Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
A visão do bem fez-me então ver, que o mano Américo assim me falara somente pelo escrúpulo com que zela a minha fortuna; confesso porém que me senti acanhado, e que experimentei verdadeira dificuldade de pedir mais dinheiro a meu irmão.
Eu já contava tantos e tão excelentes amigos que não hesitei em confiar a um deles os embaraços da minha situação.
—Há recurso fácil, respondeu-me esse fidus Achates, levo-te a um escrupuloso negociante que te emprestará todas as quantias de que precisares.
E com efeito conduziu-me à casa do mais nobre, benéfico, e generoso capitalista, que me, foi emprestando dinheiro a juros de três por cento ao mês, e assinando eu letras garantidoras das dívidas.
O processo me pareceu comodíssimo; porque eu obtinha por meio dele e com extraordinária facilidade tanto dinheiro, quanto me julgava necessário.
A minha vida econômica deslizava-se pois plácida e suavemente, e a visão do bem a abençoava, ensinando-me, que eu empregava santamente, e acertadamente algumas migalhas da minha inesgotável riqueza.
E fui vivendo assim até que em um dia rebentou a primeira bomba de uma girândola de loucuras, conforme a chamou o mano Américo.
Eu fiquei então estupefato.
XXII
O caso foi o mais simples de todos os casos, ao menos pelo que me pareceu.
Vencido o prazo da letra aceita pelo velho Nunes, e que eu assinei como endossante e sacador, não tendo ido o aceitante pagá-la, veio pessoa competente exigir de mim o pagamento.
Eu estava em casa e também o mano Américo que tomando o documento e vendo a minha assinatura, encrespou as sobrancelhas, escreveu sem hesitar uma ordem para imediatamente ser paga e remida a letra não sei, nem me importa saber como e por quem.
Ficamos sós.
— Simplício, disse-me o mano Américo de mau humor; acabas de ser vitima de um velhaco.
—Velhaco? Não o creio.
—O Nunes? Todos o conhecem.
—Melhor o conheço eu.
—Como?
—Estudei-o perfeitamente por meio da minha luneta mágica que me dá a visão do bem. O velho Nunes é um tipo de probidade.
Américo olhou-me com a mais triste compaixão e tornou-me:
—Dez contos de reis! Deus permita que não seja esta a primeira bomba de alguma girândola de loucuras.
E tomando o chapéu, saiu apressado e como que abismado em mar de negras apreensões.
Eu estava espantado.
Para mim não havia nada mais natural, do que o velho Nunes não ter conseguido obter dez contos de réis no prazo fatal, e conseqüentemente pagar eu por ele.
Ninguém seria capaz de convencer-me de que o velho Nunes deixaria de pagar-me os dez contos de réis que eu apenas adiantara.
Era questão de tempo, demora de alguns dias ou de breves semanas.
A visão do bem não me enganava: o meu amigo Nunes é rígido como Catão, probo como a probidade mais austera.
E além de tudo isso, não é ele o feliz pai da formosa Nicota?
XXIII
Quando meu irmão entrou para jantar, tinha eu a luneta fixada, e quase o desconheci, tão descomposta pela cólera estava a sua fisionomia.
—Quebra essa luneta! exclamou furioso e com voz de trovão.
Ele avançava sobre mim; mas eu escondi no seio a luneta, e a tia Domingas e a prima Anica vieram correndo em meu socorro.
—Que é isto? perguntou a primeira assustada.
—É este doido, este frenético esbanjador, que em menos de dois meses atirou ao meio da rua trinta e dois contos de reis!...
—Misericódia! exclamou a tia Domingas.
—É possível?... disse Anica, perguntando-me.
O mano Américo trêmulo e agitado arrancou do bolso uma dúzia de letras aceitas por mim e que ele acabava de resgatar, pagando o principal e prêmios ao meu honradíssimo banqueiro, e mostrou-as às duas senhoras.
—Eis aí como este louco obtinha dinheiro para desastradamente esbanjar, fazendo avultados empréstimos a quantos velhacos quiseram abusar da sua mania, jogando e deixando-se roubar no jogo, pagando jantares e celas a cem desfrutadores, que riem-se dele, assinando centenas de mil-réis em falsas subscrições para obras pias e, o que é mais, entregando enormes somas a uma mulher desprezável, a cujos pés o idiota se ajoelha, adorando-a, como anjo de caridade!
A tia Domingas e a prima Anica pronunciaram-se violentamente contra mim, e com o mano Américo cantaram-me o mais horroroso terceto.
Conservei-me silencioso e imóvel; mas tremendo pela minha luneta mágica.
—E eu que não vi, que não adivinhei, que não compreendi o que se foi passando e naturalmente devia passar-se nestes dois meses!!! a bomba dos dez contos despertou-me hoje, sai, procurei informações; todos sabem, e somente nós ignorávamos, todos me indicaram o usurário que empresta dinheiro, e o exército de bargantes que depenam este imbecil!.. Todos zombam dele, e devem zombar; porque o néscio esbanjou em menos de dois meses a terça parte pelo menos da fortuna que possuía!
Meu irmão tinha-me insultado tanto, que não pude mais conter-me e respondi-lhe:
—Ainda bem que foi da minha fortuna o dinheiro que despendi: já tenho idade bastante para empregar o meu dinheiro, como entendo, e sem pedir licença nem dar contas a alguém.
O tercéto rebentou de novo e uma chuva de impropérios e de maldições caiu sobre mim.
—Idade! exclamou enfim o mano Américo, dominando as outras duas vozes: os néscios, os idiotas não têm idade, e aos idiotas e dissipadores nomeia-se um curador!
(continua...)