Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
— Pois bem, sr. Augusto, veja como verificou—se o prognóstico que fiz do seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse que não longe estava o dia em que o sr. havia de esquecer sua mulher?
— Mas eu nunca fui casado... murmurou o estudante.
— Oh! Isso é uma recomendação contra a sua constância! E quem tem a culpa de tudo, senhora?
— Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na sua infidelidade; pois, eu emendarei a mão agora. O senhor há de cumprir a palavra que deu há sete anos!
Augusto recuou dois passos.
— O senhor é um moço honrado, continuou a cruel Moreninha, e, portanto, cumprirá a palavra que deu, e só casará com sua desposada antiga.
— Oh!... Agora já é impossível!
— Ela deve ser uma bonita moça! ... Teria razão de queixar-se contra mim, se eu roubasse um coração que lhe pertence… até por direito de antiguidade; ora, eu, apesar de ser travessa, não sou má, e, portanto, o senhor só será esposo dessa menina.
— Jamais!
— Juro-lhe que há de sê-lo.
— E quem me poderá obrigar?
— Eu, pedindo.
— A senhora?
— E a honra, mandando.
— Para que, pois, animou o amor que pela senhora sinto?...
— Para satisfazer a minha vaidade de moça, somente para isso. Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por mais de três dias, e desejei vingar a injúria feita ao meu sexo. Trabalhei, confesso que trabalhei para prendê-lo; fiz talvez mais do que devia, só para ter a glória de perguntar-lhe uma vez, como agora o faço: "Então, senhor, quem venceu: o homem ou a mulher9
— Foi a beleza.
— Porém já passou o tempo do galanteio, e eu devo lembrar-lhe o dever que com a paixão esquece. Escute: de idade de treze anos o senhor amou uma linda e travessa menina, que contava apenas sete.
— Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo.
— Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la para sempre.
— Foi um juramento de criança.
— Embora, foi um juramento; trocou com ela aí mesmo prendas de amor, e quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que ofereceu e o senhor o aceitou?...
— Ah! Senhora...
— Quando o velho moribundo, dando-lhe o breve de cor branca disse: tomai este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina; ele contém vosso camafeu; se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo, dai-lho, para que ela o guarde com desvelo. Por que deu o senhor o breve à menina?...
— Porque eu era um louco, uma criança!...
— E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz inspirada: "Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!... Lá no futuro vós o sentíreis?" Não tem o senhor esperança de ver realizar-se essa bela profecia? Não se lembra de ouvi-la? Pois ela soou bem docemente no meu coração quando, às escondidas, a escutei repetida nesta gruta por seus lábios.
— Oh! Mas porque Deus não me prendeu a essa menina nos laços indissolúveis, antes que eu visse o lindo anjo desta ilha?
— E como, senhor, posso eu acreditar nos seus protestos de ternura e constância, se já o vejo faltar à fé de outra?…Senhor! Senhor! O que foi que prometeu há sete anos passados?...
— Então eu não pensava no que fazia. E agora pensa no que quer fazer?
— Penso que sou um desgraçado, um louco!... Penso que é uma barbaridade inqualificável que, enquanto eu padeço, sofro mil torturas, deixe a senhora brincar nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar; penso...
— Acabe!
— Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal, deixar aquela cidade detestável, abandonar esta terra de minha pátria, onde não posso ser outra vez feliz!... Penso que a lembrança do meu passado faz a minha desgraça, que o presente me enlouquece e me mata, que o futuro... Oh! Já não haverá futuro para mim! Adeus, senhora! — Então, parte?…
— E para sempre.
D. Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda, mas já com voz fraca e trêmula:
— Sim, deve partir... vá... Talvez encontre aquela a quem jurou amor eterno...
Ah! Senhor! Nunca lhe seja perjuro.
— Se eu a encontrasse!
— Então?... Que faria?...
— Atirar-me-ia a seus pés, abraçar-me-ia com eles e lhe diria:
"Perdoai-me, perdoai-me, senhora, eu já não posso ser vosso esposo! Tomai a prenda que me deste..."
E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve, que convulsivamente apertou na mão.
— O breve verde!…, exclamou d. Carolina, o breve que contém a esmeralda!
— Eu lhe diria, continuou Augusto: "Recebei este breve que já não devo conservar, porque eu amo outra que não sois vós, que é mais bela e mais cruel do que vós!..."
A cena estava se tornando patética; ambos choravam e só passados alguns instantes, a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao triste estudante.
— Oh! Pois bem, disse; vá ter com sua antiga desposada, repita-lhe o que acaba de dizer, e se ela ceder, se perdoar, volte que eu serei sua... esposa.
— Sim... eu corro... Mas meu Deus, onde poderei achar essa moça a quem não tornei a ver, nem poderei conhecer?... Onde, meu Deus?... Onde?...
E tornou a deixar correr o pranto por um momento suspenso.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.