que no monte das Oliveiras junto à torrente do Cedron, sozinho e abandonado por seus discípulos, suou sangue e sentiu sua alma desfalecer e vacilar ao receber o cálix do martírio, que um anjo lhe apresentava. Gonçalo não tinha, como o divino Redentor, sobre o seu coração todo o peso dos pecados de um mundo para remi-los com seu sangue, mas tinha a consciência oprimida por suas imensas e enormes culpas, e sentia também sua alma desfalecer à míngua de consolo e de esperança. O mundo para ele não era mais que um vasto cemitério, um vale fúnebre de lágrimas e misérias; só no céu poderia achar o repouso e alívio por que em vão suspirava; mas surdo às suas preces, lágrimas e penitências, o céu para ele era de bronze, e de lá não baixava consolação nem lenitivo às cruéis tribulações de sua alma. Ali derramou ele lágrimas ardentes de contrição e arrependimento, implorou do íntimo da alma a misericórdia divina sobre seus enormes pecados, beijou com fervorosa devoção a imagem da Virgem, encostou-se sobre a relva à beira do córrego, e adormeceu ou antes caiu em um letargo, que mais era prostração e desfalecimento do que sono.
Então lhe aparece em sonho a Virgem Mãe de Deus tal qual se achava esculpida na medalha, porém rodeada de todo o esplendor de sua celeste glória, e diz-lhe:
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.