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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Eu me alinhei, pensava ela, porque enfim... hoje é domingo e talvez… como ontem já pôde chegar à janela, talvez consiga com algum esforço vir ver-me.

E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso espelho do mar, ela principiou também a cantar sua balada:

"Eu tenho quinze anos

E sou morena e linda ."

Mas, como por encantamento, no instante mesmo em que ela dizia no seu canto:

"Lá vem sua piroga Cortando leve os mares".

um lindo batelão apareceu ao longe, voando com asa intumescida para a ilha.

Com força e comoção desusadas bateu o coração de d. Carolina, que calouse para só empregar no batel que vinha atentas vistas, cheias de amor e de esperança. Ah! Era o batel suspirado.

Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficientemente, a bela Moreninha distinguiu dentro dele Augusto, sentado junto a um respeitável ancião, a quem não pôde conhecer; então, ela, vendo que chegavam à praia, fingiu não tê-los sentido e continuou sua balada:

"Enfim abica à praia

Enfim salta apressado..."

Augusto, com efeito, saltava nesse momento fora do batel, e depois deu a mão a seu pai para ajudá-lo a desembarcar; d. Carolina, que ainda não mostrava dar fé deles, prosseguiu seu canto até que quando dizia: "Quando há de ele correr Somente pra me ver...

sentiu que Augusto corria para ela. Prazer imenso inundava a alma da menina, para que possa ser descrito; como todos prevêem, a balada foi nessa estrofe interrompida e d. Carolina, aceitando o braço do estudante, desceu do rochedo e foi cumprimentar o pai dele.

Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez de seus semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias guardaram silêncio e não tiveram uma palavra para pronunciar; tiveram só olhares para trocar e suspiros a verter. E para que mais?... A sra. d. Ana recebeu com sua costumada afabilidade o pai de

Augusto e abraçou a este com ternura. Ao servir-se o almoço, ela lhe perguntou:

— Por que não veio o meu neto?

— Ficou para vir mais tarde, com os nossos dois amigos Leopoldo e Fabrício.

— Eu o espero.

— Então teremos um excelente dia.

Uma hora depois o pai de Augusto e a sra. d. Ana conferenciavam a sós, e os dois namorados achavam-se, defronte um do outro, no vão de uma janela.

E eles continuavam no silêncio, mas olhavam-se com fogo.

Augusto parecia querer comunicar alguma coisa bem extraordinária à sua interessante amada, porém sempre estremecia ao entreabrir os lábios.

E d. Carolina, cônscia já de sua fraqueza, e como lembrando-se dos pesares que tinha sofrido, não sabia mais servir-se de seus sorrisos com a malícia do tempo da liberdade e mostrava-se esquecida de seu viver de alegrias e travessuras.

Alguma grande resolução obrigava o moço a estar silencioso, como tremendo pelo êxito dela...

No fim de muito tempo eles haviam conseguido dizer-se:

— O mar está bem manso.

— O dia está sereno.

Felizmente para eles a sra. d. Ana convidou-os a entrar no gabinete. Augusto para aí se dirigiu tremendo, d. Carolina curiosa. Quando eles se sentaram, o ancião falou:

— Augusto, eu acabo de obter desta respeitável senhora a honra de te julgar digno de pretenderes a mão de sua linda neta, e agora resta que alcances o sim da interessante pessoa que amas. Fala.

Tanto d. Carolina como o pobre estudante ficaram cor de nácar; houve bons cinco minutos de silêncio e o pai de Augusto instou para que ele falasse, e o bom do rapaz não fez mais do que olhar para a moça, com ternura, abrir a boca e fechá-la de novo, sem dizer palavra.

A sra. d. Ana tomou, então, a palavra e disse sorrindo-se:

— Enfim, é necessário que os ajudemos. Carolina, o sr. Augusto te ama e te quer para sua esposa; tu que dizes?...

Nem palavra.

Foi preciso que se repetisse pela terceira vez a pergunta, para que a menina, sem levantar a cabeça, murmurasse apenas:

— Minha avó… eu não sei.

— Pois creio que ninguém melhor que tu o poderá saber. Desejas que eu responda em teu nome?...

A bela Moreninha pensou um momento... não pôde vencer-se, sorriu-se como se sorria dantes, e erguendo a cabeça disse:

— Eu rogo que daqui a meia hora se vá receber a minha resposta na gruta do jardim.

— Quererás consultar a fonte? Pois bem, iremos.

D. Carolina saiu com ar meio acanhado e meio maligno.

Passados alguns instantes a sra.. d. Ana, como quem estava certa do resultado da meia hora de reflexão, e já por tal podia gracejar com os noivos, disse a Augusto:

— O sr. não quer refletir também no jardim?

— O estudante não esperou segundo conselho e para logo dirigiu-se à gruta.

D. Carolina estava sentada no banco de relva, e seu rosto, sem poder ocultar a comoção e o pelo que lhe produzia o objeto de que se tratava, tinha, contudo, retomado o antigo verniz do prazer e malícia. Vendo entrar o moço, disse:

— Eu creio que ainda se não passou meia hora.

— Ah! Podia eu esperar tanto tempo?...

— Acaso veio perguntar-me alguma coisa?...

— Não, minha senhora, eu só venho ouvir a minha sentença.

— Então... pede-me para sua esposa. A senhora o ouviu há pouco.



(continua...)

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