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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Porisso, depois do que acontecera, não teve ânimo de contrariar de novo e tão proximamente o desejo do capitão-mór. Prestou-se a desempenhar por algum tempo o emprêgo de vaqueiro, do qual o afastavam os seus instintos de liberdade, os hábitos de sua vida nômade, e mais que tudo uma repugnância invencível de servir a qualquer homem por obrigação e salário. 

O vaqueiro não entra na classe dos servidores estipendiados; é quase um sócio, interessado nos frutos da propriedade confiada à sua diligência e guarda. Esta circunstância levou Arnaldo a condescender por enquanto com a vontade do capitão-mór. Fosse outro emprêgo, que a-pesar-da disposição de seu ânimo, não o aceitaria por uma hora. 

É de presumir que mais tarde se revele a causa oculta desta repugnância do sertanejo. Talvez a inspire o mesmo sentimento, que, em todas as ocasiões e ainda mais durante o passeio, o conservava arredio da comitiva, como uma pessoa estranha à família. 

— Onde ficou o capitão Fragoso de esperar-nos, D. Genoveva? perguntou o capitão-mór à mulher. 

— Na marizeira. 

— Ouviu, Agrela? disse o fazendeiro, voltando-se de leve para falar ao ajudante por cima do ombro. 

— Ouví, sr. capitão-mór. É daqui a meia légua. 

 

II – A montearia 

 

Tinha nascido o sol. 

Aos primeiros raios que partiam do oriente e se desdobravam pela terra como uma vaga de luz, a natureza, rorejante dos orvalhos da noite, expandiu-se em toda a sua pompa tropical. 

A cavalgada atravessa agora uma zona, onde o sertão ainda inculto ostenta a riqueza de sua vária formação geológica. 

De um lado, para o norte, os tabuleiros com uma vegetação pitoresca e original, que forma grupos ou ramalhetes de arbustos, semeados pelo branco areal e divididos por um interminável meandro. 

Do outro lado, o campo coberto de matas, no meio das quais destacam-se as clareiras, tapeteadas de verde grama e fechadas por cúpulas frondosas, como rústicos e graciosos camarins. 

Além a várzea, levemente ondulada como um regaço, e coberta de grandes lagoas formadas pelas águas das chuvas recentes. 

Do seio dêsse dilúvio, surge uma criaçãovigorosa e esplêndida, que parece virgem ainda, tal é a seiva que exubera da terra e rompe de toda a parte nos abrolhos e renovos. 

Alí são as carnaúbas que flutuam sôbre as águas, como elegantes colunas, carregadas de festões de trepadeiras, donde pendem flores de todas as côres e aves de brilhante plumagem. 

Mais longe as touceiras de cardos entrelaçam suas hastes crivadas de espinhos e ornadas de lindos frutos escarlates, que atraem um enxame de colibrís. Aí dentro da selva espêssa, fez a nambú seu ninho, onde piam os pintinhos implumes. 

Era então fôrça do inverno. 

Por toda esta vasta região, na qual um mês antes fôra difícil encontrar uma gota d’água a não ser no fundo de alguma cacimba, rolam as torrentes impetuosas de rios caudais formados em uma noite. 

A terra combusta, onde não se descobria nem mesmo uma raiz sêca de capim, vestia-se de bastas messes de mimoso, que a viração da manhã anediava como a crina de um corcel. E eram já tão altas as relvas do pasto, que inclinando-se descobriam as reses alí ocultas. 

A vegetação incubada por muito tempo desenvolvia-se com tamanho arrôjo, que mais parecia uma explosão; sentiam-se os ímpetos da terra a abrolhar essa prodigiosa variedade de plantas que se disputavam o solo, e acumulavam-se umas sôbre outras. 

Eram como cascatas de verdura a despenharem-se pelos vargedos, confundidas num turbilhão de fôlhas e flores, e sossobrando não só a terra, como as águas que a inundavam. 

A superfície de cada uma dessas grandes lagoas efêmeras, produzidas pelo inverno, tornara-se um solo fecundo, onde mil plantas palustres erguiam seus pâmpanos formando uma floresta aquática. 

Os cavalos em bandos e os magotes de éguas, soltos pela várzea, nitriam alegremente ao avistar a comitiva, e a seguiam por algum tempo rifando de prazer, enquanto os poldrinhos curveteavam travessos à cola das mães. 

Ao tropel dos animais surdiam das touceiras de panasco os novilhos e garrotes mansos, que deitavam a correr pelo campo; mas o gado mocambeiro esgueirava-se pelas moitas, e escondia-se manhoso à vista dos vaqueiros. 

Não era somente na terra, mas também no espaço que a vida sopitada durante a maior parte do ano, jorrava agora com uma energia admirável. 

Havia festas nos ares: a festa suntuosa da natureza. No meio da orquestra concertada pelos cantos dos sabiás, das graúnas e das patativas, retiniam os clamores das maracanãs, os estrídulos das arapongas, e os gritos dos tiés e das araras. 

Agora era um bando de jandaias que atravessava o espaço grasnando e ralhando, em demanda de outra carnaúba onde pousar. Passava depois a trinar uma multidãp de galos de campina, à cata do milhal; ou um enxame de chechéus que pousava em um jatobá sêco, e cobrindo-lhe os galhos mortos e nus de dôlhas, formava uma copa artificial com a sua luzida plumagem negra marchetada de ouro e púrpura. 

(continua...)

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