Por Bernardo Guimarães (1875)
—Se não fosse por tua causa, e também por satisfazer os votos de minha mãe, eu nunca daria a liberdade a essa escrava, embora nenhum serviço me prestasse, e tivesse de tratá-la como uma princesa, só para quebrar a proa e castigar a audácia e petulância desse impudente rufião.
— Pois bem, Leôncio; mas eu entendo que Isaura mais facilmente se deixará queimar viva, do que casar-se com Belchior.
— Não te dê isso cuidado, minha querida; havemos de catequizá-la convenientemente. Tenho cá forjado o meu plano, com o qual espero reduzi-la a casar-se com ele de muito boa vontade.
— Se ela consentir, não tenho motivo para me opor a esse arranjo.
Leôncio de feito havia habilmente preparado o seu plano atroz.
Tendo trazido do Recife a Miguel debaixo de prisão, juntamente com Isaura, ao chegar em Campos fê-lo encerrar na cadeia, e condenar a pagar todas as despesas e prejuízos que tivera com a fuga de Isaura, as quais fizera orçar em uma soma exorbitante. Ficou, portanto, o pobre homem exausto dos últimos recursos que lhe restavam, e ainda por sobrecarga devendo uma soma enorme, que só longos anos de trabalho poderiam pagar. Como Leôncio era rico, amigo dos ministros e tinha grande influência no lugar, as autoridades locais prestaram-se de boa mente a todas estas perseguições.
Depois que Leôncio, desanimado de poder vencer a obstinada relutância de Isaura, mudou o seu plano de vingança, foi ele em pessoa procurar a Miguel.
— Senhor Miguel, — disse-lhe em tom formalizado, — tenho comiseração do senhor e de sua filha, apesar dos incômodos e prejuízos que me têm dado, e venho propor-lhe um meio de acabarmos de uma vez para sempre com as desordens, intrigas e transtornos com que sua filha tem perturbado minha casa e o sossego de minha vida.
— Estou pronto para qualquer arranjo, senhor Leôncio, — respondeu respeitosamente Miguel, — uma vez que seja justo e honesto.
— Nada mais honesto, nem mais justo. Quero casar sua filha com um homem de bem, e dar-lhe a liberdade; porém para esse fim preciso muito de sua coadjuvação.
— Pois diga em que lhe posso servir.
— Sei que Isaura há de sentir alguma repugnância em casar-se com a pessoa que lhe destino, em razão de tola e extravagante paixão, que parece ainda ter por aquele infame peralvilho de Pernambuco, que meteu-lhe mil caraminholas na cabeça, e encheu-a de idéias extravagantes e loucas esperanças.
— Creio que ela não deve lembrar-se desse moço senão por gratidão...
— Qual gratidão!... pensa vossemecê que ele está fazendo muito caso dela?... tanto como do primeiro sapato que calçou. Aquilo foi um capricho de cabeça estonteada, uma fantasia de fidalgote endinheirado, e a prova aqui está; leia esta carta... O patife tem a sem-cerimônia de escrever-me, como se entre nós nada houvesse, assim com ares de amigo velho, participando-me que se acha casado!... que tal lhe parece esta?... que tenho eu com seu casamento!... Mas isto ainda não é tudo; aproveitando a ocasião, pede-me com todo o desfaçamento que em todo e qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o faça sem participarlhe, porque muito deseja tê-la para mucama de sua senhora! até onde pode chegar o cinismo e a impudência!...
— Com efeito, senhor!... isto da parte do senhor Álvaro é custoso de acreditar!
— Pois capacite-se com seus próprios olhos; leia; não conhece esta letra?...
E dizendo isto Leôncio apresentou a Miguel uma carta, cuja letra imitava perfeitamente a de Álvaro.
— A letra é dele; não resta dúvida, — disse Miguel pasmado do que acabava de ler. - Há neste mundo infâmias que custa-se a compreender.
— E também lições cruéis, que é preciso não desprezar, não é assim, senhor Miguel?... Pois bem; guarde essa carta para mostrar à sua filha; é bom que ela saiba de tudo para não contar mais com esse homem, e varrer do espírito as fumaças que porventura ainda lhe toldam o juízo. Faça também vossemecê o que estiver em seu possível afim de predispor sua filha para esse casamento, que é de muita vantagem, e eu não só lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como lhe restituo o que já me deu, para vossemecê abrir um negócio aqui em Campos e viver tranqüilamente o resto de seus dias, em companhia de sua filha e de seu genro.
— Mas quem é esse genro? V. S.ª me não disse ainda.
— É verdade... esquecia-me. É o Belchior, o meu jardineiro; não conhece?...
— Muito!... oh! senhor!... com que miserável figura quer casar minha filha!... pobre Isaura!... duvido muito que ela queira.
— Que importa a figura, se tem uma boa alma, e é honesto e trabalhador?... Lá isso é verdade; o ponto é ela querer.
— Estou certo que aconselhada e bem catequizada por vossemece há de se resolver.
— Farei o que puder; mas tenho poucas esperanças.
— E se não quiser, pior para ela e para vossemecê: o dito por não dito; fica tudo como estava, — disse terminantemente Leôncio.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.