Por José de Alencar (1875)
As jaçanãs esvoaçavam por cima das lagoas e pousavam entre os juncos. Os currupiões brincavam nos galhos da cajazeira; e a industriosa colônia dos sofrês construia os seus ninhos em forma de bolsas penduradas pelos ramos da árvore hospitaleira.
Nada, porém, mais gracioso e alegre do que os periquitos verdes, de bico branco, e tamanhos de um beijaflor, que adejam em bandos de cem e mais, chilreando, como uns garotinhos, que são, dos ares.
Na côr parecem esmeraldas a voar; e no mimo e gentileza figuram os silfros dêsses campos, que tomassem aquela forma delicada para esconderem-se ao seio das magnólias silvestres.
A essa hora em que o capitão-mór com sua família seguia pelos tabuleiros em busca das margens do rio Quixeramobim, outra cavalgada, que partira de ponto diverso, caminhava na mesma direção, e no passo em que ia, com pouco devia cortar o rumo da primeira.
Compunha-se esta segunda do capitão Marcos Fragoso e seus hóspedes e parentes. Também êles vinham encourados; mas a vara de ferrão, a tinham dado aos pagens para carregá-la, como outrora com as lanças usavam os cavalheiros de tratamento.
O dono do Bargado trazia consigouma grande porção de vaqueiros sob as ordens de José Bernardo, seu vaqueiro principal. Essa récua de sertanejos com os pagens formavam-lhe uma comitiva respeitável, que sem nenhuma aparência de escolta, era mais numerosa do que a do capitão-mór.
Vinham logo após a comitiva uns comboieiros, tocando animais de carga. As canastras suspensas às albardas, que ainda se usavam então e vez das cangalhas, continham os aprestos necessários para o lauto almôço, depois da montearia. joão Correia e Daniel Ferro seguiam adiante divertindo-se com os macaquinhos vermelhos, que saltavam pelos ramos a fazer-lhes caretas, ou que suspendiam-se pela cauda soltando uma surriada de mofa.
Ourém que ia ao lado de Fragoso, quebrou afinal o silêncio com estas palavras, que pareciam completar reflexões anteriores:
— E para quando fica a nossa ida à Oiticica, primo Fragoso? Aquela que nos anunciou na mesma noite de nossa chegada? Não me parece já tão firme em sua resolução, e não sei se lhe diga, que acho-lhe pouco jeito para casado.
— Também a mim parecia isso impossível, respondeu Fragoso a rir. Mas depois que vi D.
Flor, o impossível é viver longe dela; e desde que não há outro meio…
— Mas então que espera?
— Tenho pensado, primo. Êste Campelo é de uma desmarcada soberba. Êle andou outrora em competências com meu pai; e teria acabado seu inimigo, se a morte não o livrasse do homem que podia fazer-lhe frente neste sertão.
— Receia que lhe recuse a mão da filha?
— É muito capaz. Não reparou que até agora ainda não veio dar-me a boa-vinda, que é de rigor entre vizinhos? Contentou-se em mandar-me o seu guarda-costa ou ajudante, como o chama; e isso a-pesar-da hospitalidade que fomos pedir lhe ao passar por sua fazenda.
— Talvez porisso entendesse que estava dispensado de vir pessoalmente, pois já nos havia mostrado o seu agasalho.
— Não; é pura sobranceira, que usa com a gente dêste sertão. Julga-se acima de todos. Eu já o sabia por informações e acabei de certificar-me. Se não fosse a formosura e prendas da filha, que me cativaram, já teria rompida. O meu vaqueiro, pensa o primo, que me obedece? A cada ordem que lhe dou, sai-se com êste mote: «O sr. capitão-mór proibiu.» — Depois de nossa cjegada, recomendei-lhe que abrisse a reprêsa da várzea, para que as chuvas não alagassem o caminho, como o primo tem visto, que é um brejal. Que me havia de responder o José Bernardo? — «Rasgar a reprêsa, patrão? A que o sr. capitão-mór mandou fazer, êle mesmo, o ano passado? Do que Nossa Senhora me livre e guarde. Era preciso que eu tivesse perdido o juízo». Ordenei-lhe então que se entendesse de minha parte com o capitão-mór; e êste sabe o que lhe disse? — «Seu patrão que me fale, êle mesmo». Veja o que podem em mim os olhos de D. Flor.
— Tudo isto, primo Fragoso, é razão para abreviar êsse negócio e decidí-lo quanto antes. Em sabendo suas intenções, o homem há de mudar.
— Compreende, primo Ourém, que se tal acontecesse, era uma afronta que eu, Marcos Fragoso, não sofro e ninguém, por mais poderoso que êle se julgue. Também tenho orgulho; e na minha família a paciência não é virtude de raça. Ainda ninguém ofendeu um Fragoso, que não recebesse o castigo.
— Neste caso tornemos ao Recife.
— Está assim tão apressado?
— Confesso que não tenho nenhuma curiosidade ver pôsto em auto cá no sertão o rapto das Sabinas, disse Ourém motejando.
Êste remoque excitou alguma surpresa em Fragoso, que fitou o semblante de seu primo
com desconfiança. Não se apercebeu disto o Ourém, cujas palavras não tinham oculto sentido.
— Estou que não chegaremos a tal extremidade, replicou Fragoso no mesmo tom de gracejo. A-pesar-de toda a sua arrogância, o capitão-mór Campelo não há de ser tão difícil de contentar.
— Para mim é fora de dúvida. Onde irá êle achar melhor aliança.
— Em todo o caso eu estou prevenido.
— Faz bem. É o meio de enganar a esperança.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.