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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Este ente tinha à sua disposição o mato para o receber, os ecos para o avisarem da aproximação dos que o buscavam, os rios para encherem depois de sua passagem, as grutas para o esconderem, a natureza enfim para o disputar tenazmente aos homens, ao poder público, às leis, à justiça, ao próprio Deus segundo parecia.

A tardinha Marcolino estava no lugarejo. Debalde perguntou, debalde indagou. Não houve quem lhe desse novas do famoso bandido.

Aí pernoitou, mas não dormiu.

Muito cedo meteu-se nas matas.

A cabo de dois dias, consumidos sem resultado, entrou a cair em si. A razão tinha-se libertado da alucinação que a prendera em suas redes de aço. A sua doce luz reapareceram os caminhos que as trevas da paixão tinham encoberto ao olhos da vítima do sonho fatal.

Marcolino caíra em si no meio do deserto, ouvindo o rugir das feras, lutando com a fome.

Desanimado, envergonhado da sua fraqueza, resolveu voltar ao seio da família.

Então a imagem dos filhos e da mulher lhe apareceu na mente. Ele teve saudades da casa e quis partir à mesma hora; mas conhecendo os perigos a que se expunha se o fizesse, aguardou sôfrego a madrugada. Quando os horizontes começaram a desmaiar, e o brilho das estrelas a embranquecer, Marcolino pôs-se a caminho.

Estava inteiramente outro.

A vergonha cobria-lhe o rosto, o medo dominava-lhe o espírito, na consciência doía-lhe o remorso de haver, sem o menor interesse pessoal, desamparado mulher e filhos nas garras da miséria.

O dono da casa onde ele havia pernoitado dois dias antes, ao qual devia, além desta, outras muitas obrigações, dera-lhe uma carta para ser entregue por ele ao senhor do Engenho Novo que de presente faz parte da freguesia de Pau d'Alho, e pertencia naquele tempo a Goiana.

Quando Marcolino chegou a Pau d'Alho, o cavalo estava cansado da viagem, e do mau passar durante ela. Para levar a carta a seu destino, teve o matuto de caminhar a pé. Ele viu nisso uma nova tribulação com que a sorte o punia da sua loucura.

Ao anoitecer, de um alto por onde passava o caminho antes de sair da mata que cercava o engenho pelo lado do sul, viu ele um homem correr gacheiro e cauteloso pelo aceiro afora, e entrar adiante no canavial.

Marcolino por um triz não caiu fulminado de espanto, sobressalto e satisfação ao mesmo tempo.

Tinha reconhecido nesse homem o Cabeleira.

CAPÍTULO XVI

A fome obrigara o bandido a deixar o mato, como obriga as aves a emigrarem, e as feras cervais a deixarem seus covis.

Havia cinco dias que ele partira de Santo Antão, e três que não comia senão os escassos frutos que lhe dava a macaibeira, o ananaseiro bravio, o jatobá do deserto.

Uma tarde em que a fome e a fadiga o tinham prostrado, viu dentre umas touceiras de taquara onde se recolhera para cobrar animo, um cavaleiro que, havendo atravessado o rio, de força tinha de passar a poucos passos dele, em um cotovelo formado pela picada.

O cavaleiro era um velho e parecia-se mais com uma múmia do que com um ente vivo.

Tinha a pele grudada nos ossos, e seu corpo apresentava ângulos e retas de dureza escultural.

O cavalo não tinha melhor parecer do que seu senhor. Era uma armação óssea informe, pesada, cadavérica e triste.

Trazia o velho tão caída a cabeça para diante, que quase chegava com o queixo recurvado ao cabeçote da cangalha. O cavalo, parecendo ceder à mesma lei que o cavaleiro, por vezes varria com os beiços coriáceos o pó do caminho. Essa lei era a lei da fome.

"Este velho", pensou o Cabeleira, "traz pelo menos farinha nos caçuás. Vou tomar-lhe para mim, e se ele não quiser entregar-me a sua carga, corto-lhe a garganta."

Empunhou o pedaço da faca, única arma que lhe restava do terrível cangaço de outrora, e quando o velho confrontou com ele, saltou-lhe ao cabresto do cavalo. Este parou de muito boa vontade, enquanto seu dono, sem se mostrar aterrado nem sobressaltado, disse ao bandido:

— Guarde-o Deus, meu senhor — saudação que até bem pouco tempo se ouvia no sertão.

Quando estava para fazer a terrível intimação, sentiu o Cabeleira faltar-lhe força para suster o cabresto, tremeram-lhe as pernas, vacilaram-lhe os pés. Seus olhos tinham dado com a imagem de Luísa, de joelhos na beira do caminho com as mãos postas, os olhos suplicantes, tristes e chorosos, voltados para ele. Pareceu-lhe até ouvir as seguintes palavras:

— Não o mates, Cabeleira.

Esta ilusão era efeito da sobreexcitação nervosa, produzida em todo o seu organismo pela falta de alimentos, pela dor moral que lhe causara o transito da moça, ou talvez pela profunda revolução que antes de ter ela falecido havia obrado nos seus instintos, idéias, e hábitos, o sentimento destinado a redimi-lo do erro, e do crime — o amor.

Foi tão profundo e violento o abalo que experimentou ao ver aquela doce efígie (a qual ele julgava ter desaparecido para sempre de seus olhos ), que irresistivelmente lhe escaparam dos lábios estas palavras:

— Não o matarei, meu amor; não o matarei.

Mas não foram somente as palavras que lhe escaparam violentamente dos lábios; dos olhos lhe saltaram também lágrimas espontâneas, que ele não pôde reprimir.

(continua...)

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