Por Franklin Távora (1879)
Foi um reboliço, uma revolução, um deus-nos-acuda na casa de D. Rosalina. Por alguns momentos, pareceu que o mundo vinha abaixo. mas não estava longe do prazer o desgosto, da esperança o desespero para o infeliz homem de letras.
— Dá-me notícias de D. Maurícia, minha mãe? — perguntou Ângelo.
D. Matilde hesitou. Seu rosto, por onde discorria a aurora boreal de uma satisfação inesperada e inefável, seu rosto, que, sem falar, parecia dizer mil prazeres interiores, vestiu repentinamente a sombra do luto íntimo. A boca, que estava dizendo miríada de emoções, emudeceu.
A mudança súbita, que Ângelo notou imediatamente, aguçou a sua curiosidade, redobrou a sua angústia.
— Por que se cala, minha mãe? — inquiriu ele, mal disfarçando a contrariedade. Não me oculte nada. Li no jornal que o marido tinha morrido. Antes de tudo, diga-me se o jornal falou a verdade ou mentiu.
— Falou a verdade, Ângelo - respondeu D. Matilde. Assim não tivesse D.
Maurícia...
— Não tivesse o quê, minha mãe?
—... morrido também, Ângelo!
— O quê? O que, minha mãe? - exclamou o bacharel.
— Meu Deus, meu Deus! - acudiu D. Matilde. Não te impressiones com a vontade de Deus, meu filho, por mais dolorosa que te pareça.
Durante alguns momentos, Ângelo não pode dizer uma palavra sequer. Véu de profunda noite descera como mortalha negra sobre o seu espírito, onde alvejavam antes roupas de noivado querido. Pôs as mãos na cabeça e, cravados os cotovelos na mesa, que tinha diante de si, no quarto, entregou-se à acerba dor que o tomara no meio do mais intenso prazer que sonhara. Era a segunda vez que se lhe deparava na vida o espetáculo da morte de uma pessoa cara. As lágrimas em borbotões começaram a cair-lhe pelas faces e a formar uma poça cristalina, onde se refletia a luz já então acesa.
Vendo-o chorar, D. Matilde entrou a chorar, também. E por esta forma se trocaram sorrisos em lágrimas, doces comoções por aflições pungentes.
Horas depois, Ângelo deitado no sofazinho de vime do seu aposento, tendo a cabeça sobre as pernas de D. Matilde, ouviu desta a narração dos últimos dias de vida de Maurícia. O que a mãe contou ao filho pode resumir-se no seguinte:
Certa manhã, Maurícia sentira-se sem forças para levantar-se da cama. Passara a noite prostrada e febril. Nas faces, lívida cor substituíra as mimosas tintas esparzidas aí meses antes pelo pincel do artista insigne que se chama saúde, ou antes tranqüilidade espiritual. O vigor, e com ele a vida fugiam espavoridos.
A doença trouxe grandes sustos à família. Em conversação com a mulher, Albuquerque, que já tinha notado dias atrás os progressos da decadência física dessa criatura robusta, que os sofrimentos mais cruéis nunca tinham podido vencer, e que, ao contrário, de todos triunfara.
Virgínia muitas vezes surpreendera a mãe chorando em silêncio. Empregara todo o esforço para saber a origem dessas lágrimas, que levavam dor mortal diretamente ao seu coração; mas nem de longe Maurícia dera a entender a verdadeira causa delas. Uma vez disse à filha, depois de fugir por muitos modos às suas indagações.
— Não te assustes com o meu pranto, Virgínia. Não és tu feliz? A tua felicidade não vai aumentar com o nascimento do primeiro fruto do teu amor? Deixame chorar em silêncio; choro sem causa; as minhas lágrimas provêm de uma melancolia que eu não compreendo e não posso explicar.
Naquele dia, Maurícia pedira Albuquerque que mandasse por os cavalos na carruagem; queria ir à estrada de João de Barros; tinha muitas saudades de Eugênia; queria vê-la. À noitinha a mãe e a filha entraram em casa de Martins.
— Venho vê-los - disse aquela, entrando; e creio que daqui não sairei mais, senão para o cemitério. Procuro uma região aprazível para exalar o meu último suspiro.
Martins e Eugênia, que não sabiam da doença da parenta, sentiram uma impressão dolorosa, vendo-a naquela abatimento geral, que indicava próximo acabamento, e ouvindo palavras que pareciam anunciá-lo já.
Nessa mesma noite, Maurícia mandou dizer a Sinhazinha que a viesse ver, e ela não se fez esperar. Aquelas duas mulheres, que estavam padecendo do mesmo mal, abraçaram-se com ternura.
— Ainda está muito descrente, Sinhazinha? — perguntou-lhe Maurícia.
— Cada vez estou mais. A sinceridade fugiu do mundo.
— Você não tem razão para dizer isso. Deixe-se de descrença. Seu futuro está clareando. A tempestade cessará brevemente, e surgirá depois um dia risonho e esplêndido, que há de acompanhá-la por toda a vida sem nuvens e sem ventanias. — Qual, D. Maurícia! A senhora diz-me estas coisas tão bonitas para consolar-me. Ninguém melhor do que a senhora sabe que as minhas ilusões murcharam e secaram.
— Para que metes pontas de remoques nas tuas palavras? Não me queira mal, Sinhazinha. Faço votos sinceros para que você logre o que mais deseja.
Aparecendo Eugênia e Virgínia, as duas senhoras mudaram de assunto.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.