Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Juliana não comprehendia que uma mulher exaltada por um amor violento e ameaçada pela seducção precisa defender-se ainda mais dos impetos de sua mesma paixão do que dos laços que lhe arma a habilidade e a experiencia sinistra do seductor.
E elle ahi estava só, attenta e muda, escutando o som monótono do pendulo que vibrava, calculando os minutos que passavão, e ouvindo com abalo e commoção o dobre do sino que marcava na egreja vizinha, de quarto em quarto de hora, a medida do tempo que se adiantava.
E ahi ficou immovel, mas anhelante, cheia de anciedade, de receio e de temores, até que finalmente ouvio o signal da hora aprazada e suprema.
— Duas horas!
XVI.
Aquelle dobre de um sino lugubre, que annunciava um prazo de amor desvairado, fez Juliana levantar-se a cahir de novo na cadeira como ferida por um choque electrico.
Logo depois commovida e tremula foi a uma porta da sala do seu toucador encostar o ouvido temeroso para assegurar-se de que sua mãi dormia, e, voltando logo, encostou-se cuidadosa á janella que deixara meio aberta, e esperou agitada e inquieta.
Não esperou muito tempo.
No silencio da noite distinguio-se o ruido de uma chave com que uma cautelosa mão abria o portão de ferro do jardim, procurando abafar o estalo da fechadura.
Juliana nem ao menos reflectio que essa chave estranha que facilitava a entrada para o jardim da sua casa era o indicio vehemente de um projecto premeditado com um desvelo minucioso, que tinha sabido preparar todas as condições para a sua facil execução.
Um momento depois de aberto o portão, a areia gemeu sob os passos de alguém que de manso vinha aproximando-se do terraço, e em breve uma voz meiga, mas contida pelo receio, murmurou baixinho :
— Juliana!...
Jorge de Almeida tinha visto a janella entreaberta, e adivinhou que a sua imprudente noiva o esperava naquella sala.
Juliana, temerosamente ainda, como porém se sentisse irresistivelmente attrahida pela voz terna que a chamava, deixou a janella, abrio devagar a porta do terraço, deu um passo para tora, e vio em baixo e junto da escada o vulto de um homem embuçado em uma capa negra.
A donzella não poude reprimir um movimento de temor.
— Sou eu, Juliana! disse Jorge com amor; vem ! vem, minha bella noiva!
Juliana agarrou-se ao corrimão da escada e desceu com passos mal seguros, parando de degráo em degráo para respirar e alentar-se.
Jorge de Almeida ajoelhou-se, e beijou com respeito a mão que Juliana deixara livre.
— Juliana ! minha Juliana !... balbuciou elle.
Em vez de responder, a donzella chorou.
Oh! não derramava ainda lagrimas de acerbo arrependimento; era a sua innocente pureza de virgem que se resentia daquelle primeiro e violento sacrificio.
Era a mimosa flor do valle que, tocada pelo primeiro tufão da tormenta que rugia ao longe dobrava já sua haste delicada, embora não tivesse murchado ainda.
— Oh! Juliana! disse Jorge com ternura; o teu pranto é provavelmente uma injuria que fazes á minha honra! No branco céo de tua alma de donzella innocente e pura expandio-se talvez a nuvem escura e feia ]de um temor que me avilta! Quem sabe se confundes um amante respeitoso e dedicado com um seductor infame!
Juliana!...
A voz de Jorge de Almeida era como uma suave harmonia, e, penetrando deleitosa na alma apaixonada da moça, estancou-lhe pouco a pouco as lagrimas e dissipou-lhe o medo.
— Oh! minha bella noiva! continuou elle, sempre de joelhos ; tranquillisa-te, e confia em mim : tu serás como a imagem de uma santa que se tira do altar para se adorar de mais perto e beijal-a nos pés com religioso fervor, e que outra vez se colloca em seu sagrado throno, intacta e pura como tinha delle sahido. Oh! amaldiçoado fosse eu por meus pais, se um instante só ousasse levantar olhos sacrilegos para o anjo que deve ser a guarda da minha felicidade futura! tu és minha noiva, serás em breve minha esposa, e a tua honra é a minha honra!...Juliana respirou. — Juliana!...
A donzella ergueu a fronte abatida, olhou com olhos de amor para Jorge de Almeida que estava a seus pés, e pousando suas mãos brancas e leves sobre a cabeça do mancebo, murmurou docemente :
— Jorge !...
A confiança entrara no seio da victima inexperiente.
A seducção acabava de alcançar a segunda victoria contra a innocencia e o pudor.
XVII.
A lua brilhava no céo clara e formosa; as flores exhalavão suavíssimos aromas ; a viração soprava brandamente, ciciando nas folhas das arvores ; a hora era de mysterioso silencio, o jardim uma poética e deleitosa solidão.
— Juliana, disse Jorge; abençoado seja a confiança que renasce em teu seio de anjo, e que em mim depositas, levantando-me até á altura da tua virtude!...
— Tu és meu noivo, Jorge, e eu confio em ti, como no protector desvelado que um destino amigo me vai outorgar.
— Ainda bem, minha formosa noiva! apoia-te pois no meu braço, e passeemos por entre as flores...
— Oh ! porque não ficaremos aqui!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.