Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Uma vela ardia solitária na sala do toucador e derramava fraca e escassa luz pela extensão daquella em que Juliana se conservava mysteriosamente velando.
Sentada junto de uma pequena mesa, sobre a qual descançava um dos braços nus, com seus cabellos soltos em multidão de bastos aneis que cahião sobre as suas espaduas magnificas, trajando um vestido branco que fazia lembrar a mortalha de uma virgem Juliana esquecida de si mesma no seio daquella meia sombra de uma sala mal esclarecida ; muda e só, pensativa e agitada, e apenas exhalando de momento em momento dolorosos e profundos suspiros, podia comparar-se ao cysne que, abandonado no lago, adivinha a aguia ainda distante, solta o seu grito pungente, mas não foge, e, como resignado, espera a hora do terrivel sacrificio.
Com os olhos fitos em uma pêndula que distinguia a alguns passos diante de si, não podendo apreciar o movimento regular e progressivo dos ponteiros annunciadores da marcha incessante do tempo, ella escutava aquelle monotono tic-tac, que parecia responder a cada palpitar do seu coração, como se o pêndulo vibrador pudesse estar lendo em sua alma, e marcando de momento a momento uma accusação da sua consciência.
E de cada vez que o sino da egreja vizinha, perturbando o silenco da noite, dava signal de um quarto de hora já passado, um estremecimento nervoso agitava o corpo delicado da donzella, e uma gotta de suor cahialhe pela fronte sobre o collo.
Pela janella que ficar entreaberta, entravão as auras da noite, que ião cubicosas brincar com os aneis de madeixa da formosa moça, e perfumal-os com os aromas roubados ás flores, e como thurificadores incensando uma victima prestes a sacrificar-se.
E o sino se fez ouvir ao perto quatro vezes seguidamente e logo depois, com o dobre mais grave, ainda uma vez.
Juliana estremeceu com mais violência do que até então, e balbuciou convulsa:
— Uma hora!...
XV.
Juliana esperava Jorge de Almeida.
Um successo imprevisto e não calculado tinha favorecido os projectos audaciosos do seductor, e determinando a concessão involuntária dessa entrevista nocturna, em que a virtude da apaixonada donzella ia ficar exposta aos maiores perigos.
Fábio havia, sem o pensar, arrojado Juliana naquelle abysmo, atirando o ramalhete de violetas sobre o piano.
A donzella vendo chegar o seu noivo, esquecera o fatal ramalhete, e somente delle se lembrara quando Jorge de Almeida o fez apparecer a seus olhos, beijando-o tres vezes.
O gemido que então escapou do seio de Juliana, foi o grito supremo de sua innocencia terrivelmente ameaçada.
Juliana não tinha concedido a entrevista já tantas vezes pedida pelo seu amante; reconhecia porém que este devia contar com ella e aproveitar-se do afortunado signal.
Se por instantes ella desejava que Jorge de Almeida perdesse a lembraça de uma concessão para elle tão lisonjeira, logo depois sua vaidade despertada tremia, receiosa de um esquecimento que chegaria a parecer um desprezo.
A virtude offerecia a Juliana um unico recurso, e determinava-lhe não descer ao jardim á hora aprazada, faltar absolutamente á entrevista, que realmente não fora concedida, e no dia seguinte explicar ao seu noivo com franqueza e verdade a causa dessa falta, e o motivo daquelle qui-proquó, que era tão offensivo da sua honestidade e da sua pureza.
Mas, preciso é repetil-o, o que tinha até então defendido a donzella não era a razão, era o instincto; não era a consciencia do dever, era o sentimento do pudor ; e essa barreira que se oppunha á satisfação do empenho criminoso de Jorge de Almeida, tinha desapparecido com o concurso involuntario de Fábio.
O pudor soffrêra apenas uma angustia rapida e instantanea quando Jorge beijara o ramalhete de violetas : a angustia estava passada, a grande difficuldade vencida.
E diante da consciência do dever, Juliana apadrinhava-se com um pretexto, dizendo a si mesma que não fora ella a culpada da concessão da entrevista.
A paixão inventava ainda outros sophismas para escusar um passo que era uma falta gravissima, um erro que ganhava já cora um previo remorso a alma de quem o commettia.
Juliana lembrava-se de que não tivera tempo de esclarecer Jorge de Almeida sobre o caso imprevisto que lhe dava logar a suppôr que seria esperado no jardim naquella noite, e contando que elle viesse ao encontro tão almejado, receiava que Jorge, se inutilmente a esperasse, resentido e afílicto, pudesse chegar a fugir-lhe e a esquecel-a.
E demais aquelle extremoso mancebo, que pouco antes viera, tão contente e feliz, apresentar as cartas em que seus pais abençoavão a escolha do seu coração, e se apressavão a manifestar taes sentimentos á própria familia pela sua amada, aquelle mancebo que assim se prendia pela sua honra e pela honra de seus pais, não deveria alcançar também uma prova immensa da mais completa confiança?...
A donzella sophismava perante o tribunal justissimo da sua
consciencia, como uma delinqüente que treme aos olhos do seu juiz.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.