Por Franklin Távora (1876)
E como para dar plena satisfação àquela doce imagem que se atravessava diante dele no momento em que um crime estava a ser cometido por sua mão, Cabeleira atirou dentro de uma grota que ficava do outro lado da picada o resto da arma de que estivera pendente a vida do pobre velho.
Este, acordando novamente do profundo abatimento que pesava sobre todos os seus membros, dirigiu outra vez a palavra ao bandido:
— Camarada, estou pronto para servi-lo.
— Há três dias que não boto na minha boca um punhado de farinha — disse José. — Traz você aí alguma coisa que me queira dar para comer ?
— É seguramente meio-dia, meu senhor —m disse o velho erguendo a custo os olhos ao sol para se certificar da hora. — Amanhã pela manhã faz quatro dias que este corpo velho, que o senhor está vendo, não sabe o que é comer. Dou a Deus por testemunha da minha verdade.
— E que é que traz dentro destes caçuás ? — perguntou-lhe o Cabeleira.
— Pode ver o que trago. Nada. Tinha uma filha solteira, outra viúva e três netinhos. Veio a peste e levou-me as duas filhas em menos de oito dias. Não tendo recurso nenhum para acudir às minhas necessidades, saí a pedir. Fui à casa de meu compadre, que mora na Ladeira Grande; o compadre tinha morrido das bexigas, e a mulher estava para entregar a alma a Deus; o gadinho que possuía desaparecera com a seca; alguma criação que ficara no terreiro tinha sido comida pelos magotes de gente, que vêm aí em retirada, caindo aqui, morrendo acolá de fome, só de fome. Achei no pátio da propriedade este cavalo velho, que me vai arrastando até a casa. Sabe Deus se lá chegarei, ou se não ficarei no caminho, sem ter visto meus pobres netos ainda uma vez antes de morrer.
— Está bom, meu velho; vá seguindo seu caminho. Você é mais necessitado do que eu.
— Não da graça de Deus, senhor — disse o velho.
O Cabeleira entrou de novo no tabocal.
O abalo que a visão lhe causara, o espetáculo de miséria que lhe descrevera o velho, miséria muito maior do que a sua, deram-lhe forças para prosseguir na peregrinação.
No dia seguinte entrava ele nas matas de Goitá, seu mundo virgem, em cujo seio, talvez pela razão de lhe consagrar entranhável afeto, se considerava o mais seguro e feliz dos mortais.
Deitou-se e dormiu.
Quando acordou sentiu que consigo havia acordado, mais devoradora e cruel, a fome que o tinha prostrado por terra na véspera.
Depois de ter levado quase todo o dia em vão à caça de algum fruto silvestre, deu com a vista, no meio de uma aberta que fazia a mata, sobre os estendidos canaviais do Engenho Novo.
Da lomba, onde havia parado, desceu rapidamente à orla da floresta.
Era quase noite.
Alongou os olhos pelas imensas quebradas onde a cana acamava, e só viu um mundo de verdura que lhe acenava com doces presentes.
Ah! ele podia passar meses dentro desse mundo, sem que o vissem, e sem risco de ser devorado por animais ferozes. Era uma região amiga a que se lhe abria diante dos olhos.
A planta que estava destinada a ser mais tarde a base principal da fortuna e riqueza de um vasto império; essa planta abençoada que dali punha à sua disposição nutritivo e precioso suco oferecia-lhe também proteção à sombra da sua basta folhagem. Podia ele, pobre foragido, refazer as forças no seio dessa solidão generosa que lhe daria a sorver licor suavíssimo, como o que mana de um seio maternal.
Cabeleira, rápido como um jaguar, pôs a cabeça de fora do mato, olhou, observou, e, nada vendo, atravessou o aceiro e penetrou no canavial.
Achando-se já dentro, voltou-se e observou de novo. Não viu viva alma. Do outro lado do aceiro estava a floresta virgem, donde ele havia saído. As sombras do lusco-fusco cobriam as montanhas, as quebradas, os vales, todo o retiro enfim. Em torno dele, e além das folhagens, além das planuras até onde pode chegar com a vista e com as ouças, só viu a solidão profunda, só ouviu o silêncio absoluto da natureza.
Ia adiantada a noite quando ele terminou sua refeição.
A lua discorria suavemente, entre castelos de nuvens, na vasta campina celeste, e a viração ciciava brandamente no canavial onde deixava as fragrâncias que, como abelha da noite, trazia do pau-d'arco da mata próxima em suas asas sutis.
Cabeleira pôs nos ombros as últimas das canas que quebrara e tomou a aberta por onde havia entrado. Mas foi logo obrigado a voltar sobre seus passos para não ser visto por dois negros do engenho que estavam defronte da abertura da camarinha.
O canavial não tinha somente esta saída. Mas qualquer delas para onde encaminhou seus passos se lhe mostrou tornada por escravos do engenho.
O Cabeleira achava-se tão longe de pensar que o guardavam, que acreditou, para explicar o que seus olhos descobriram, que os negros faziam quinguingu ao luar como de costume.
Deitou-se, e o sono que dormiu foi profundo e reparador. Se tivessem penetrado no lugar onde ele adormecera tê-lo-iam prendido sem dificuldade, como se fora uma criança.
Raiou enfim o dia com seu cortejo de luz e movimento.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.